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Profissionais dizem que a família é fundamental

Dos antigos hospícios e manicômios, quase extintos no Brasil, sobraram a desinformação e o estigma. No entanto, os novos tratamentos públicos, ainda pouco divulgados, apontam o caminho. Alí, existem bons exemplos que mostram que com o apoio da família é p

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Dos antigos hospícios e manicômios, quase extintos no Brasil, sobraram a desinformação e o estigma. No entanto, os novos tratamentos públicos, ainda pouco divulgados, apontam o caminho. Alí, existem bons exemplos que mostram que com o apoio da família é possível levar uma vida que, de longe, não parece diferente da minha ou da sua.

No Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, o HC, localizado em Belém, pacientes em crise, vindos de todo o Estado, são socorridos. A unidade dispõe de 30 leitos para emergência, 30 para internação e outros dez em uma clínica conveniada. É o único hospital do Pará que oferece estrutura e uma equipe preparada para atender as situações de emergência envolvendo transtornos mentais. O HC não é um hospício. Lá, os pacientes podem ficar até 72 horas em observação. Em caso de internação, o tempo médio é de 25 dias. No entanto, com certa frequência, pessoas ocupam leitos da unidade por mais semanas que o necessário. O motivo? As famílias abandonam seus parentes.

W.S, 70 anos, está no HC há cinco meses. Ele foi trazido à unidade pelo atual companheiro de sua ex-mulher, penalizado com sua situação. Vítima das consequências do alcoolismo, é difícil encontrar nos olhos vagos de W.S resquícios do homem que ele foi um dia. Nas pernas, marcas das cicatrizes que ganhou perambulando perdido pelas ruas. W.S, que quase não fala, tem quatro filhos. Nenhum deles quer cuidar do pai. O HC precisou entrar com ação no Ministério Público por abandono de incapaz para tentar fazer com que o paciente recupere o direito de ter um lar.

“Se o estado do paciente for estável, se ele não apresentar sinais de agressividade, ele tem plenas condições de viver com a família e se tratar lá fora. Isso é muito importante para a sua melhora. Na grande maioria dos casos, a doença é controlada e ele pode se reintegrar à sociedade”, explica Andréia Bezerra, assistente social e chefe do serviço biopsicossocial do HC.

A equipe multidisciplinar do hospital, formada por profissionais de saúde de diversas áreas, realiza trabalhos de acompanhamento e conscientização com a família dos pacientes. Ainda assim, há casos em que familiares deixam de dar a medicação de propósito aos doentes apenas para que eles entrem em crise e sejam novamente internados. Em outras situações, mais dramáticas, os pacientes que recebem alta não têm para onde voltar porque a família tenta fugir do “problema” mudando de endereço.

O HC faz uma constante busca-ativa para reencontrar famílias que desamparam seus pacientes. Serviço que também é utilizado nos casos em que os portadores de transtornos mentais têm procedência desconhecida. Caso de uma senhora que diz se chamar Izabel Cleópatra, 51 anos. Ela foi encontrada tentando embarcar para Manaus, sem documentos, a cerca de cinco meses. Izabel não está mais em crise, mas não sabe exatamente para onde ir, nem quem procurar. Em sua fala, teorias conspiratórias se misturam com lembranças de passagens pelo Rio de Janeiro e São Paulo. Cleópatra justifica o sorriso bonito afirmando que tem dentes de ouro branco com diamantes. “Meu sonho é reencontrar meus filhos”, desabafa.

Problemas poderiam ser evitados, caso os transtornos mentais fossem assumidos e reconhecidos antes de se tornarem críticos. “Se a pessoa demonstrar qualquer sinal de problema mental, a família deve logo procurar um CAPs. Não é certo esperar que o paciente entre em surto, fique agressivo, para trazê-lo pra cá. Nós não somos depósito de gente”, fala Andréia Bezerra.

CAPS

Os CAPs (Centros de Atendimento Psicossocial) são unidades públicas, ainda pouco conhecidas, que estão abertas a todos que achem necessário buscar ajuda para manter seu equilíbrio mental. “Nós implantamos serviços substitutivos que condizem com o desmonte do modelo manicomial e oferecemos esse novo apoio. O grande foco é a formação de uma equipe multidisciplinar para a construção de um modelo terapêutico singular”, explica a coordenadora Estadual da Saúde Mental em exercício, Marilda Fernandes.

Nos CAPs, além de acompanhamento psicossocial, o cidadão pode ter acesso a atividades que envolvem oficinas de trabalhos manuais, de auto-reflexão e valorização pessoal. Segundo a coordenadora de Saúde Mental, existem atualmente 66 CAPs, entre habilitados e não-habilitados, distribuídos em todo Estado.

De acordo com proporção atribuída pelo Ministério da Saúde, o ideal é um CAPs para cada 100 mil habitantes. O último Censo, de 2010, revelou que o Pará tem cerca de sete milhões e seiscentos mil habitantes. “Municípios com menos de 20 mil habitantes não precisam ter CAPs. Considerando a realidade nacional, nós temos uma cobertura boa. É evidente que ainda precisamos evoluir bastante, ainda tem muito a ser feito, mas nossa rede ainda está sendo construída”, explica Marilda Fernandes.

Para a coordenadora, o preconceito e a desinformação ainda são o principal entrave na hora da busca pelo tratamento. “A sociedade tende a repudiar tudo que foge dos padrões. A saúde mental não está ligada necessariamente à ausência ou presença de transtorno, mas sim ao bem estar mental.”, esclarece.

J.S, 34 anos, descobriu em 97, quando ainda morava em Macapá, que tinha um grave problema mental. “Eu fiquei três dias vagando pelas ruas. Entrava em taxi sem ter dinheiro pra pagar, pegava ônibus transtornado, ficava sem dormir. Na verdade, eu não lembrava que tinha que voltar casa”, conta rindo. A última crise grave aconteceu há sete anos.

O bom humor parece ser a melhor forma de encarar um passado cada vez mais distante. “Eu não conhecia o problema e não sabia o que tava acontecendo. Foi muito difícil mesmo. Eu comecei a pedir pra Deus que onde ele estivesse que, por favor, voltasse. Depois que a gente descobriu o problema, cheguei a ficar 13 dias sem comer. Eu e meu marido sofremos muito”, conta dona Dolores, 58 anos, mãe de J.S.

Diagnosticado com transtorno bipolar, J.S há três anos faz acompanhamento uma vez por semana em um dos CAPs localizados na capital paraense. Leitor de clássicos de José de Alencar, Shakespeare e Molière, J.S descobriu nas oficinas de leitura dramática do centro que leva jeito para fazer poesia. “É a forma que eu encontro de expressar meu olhar sobre as coisas, o que eu tô sentindo e me comunicar com o mundo. Eu gosto bastante. Também participo do grupo de teatro”, conta o poeta, que está esperando apoio para publicar o primeiro livro.

(Diário do Pará)

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