“Em mais de 30 anos como médico nunca vi a situação chegar a esse ponto tão caótico”. O desabafo é de João Gouveia, diretor administrativo do Sindicato dos Médicos do Estado do Pará (Sindmepa). Somadas às paralisações que já atingiram as unidades municipais e recorrentes problemas no interior de Estado, estão agora dezenas de denúncias sobre a falta de medicamentos e de infraestrutura no hospital Universitário João de Barros Barreto, em Belém.
Segundo cerca de 20 médicos residentes, que procuraram o sindicato para relatar o caso, mortes poderiam ter sido evitadas caso o material hospitalar não estivesse em falta. Entre os remédios inexistentes estão alguns de uso básico como antibióticos, anticoagulantes e até analgésicos. Faltariam também equipamentos como sonda nasoenteral (para alimentação de paciente), eletrocardiograma (para monitoramento cardíaco) e desfibrilador (para reanimação).
Na semana passada, cirurgias teriam sido desmarcadas pela ausência de compressas e luvas. “A situação no Barros Barreto não é de hoje, nem algo novo, e merece mais atenção das autoridades, inclusive da Secretaria de Saúde do Estado. A Sespa também é gestora da prestação de serviços do SUS( Serviço Único de Saúde) e precisa atuar para solucionar o problema. O que não pode é todos se eximirem de responsabilidade e o cenário continuar assim”, afirmou João Gouveia.
Com intuito de mobilizar o poder público, o Sindmepa protocolou uma representação junto ao Ministério Público Federal (MPF) e solicitou uma audiência com a direção do Barros Barreto para discutir o caso. Médicos da unidade também participarão do evento. “Levaremos ainda o caso ao Conselho Estadual de Saúde com pedido de audiência pública”, adicionou Gouveia.
Além de levar o caso às autoridades de saúde, o Sindmepa orientou os residentes a registrarem diariamente os problemas no prontuário e no livro de registro de ocorrências médicas e, se necessário, que façam também boletim de ocorrência em uma delegacia para evitar serem responsabilizados por mortes que possam ocorrer pela falta de estrutura no hospital.
Direção admite crise financeira e MP vai apurar denúncias
Em pronunciamento oficial no início da semana, a direção do Hospital confirmou que o local passa por uma grave crise financeira e nem o repasse de exatos R$ 2.273.351,61 do Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários (Rehuf) para o Hospital Universitário João de Barros Barreto ainda não será suficiente para equilibrar os serviços da unidade.
Mesmo assim, rebateu as denúncias sobre as péssimas condições da estrutura física do prédio do HUJBB e que o atendimento reduzido é resultado de reformas no local.
O Ministério Público Federal (MPF) afirmou que vai investigar as denúncias e deve instaurar inquérito e intimar médicos, farmacêuticos, fornecedores e a direção do hospital para prestarem esclarecimentos.
(Diário do Pará)
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