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A memória e o tempo ainda resistem

Vigia de Nazaré é uma cidade em que a história está presente em ruas estreitas e prédios históricos. Construções de um tempo antigo, que marcam a passagem dos jesuítas pelo município, como a Igreja de Nosso Senhor dos Passos, mais conhecida como Igreja de

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Vigia de Nazaré é uma cidade em que a história está presente em ruas estreitas e prédios históricos. Construções de um tempo antigo, que marcam a passagem dos jesuítas pelo município, como a Igreja de Nosso Senhor dos Passos, mais conhecida como Igreja de Pedra, erguida no século 18. Do mesmo período é a Igreja de Romeiros de Nossa Senhora de Nazaré – a matriz do lugar. Histórico também é o Palácio Legislativo Trem de Guerra. O prédio virou símbolo de resistência das autoridades locais aos dois ataques dos revoltosos da Revolução da Cabanagem em 1835, uma das mais importantes insurreições do país. A cidade resistiu, mas foi alvo de depredações.

Em sua origem, Vigia era habitada pelos índios Tupinambás, cuja aldeia chamava-se “Uiratá”. Com a chegada de Francisco Caldeira Castelo Branco o cenário se modificou. No local da aldeia “Uiratá”, o governo colonial construiu um posto alfandegário. O objetivo era evitar o contrabando de especiarias pelos ingleses, franceses e holandeses. A vigilância por parte dos colonos teria dado origem ao nome do município.

MÚSICA, TRADIÇÃO QUE SOBREVIVE

A cidade tem formado e apresentado músicos de renome para o país, como o clarinetista Jairo Wilkens e o saxofonista Marcos Cardoso, o Puff. Wilkens foi agraciado como o ‘Melhor Instrumentista Erudito de 2001 do Paraná, categoria Sopros’. Desde 2009, atua como 1º clarinete na Orquestra da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Purff já tocou em companhia de artistas como: Billy Blanco, Verequete, Ivan Lins, Hebe Camargo, Guinga, J.J. Jackson (EUA), Ney Conceição, Robertinho Silva, Lucinha Bastos, entre tantos outros.

O sucesso dos músicos inspira os alunos mais jovens do Clube Musical União Vigiense, banda fundada há 96 anos. Além do curso de musicalização, o clube oferece aulas de informática aplicada à música e se mantém com as mensalidades pagas pelos alunos e ajuda dos pais dos jovens. Atualmente, a banda principal é composta por 36 músicos e também possui uma banda feminina, com 27 meninas. E faltam instrumentos musicais. Boa parte do acervo da União Vigiense está danificado e muitos só servem como decoração do ambiente, pois já não podem nem mesmo passar por reparos. E é a União Vigiense uma das bandas que anima o carnaval de Vigia, hoje conhecido nacionalmente. Atualmente, outra tradição da cidade, o carimbó, está se perdendo. “Mestre Santana morreu e deu uma queda muito grande. Fazemos o máximo para manter vivo, mas no carnaval nós temos de tocar a baianada para agradar o público.

Somos referência de música no Norte do Brasil. Se fossemos de outro lugar a situação talvez fosse diferente”, pondera Alexandre Cardoso, vice-presidente da União.

MUDANÇAS

Nos últimos 30 anos, a população da cidade praticamente triplicou, chegando a cerca de 50 mil pessoas. E os problemas de cidades maiores, como a violência urbana, já atingiram o cotidiano dos moradores. Nascida em Vigia, a professora Andrea Pinheiro Ataíde Monteiro lembra do tempo em que ficar até um pouco mais tarde na porta de casa era um passatempo bem menos perigoso.

Antigamente a gente podia ficar até às nove da noite no portão. Hoje, dá nove horas, a gente entra em casa por causa dos pivetes, é uma tristeza”, lamenta.

Em Vigia, a professora casou, teve quatro filhos e trabalhou por 32 anos na escola Barão do Guajará, onde se aposentou como diretora. Poucos acompanharam tão intensamente as mudanças do local. “Hoje tem muita gente de fora. A cidade cresceu. O setor de educação cresceu. No meu tempo não tinha faculdade e hoje nós já temos a UEPA (Universidade do Estado do Pará) e em breve uma escola-técnica”, conta.

E não é difícil imaginar o motivo do catolicismo ainda dominar. Vigia é palco do Círio mais antigo do Pará. A procissão ocorre há mais de 300 anos, sempre no segundo domingo do mês de setembro. Relatos de moradores narrados por gerações contam que a história do Círio de Vigia é anterior à chegada dos jesuítas, em 1730. Registros apontam que desde 1697 já havia grande devoção, com romaria e novena de fiéis na localidade.

(Diário do Pará)

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