Iluminada sob os holofotes do Círio 2012, Belém vive hoje a expectativa da chegada de milhares de turistas. No ano passado, de acordo com Dieese, mais de 72 mil visitantes passaram pela capital paraense apenas durante a quinzena da festividade. No Pará, durante todo o ano, foram 770 mil e a expectativa é de que se alcance o número recorde de um milhão ainda este ano. Um desafio, entretanto se coloca a essa expansão. Apesar das belezas oferecidas, sobram queixas entre os turistas. Sujeira, descaso com o patrimônio, violência e trânsito chamam a atenção de quem está a passeio por Belém.
“Estamos adorando a cidade. O exotismo e o acolhimento das pessoas são o destaque, mas não dá para notar que a cidade é muito suja, o que é muito ruim. Há muitas valas abertas nas ruas e observamos que as pessoas jogam tudo no chão”, comenta penalizada Maria Lúcia Estanqueira enquanto aprecia um dos mais tradicionais pratos típicos da região, o tacacá, na maior feira livre a céu aberto da América Latina. “Ele [o marido] até disse que aqui não daria para comer, mas olhei com calma e vi que esta barraca era limpinha. Meu desejo era conhecer o Ver o Peso e poder apreciar essa delícia, seria um dó não parar”, diz entre um gole e outro, enquanto o marido, Alfredo Estanqueira, completa. “É que eu acho que entramos pelo lugar errado, ali onde ficam os pescadores. O lixo e a quantidade enorme de urubus assusta. Na volta, mudaremos a rota”, atesta em referência ao espaço conhecido como Pedra do Ver o Peso.
Participantes de um congresso de história realizado até ontem na cidade, as professoras, Patrícia Sampaio, Silvia Lara e Ângela Dominguez, tiveram impressões diferenciadas de Belém durante passeio realizado na manhã da última sexta feira. Desviando aqui e ali de homens maltrapilhos que se multiplicam nas calçadas do centro de Belém e do mercado do Ver o Peso, elas mantinham a atenção às bolsas durante as compras de artesanato. “Não tive nenhum contratempo em relação à segurança, mas durante a minha última visita percebia uma tensão das pessoas em andar nas ruas. É bom ficar atenta”, resumiu Ângela, vinda de Lisboa. “O trânsito me assustou bastante. Como é caótico o fluxo de carros nesta cidade, a impressão que se tem é que ninguém se entende”, destacou a paulistana Silvia que também observou a falta de cuidados com o patrimônio. “A gente vê a história da cidade sendo usurpada dos casarões. São filas inteiras de azulejos arrancados não só dos prédios, mas da riqueza da cidade. Infelizmente é uma realidade de todo Brasil, repetida em Belém”, refletiu com a interferência da amiga Patrícia.
Apesar de triste, a observação da turista não é vista como novidade para quem se dedica ao patrimônio no Estado. Historiador e fotógrafo, Michel Pinho, diz que o turismo de patrimônio é inexpressivo no Estado ante aos atrativos mal, e pouco, aproveitados. Desde a colonização, o Pará se destaca no cenário Amazônico e durante o período áureo da borracha, Belém viveu a plenitude da economia que trouxe reflexos para a arquitetura local. “Haveria uma possibilidade enorme de se explorar esse segmento turístico, inclusive em outras frentes que não apenas Belém. Bragança, Vigia e a própria Ilha de Marajó são destaques. O turismo não é só a ruína ou o prédio, é tudo que estar ao seu redor, por isso dependemos de um esforço coletivo da sociedade civil organizada e da esfera pública”, avalia.
É no bairro da Cidade Velha, que está o Complexo Feliz Lusitânia, um dos principais cartões postais da cidade e que reúne ao seu redor Forte do Presépio, a praça Dom Frei Caetano Brandão, a Casa das 11 Janelas, o Museu de Arte Sacra e a Catedral Metropolitana.
Espaços que atraem turistas que na opinião da presidente da Associação Cidade Velha-Cidade Viva (CiViVa), Dulce Rocque, poderiam conhecer outros espaços do bairro. “A Cidade Velha pode ser mais bem aproveitada para o turismo, mas não é porque aqui o turismo se resume à praça da Sé. É um turismo que voltou as costas para o restante do bairro”, reclama a representante. Para ela, a história e a arquitetura dos casarões antigos seriam facilmente transformados em uma nova rota turística se não faltasse interesse.
Há 25 anos no ramo hoteleiro, o vice presidente da Associação Brasileira de Indústria de Hotéis do Pará (Abih-Pa), Carlos Freire, analisa com calma a atividade turística no Estado. Para ele o que diferencia o turismo local do praticado em outros estados diz respeito à consciência do segmento como uma atividade econômica capaz de alavancar o desenvolvimento econômico. “No Pará, a política voltada à área é recente e essa consciência ainda é incipiente. Por se tratar de uma atividade plural que envolve diversas áreas, ainda falta infra estrutura pública que inclua transporte, saneamento e abastecimento. Hoje, não há um empresário que arrisque a construção de um grande empreendimento no Marajó, por exemplo, pela ausência dessa estrutura”, explica.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar