Em três décadas o modo com que os brasileiros em geral vêm ao mundo mudou. O verbo parir caiu em desuso e quase se tornou ofensivo, como que relegado a outras espécies de mamíferos que não aos humanos. Mas parir, que é consequência natural de um parto normal, deixou de ser normal, no sentido de rotina, e as cirurgias cesarianas ganharam espaço. A Organização Mundial de Saúde-OMS preconiza que apenas 15% dos partos sejam cesarianas, mas no Brasil esse índice passa de 50% e segundo dados da Unicef, no relatório global Situação Mundial da Infância 2011, o país já é líder nesse tipo de cirurgia. Mas no que depender da disposição de algumas mulheres e de alguns profissionais, esse quadro mudará novamente.
A funcionária pública Ana Paula Gaia Loureiro tem dois filhos e ambos nasceram em partos normais. Para sustentar a escolha, no entanto, ela teve que lutar. Mudou de médico três vezes, teve que se informar para saber as reais indicações das cesarianas, fugir do que ela chama de mitos. “Escolhi por ser o melhor para mim e para o bebê, mas foi uma luta árdua para conseguir. Descobri que mitos como cordão enrolado no pescoço não é indicação de cesariana, por exemplo. Antes, eu achava normal a cirurgia porque todo mundo passava por ela. Mas pesquisei muito, encontrei textos baseados em evidências científicas falando do parto normal, natural e humanizado, além de fotos lindas de mulheres com seus bebês após parirem”, comenta.
Depois de um tempo ela começou a participar de reuniões em um grupo de apoio para gestantes e levou toda a família para as reuniões para que todos tivessem dimensão das informações repassadas. Além disso, passou a conviver com outras gestantes e ter outras informações sobre o processo. Tudo isso contribuiu para o propósito de lutar pelo parto normal.
Depois de mais de 20 horas em trabalho de parto, ela não reclama da escolha que fez. “É uma sensação maravilhosa, de realização. É um ciclo que começa com o sexo, passa pela gestação e com o nascimento do bebê. E depois é seguido de outros ciclos”, analisa.
Mesmo escolhendo o parto normal, Ana Paula teve os filhos em locais diferentes. O mais velho foi no hospital, a segunda foi em casa, em um parto domiciliar planejado. “Depois de ter o Augusto eu fiquei me questionando sobre a real necessidade de ter um filho no hospital. Isso para mim não havia mais sentido. Enquanto estava lá eu queria me concentrar e nem sempre conseguia. Muitas vezes os enfermeiros e funcionários da limpeza entravam sem respeitar aquele momento, sem pedir licença e também tive que passar 24 horas no hospital. Além disso eu acredito que saí de lá com uma infecção hospitalar”.
Ela engravidou dez meses após o primeiro parto e dessa vez queria um parto diferente. “O principal motivo foi a segurança do parto domiciliar, há estudos que apontam que esse tipo de parto, para gestantes de baixo risco, é mais seguro do que os hospitalares”, explica. Como a gravidez não teve problemas, ela contratou dois enfermeiros obstetras e uma doula e se preparou para ter a filha Maitê em casa, em uma banqueta de parto. “Os dois partos foram muito bons, mas o segundo foi especial porque não teve gente entrando no quarto toda hora e atrapalhando o processo. Eu me senti mais segura em casa, não tive laceração e o período expulsivo foi bem mais rápido. A sensação de satisfação foi maior. Se eu tiver o terceiro filho e a gravidez for de baixo risco também terei em casa. É incomparável”, desabafa a funcionária pública.
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