As potencialidades do jenipapeiro (Genipa americana L) - a árvore da tinta preta no corpo dos índios e do famoso licor - podem transformá-la na primeira espécie nativa a ser recomendada no Brasil para reflorestamento em cultivos industriais visando produção de madeira de boa qualidade.
Assim espera e para isso pesquisa o engenheiro florestal Osmar José Romeiro de Aguiar, aposentado da Embrapa Amazônia Oriental mas na ativa, um constante colaborador em projetos em parceria com o centro de pesquisa sediado em Belém. Desenvolver um sistema de produção da árvore de jenipapo com finalidade madeireira é a sua mais nova empreitada, com foco especial na Amazônia.
Empolgado com o que estuda e tem observado, o pesquisador situa o potencial da cultura do jenipapeiro como espécie industrial. “É madeira de uso múltiplo, capaz de concorrer econômica e comercialmente com o pinus e o eucalipto, as dominantes no mercado brasileiro de reflorestamento”.
Pinus e eucalipto são espécies exóticas (originárias de outro país). Quanto às nativas utilizadas em reflorestamento, Aguiar lembra que no Brasil todo são apenas duas: o paricá (árvore amazônica) e o pinheiro-do-paraná (Sul e Sudeste), mas, segundo ele, ambas têm limitações de uso, ao contrário do jenipapeiro.
O paricá cresce rápido, mas é restrito à indústria de lâminas de compensado. O pinheiro-do-paraná tem madeira de alta qualidade, mas cresce lentamente. “O jenipapeiro, por sua vez, cresce rápido e sua madeira é de boa densidade, comparável a espécies nobres da Amazônia, o que o torna atrativo para a indústria, inclusive de móveis”, avalia o pesquisador.
O primeiro plantio para reflorestamento foi feito em julho último, em Belém, em área da Embrapa Amazônia Oriental. Os experimentos com plantas provenientes de várias regiões do Brasil para seleção das melhores árvores vão adentrar os próximos dez anos, mas o pesquisador estima que em quatro anos já será possível obter resultados madeireiros.
“Ter sido acolhida no âmbito dos projetos Florestan e Biomas depois de já estarem em andamento demonstra ainda mais a importância que a árvore de jenipapo passa a ter para a pesquisa”, comenta Aguiar. No Florestan, liderado pela Embrapa Amapá, o foco é introduzir o jenipapeiro no manejo da várzea do estuário amazônico.
NATIVA
Árvore nativa da América Tropical, o jenipapeiro está presente em quase todos os biomas do Brasil. Um pé desses existia justamente no quintal da infância de Osmar Aguiar, que cresceu vendo o seu desenvolvimento bem de perto e com a certeza absoluta, como qualquer criança da época, de que os melhores piões eram os brinquedos feitos com a madeira de jenipapeiro.
Do menino ao engenheiro florestal, a vida se encarregou de somar às informações da infância bem vivida às de um doutorado em tecnologia da madeira e produtos florestais (que possibilitou à Embrapa ser detentora da patente da secagem acelerada de madeira), mais um espírito inventivo e inquieto.
Neste caso, quintal com árvore, brinquedo de madeira, estudo, vocação e paixão pela descoberta deu muito certo. A mistura ganhou a força de um poderoso combustível para a curiosidade científica. “Ao longo da minha vida toda sempre parei pra observar os jenipapeiros, eles chamam a minha atenção, têm um significado especial para mim”, comenta Aguiar, revelando porque, afinal, se inspirou e escolheu justo essa nativa como a espécie objeto de um estudo florestal tão inovador.
(Diário do Pará)
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