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Agosto, mês de nascimento do Diário

É comum que brasileiros chamem agosto de mês do desgosto, mas essa fama de “agourento” não é conhecida só aqui e nem é coisa recente. Para o DIÁRIO, nascido em 22 de agosto, essa crença é duvidosa, afinal, sua primeira capa também contava com boas manchet

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É comum que brasileiros chamem agosto de mês do desgosto, mas essa fama de “agourento” não é conhecida só aqui e nem é coisa recente. Para o DIÁRIO, nascido em 22 de agosto, essa crença é duvidosa, afinal, sua primeira capa também contava com boas manchetes. A principal tornou-se histórica e anunciava o presidente do TRE exigindo eleições limpas em 1982.

Com nossa cultura entrelaçada a de Portugal, foi deles que herdamos a tradição. Lá, casar em agosto significava ficar só, sem lua-de-mel ou até mesmo viúvo, pois era quando as expedições zarpavam à procura de novas terras. Nossos vizinhos argentinos também têm seus temores quanto ao mês. Por lá, quem lava a cabeça em agosto está chamando a morte. E mesmo antes dos portugueses, romanos do século I acreditavam que um dragão passeava pelo céu durante as noites de agosto.

Saindo das crenças populares, temos que admitir a existência de vários fatos históricos que só fizeram propagar as velhas superstições, como o início da I Guerra Mundial em agosto de 1914, os dias 6 e 9 de agosto de 1945, quando as cidades japonesas Hiroshima e Nagazaki foram destruídas pela bomba atômica, e até os escândalos de Watergate, que culminaram na renúncia ao cargo do presidente americano Richard Nixon em 08 de agosto de 1974.

Mera coincidência? É difícil dizer, já que o mês de agosto também coleciona boas notícias. A historiadora Rosejane Alves lembra um marco para a história do comércio no mundo todo: o uso, pela primeira vez, da expressão “made in”. Em 23 de agosto de 1877, com o objetivo de melhorar as exportações, os britânicos adotaram esta ideia para diferenciar os produtos da Grã-Bretânia dos de outros países. Assim, até hoje, designamos a procedência de toda a produção comercializada no exterior.

BRASILEIROS

Para os brasileiros, outros fatos também devem ser considerados, como o fim da censura no Brasil, aprovado pela Assembleia Nacional Constituinte em 3 de agosto de 1988. “Nesse momento, a constituição passou a ser cidadã. Pós-ditadura a lei era desarticulada do que o povo queria. O maior trunfo foi a liberdade de expressão. Ela veio para arrebentar essa corrente, essa mordaça que havia sido posta na imprensa”, relembra o advogado, Augusto Gamboa.

Para a tecnologia e o avanço das comunicações, outros acontecimentos colaboraram para amenizar os desgostos do mês. O satélite brasileiro Brasilsat B1 foi lançado por um foguete francês em agosto de 1994. O aparelho destinava-se a prestar serviços de telefonia, além de transmitir dados e sinais de TV. E o primeiro website posto no ar? Sim, esse fato consta no calendário da história em pleno 7 de agosto de 1991, quando Tim Berners-Lee inaugurou a World Wide Web.

Nos esportes também ignoramos a ‘zica’. Ano de 1992, na Espanha, sem perder nenhuma partida durante a competição, a seleção brasileira de vôlei vence os holandeses e conquista a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Barcelona. Foi a primeira vez que os brasileiros subiram ao topo do pódio em um esporte coletivo durante uma Olimpíada.

“Eu lembro que foram três sets a zero. Com um ponto de saque do Marcelo Negrão. Era uma verdadeira seleção, tinha muita gente boa como o Tande, Maurício, Giovane. E muita expectativa porque era um título que o Brasil estava em busca”, relembra Marcos Pinto, um entre muitos brasileiros que comemoraram essa vitória em pleno mês do desgosto.

De acordo com o historiador Geraldo Martires Coelho, outras datas devem ser lembradas. “Os paraenses devem considerar o mês de agosto especial para todos, para a história do Estado e para a vida pública”. Geraldo nos lembra que foi em 11 de agosto de 1823 que a Junta de Governo local proclamou o seu reconhecimento ao governo de D. Pedro I e ao Império do Brasil, separando-se de Portugal, dia conhecido como a Adesão do Pará à Independência do Brasil. E conta que ainda no dia 15 de agosto de 1823 houveram várias comemorações com missas e desfiles da tropa, celebrando esse grande momento da história paraense.

“Dessa forma, nós vamos atenuando a má fama do mês de agosto, cuja denominação, na origem, relaciona-se a Augusto, o grande imperador da Roma antiga”, conclui. Para nós, resta esperar que outros bons acontecimentos, de grandes e pequenas proporções, venham equilibrar a balança a favor deste mês.

Imagine que, por uma anomalia absurda, um lapso na estrutura temporal do universo, uma falha na constante do tempo-espaço, tudo que aconteceu durante todos os meses de agosto nunca tivesse acontecido. Certamente você não poderia estar fazendo esse difícil exercício mental agora, já que o DIÁRIO, publicado pela primeira vez no dia 22 de agosto de 1982, nunca teria sido lançado. Mas que outras consequências essa situação absurda poderia provocar?

Se todas as coisas que aconteceram durante os agostos se perdessem para sempre, teríamos importantes perdas: a beleza de Juliana Paes nunca poderia ser apreciada em “Gabriela”, por exemplo, já que o escritor Jorge Amado, que publicou o romance que inspirou a trama, nunca teria nascido. A Garota de Ipanema seria apenas mais uma carioca se Tom, Vinícus e João não a tivessem apresentado ao mundo em agosto de 62. E o que seria de Nova Iorque, povoada por super-vilões, sem as teias de outro aniversariante do mês? o Homem-Aranha!

No entanto, nem todos os efeitos seriam ruins: a obra de Carlos Drummond de Andrade poderia ser mais vasta, por exemplo, se o poeta não tivesse falecido em agosto de 87. Além disso, poderíamos apreciar a beleza de Marilyn Monroe amadurecendo em vários outros clássicos, se a atriz não tivesse morrido precocemente em agosto de 62.

Bons ou ruins, divertidos ou lamentáveis, os fatos que aconteceram durante estes agostos são como cenas de filmes do diretor Alfred Hitchcock: cheios de momentos marcantes que, se retirados, certamente tornariam a história um pouco menos interessante. Hitchcock, aliás, que nasceu em 1899, no dia 13 de agosto.

(Diário do Pará)

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