Na chegada da rua, o instrutor de computação Raimundo da Silva traz consigo a revolta pelas dificuldades enfrentadas no percurso relativamente simples de sua casa até o local de destino.
Um dos mais de cinco milhões de eleitores paraenses que definirão os novos gestores dos municípios do Estado, ele não precisa refletir por muito tempo para apontar as demandas que, em sua opinião, devem ser prioritárias para o concorrente que vencer as eleições municipais em outubro deste ano. Para ele, bastar sair às ruas para identificar as necessidades. “O prefeito que for eleito tem que padronizar as calçadas”.
Ao longo dos poucos metros que o levam da avenida Magalhães Barata até a entrada da sede da Associação Paraense dos Portadores de Deficiência (APPD), as calçadas disponibilizam uma faixa diferenciada no chão para facilitar a locomoção de pessoas portadoras de deficiências visuais. Apesar da instalação do benefício, a existência da calçada padronizada não é garantia de direitos. “Mais do que construir ‘calçadas cidadãs’, eu espero que ele (novo prefeito) imponha fiscalização e que a calçada possa ser usada para caminhar”.
Exemplo dos problemas enfrentados por Raimundo para se locomover mesmo quando há a “faixa cidadã” são os carros que, estacionados com uma das rodas bem em cima da calçada, impossibilitam que ele siga o percurso através do tato de sua bengala.
“A faixa ajuda bastante, mas ela serve mais de feira do que para as pessoas andarem. Fazem bar e colocam cadeiras no meio da calçada, tem barracas de ambulantes em cima da faixa, carros estacionados...”, enumera. “Por isso que eu digo que falta fiscalização.
Teve uma vez que tive que andar quase 500 metros no meio da rua porque cheguei na calçada e bati a bengala de um lado e tinha uma barraca e, quando bati a bengala do outro, tinha um carro”.
LOCOMOÇÃO
Aposentado por invalidez, Fernando Rabelo também vê na locomoção a principal demanda para o próximo gestor de Belém. Porém, para ele, as necessidades e dificuldades de locomoção enfrentadas hoje não se restringem apenas às calçadas da cidade. “Nas calçadas é onde temos as maiores dificuldades, mas o (novo) prefeito de Belém também vai ter que melhorar a qualidade do transporte coletivo”, acredita. “Muitos ônibus ainda não têm acessibilidade. Temos pouco acesso a tudo e esse é o principal problema”.
Além da acessibilidade física, Fernando ainda destaca as demandas por acesso a outros direitos primordiais para a sobrevivência de qualquer cidadão. “Muita coisa melhorou de uns anos para cá, mas quem for prefeito ainda vai ter que fazer muito para podermos ter mais acesso à saúde, à educação...”.
Assim que reflete sobre as necessidades que espera que sejam solucionadas pela gestão que se iniciará logo após o pleito deste ano, Maria do Carmo Oliveira tem dificuldade de resumi-las. Diante da necessidade de tantas mudanças, ela acaba por enumerar o que mais a afeta durante o dia a dia. “tem tanta coisa para melhorar. O nosso transporte é uma tristeza, tem pessoas que estacionam nas calçadas, em cada esquina tem alguma coisa que atinge os nossos direitos”, analisa. “O que eu gostaria é que as coisas melhorassem. Acredito que os últimos prefeitos têm feito pouquíssimo pelas pessoas com deficiência”.
FISCALIZAÇÃO
Conhecedora das dificuldades, ela arrisca um palpite do que poderia ser feito pela gestão pública para minimizar os problemas vivenciados diariamente. “Esses são os nossos principais problemas. O (novo) prefeito poderia fiscalizar ou multar as pessoas que não cumprem a lei, mas alguma coisa precisa ser feita”, recomenda. “Com relação ao preconceito, muita coisa já melhorou, mas poderiam ser feitas campanhas para conscientizar a população de que é preciso respeitar a todos”.
Para Tomaz Henrique Barros, o desrespeito é o que mais incomoda, por isso, o que ele espera da nova gestão é, principalmente, a garantia de direitos. “Somos muito desrespeitados. Com relação ao transporte, têm muitas pessoas que não param para a gente. O que queremos de todos e também do prefeito é mais respeito para fazer com que não tenham mais essas calçadas altas que não deixam um cadeirante passar”, aponta. “Essas necessidades deveriam ser prioridade para o novo prefeito porque são coisas simples que resolveriam nosso problema”.
(Diário do Pará)
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