A noite de premiação do Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo foi marcada por discursos que enfatizaram a necessidade de passar a limpo trechos obscuros da história recente do País e uma reafirmação dos valores básicos do jornalismo. A cerimônia foi realizada na última terça-feira (23) e reuniu, num auditório lotado do Teatro da Universidade Católica (TUCA), em São Paulo, nomes consagrados e jovens promessas do jornalismo.
“Já quiseram que nos transformássemos em PJ (pessoas jurídicas) e agora querem que nos transformemos em empreendedores”, ironizou o jornalista Alberto Dines, um dos homenageados da noite. Aos 80 anos, 60 deles dedicados ao jornalismo, Dines enfatizou a importância da reportagem e do trabalho dos jornalistas. “Que não deixem o jornalismo ir para as nuvens da virtualidade, pois de lá pode voltar grunhindo em 140 caracteres”, disse, criticando a onda de ‘twitter’ que assola o jornalismo atual.
Dines foi homenageado junto a Lúcio Flavio Pinto, que detalhou as perseguições recebidas em mais de 30 processos. Ambos foram aplaudidos de pé.
A programação da 34ª edição do prêmio teve início ainda à tarde, com uma roda de conversa envolvendo os premiados e estudantes de jornalismo da PUC.
Vencedora na categoria especial, com a reportagem ‘Filho da Rua’, a repórter Letícia Duarte, do jornal Zero Hora (RS), fez um discurso emocionado, afirmando que não deve ser considerado natural e normal que crianças de rua façam parte da paisagem urbana das cidades. A reportagem de Letícia acompanhou durante três anos a trajetória de um menino de rua.
Miriam Leitão, vencedora na categoria TV, com a reportagem ‘Caso Rubens Paiva, uma história inacabada’, afirmou que é necessário que se contem histórias da época da ditadura para as novas gerações.
A ditadura militar acabou sendo tema de várias reportagens premiadas. Além de Rubens Paiva, deputado morto sob tortura militar, a reportagem vencedora na categoria jornal também enfatizou aspectos ligados ao período ditatorial pós-64. “Quando a ditadura entrou em campo”, de Murilo Rocha e equipe, mostrou como esportistas, principalmente jogadores de futebol, também sofreram com a ação do regime.
A reportagem “Dossiê Curió”, do Diário do Pará, ganhadora da Menção Honrosa na categoria jornal, também enfatiza um personagem do período, o major Curió, um dos responsáveis pelo extermínio de militantes do PCdoB na Guerrilha do Araguaia. A série foi escrita pelo repórter Ismael Machado.
ARAGUAIA
A Guerrilha do Araguaia é um dos episódios mais sangrentos e controversos da história recente do Pará. “O período de apuração durou mais ou menos um mês, mas isso é muito relativo. Eu já tinha feito reportagens antes sobre a Guerrilha, sobre Serra Pelada, já tinha estado no local onde se buscavam os corpos dos desaparecidos. Era algo que eu já conhecia. Foi uma questão de redimensionar, mudar o foco e procurar uma nova abordagem”, explicou Ismael Machado.
(Diário do Pará)
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