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NOTÍCIAS PARÁ

Quando fazer jornal era quase artesanal

Socorro diz que foram tempos heróicos. Rosa, um período gratificante. Carlos só tem boas lembranças e Nilton enfatiza a herança deixada para o futuro. Quatro personagens dos primeiros tempos do Diário do Pará. Não se sentem confortáveis com o rótulo de pi

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Socorro diz que foram tempos heróicos. Rosa, um período gratificante. Carlos só tem boas lembranças e Nilton enfatiza a herança deixada para o futuro. Quatro personagens dos primeiros tempos do Diário do Pará. Não se sentem confortáveis com o rótulo de pioneiros, mas tanto Socorro Gomes, Carlos Rauda, Rosa Gomes e Nilton Guedes sabem que participaram de um momento histórico do jornalismo paraense.Os primeiros anos do Diário.

“Fui a primeira jornalista mulher do Diário”, lembra Socorro Gomes. Mas não foi fácil vencer a resistência de Laércio Barbalho. Com uma pequena experiência adquirida no “Estado do Pará”, de Avertano Rocha, a ainda estudante do curso de Comunicação Social da UFPA decidiu aventurar. Não teve sorte. Pelo menos de início. “O ‘seu’ Laércio era todo sorridente, bonachão. Mas foi logo dizendo que no jornal não trabalharia mulher. Só tinha homem”. Socorro questionou e ouviu a explicação. O Diário naquele período era como o garimpo de Serra Pelada. Se entrasse mulher daria confusão. Na saída, um tanto decepcionada, Socorro descobriu que havia uma mulher na empresa. “Era a Deusarina, mas ela trabalhava no setor de Recursos Humanos. Liguei para o ‘seu’ Laércio e argumentei. Ele respondeu que ela trabalhava escondidinha no canto dela”. Socorro não desistiu. Passou a ligar de vez em quando. A resposta era sempre a mesma. Quando já pensava em entregar os pontos, Socorro recebeu uma ligação a mando de Laércio Barbalho. “Ele disse que estava se rendendo. E eu me tornei a primeira mulher a trabalhar na redação do jornal”, lembra.

A ‘ficha’ foi caindo aos poucos. No começo ainda havia estranhamento, mas depois Socorro foi sendo considerada ‘da turma’. Virou meio ‘mascote’ de todos. Culminou com um ‘chá de bebê’ organizado pelos ‘homens’ da redação. “Num boteco, com todos os presentes errados, mas eles achando que tinham organizado tudo direitinho”, conta, em risos. O editor Carlos Queirós, por exemplo, foi o último a chegar, trazendo no bolso da calça um ‘pipo’.

Período de incertezas e esperanças, os primeiros anos do Diário do Pará ainda são lembrados com carinho por quem os viveu. Rose Gomes entrou em 1987. Também em uma situação atípica. Não tinha quase experiência alguma e sequer fazia universidade, mas fazia um estágio informal no jornal. “Seu Laércio me deu um ultimato. Disse que me contrataria se eu passasse no vestibular para Comunicação. E ficava sempre me cobrando”. A redação inteira acompanhava e ajudava Rose nos estudos. “Quero ver teu nome na lista”, dizia Barbalho. Viu. E Rose foi contratada.

Rose acabou participando da última greve feita por jornalistas em Belém. Laércio Barbalho viu. E fez questão de comentar depois com ela. “O que eu podia fazer? Tinha de participar”, justificou-se ela. Não foi demitida, mas um editor a transferiu para a editoria de Esporte, como punição. “Pois adorei. Fui uma das primeiras mulheres a trabalhar com esporte aqui”.

Uma das lembranças que marcam a jornalista foi quando recebeu o primeiro décimo-terceiro salário. Empolgada, foi às compras. Foi furtada. Chegou arrasada à redação. No dia seguinte, descobriu que uma ‘vaquinha’ havia sido feita. Recebeu todo o valor do salário. Carlos Rauda já tinha 38 anos quando entrou na fila para tentar uma vaga de fotógrafo no Diário. Nem tinha tanta esperança, mas acabou contratado. Ter um equipamento próprio era vantagem que não deveria ser desprezada naqueles primeiros anos.

Rauda lembra as dificuldades técnicas existentes à época. A transmissão de fotos, por exemplo, era sempre difícil, na técnica da ‘telefoto’. Rauda fez, pelo Diário, o que seria a posse de Tancredo Neves. E cobriu o assassinato de Paulo Fontelles. São lembranças de coberturas da época que ficaram marcadas para ele.

O jornalista Nilton Guedes ressalta a transição dos primeiros anos. “Começamos no chumbão, depois que passamos para o off-set. Era árduo, braçal, bem artesanal mesmo”, diz. Levado ao Diário por Sérgio Noronha, Guedes diz que havia um romantismo no jornalismo feito no período. Um clima meio boêmio e notívago entre os jornalistas. Outra coisa destacada por Guedes era aquilo que ele considera ter feito sempre a diferença no Diário. “Como era um jornal de oposição, era um jornal mais quente. Ele se transformou de um jornal de campanha em um porta-voz do povo. Sempre foi assim”.

“O Diário foi uma escola para mim”, lembra Rose Gomes. É assim que Nilton Guedes também percebe a importância que o Diário exerce. “Qualquer companheiro da ativa deve estar satisfeito por ter visto o jornal continuar no rumo certo”, diz Guedes. “Participamos de tempos heroicos. Não tenho dúvida disso”, resume Socorro Gomes.

(Diário do Pará)

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