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Belém joga fora metade da água tratada

Antes das 07h, um cano quebrado na travessa Enéas Pinheiro jorra água sem parar ao longo da rua. O desperdício dura cerca de duas horas e é apenas um exemplo do que é possível flagrar diariamente pela cidade. Até em atividades simples do dia a dia, como b

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Antes das 07h, um cano quebrado na travessa Enéas Pinheiro jorra água sem parar ao longo da rua. O desperdício dura cerca de duas horas e é apenas um exemplo do que é possível flagrar diariamente pela cidade. Até em atividades simples do dia a dia, como banhos demorados ou lavagem de roupa, a água muitas vezes é utilizada de maneira inadequada.

Dados da Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa) apontam que o desperdício de água é muito elevado. “Cerca de 45% do que a Cosanpa produz é desperdiçado com vazamentos, furto ou sub-medição (quando a pessoa usa mais do que paga) de água”, afirma Fernando Martins, diretor de mercado da Cosanpa. A produção total é de aproximadamente 12,5 bilhões de litros por mês, mais de 8,3 bilhões de litros (66,4%) são distribuídos para a Região Metropolitana de Belém, com uma perda de cerca de 4,15 bilhões de litros, o que coresponde quase a metade da água produzida todo mês.

Outro problema enfrentado é com redes de distribuição de água, algumas já muito antigas. A estimativa do órgão é que aproximadamente 40 km de redes necessitam de troca em caráter emergencial. “Algumas redes já estão muito antigas e, às vezes, com a trepidação dos carros, acabam sendo danificadas”,diz.

Para tentar driblar o desperdício, o órgão realiza fiscalizações e conta com o apoio da população para detectar problemas como vazamentos. “Todos os meses fazemos a entrega e leitura das faturas e, se houver algum tipo de vazamento, o leiturista já verifica. Também atuamos nas ruas constantemente”, garante. Os maus hábitos de consumo da população também causam muito desperdício. “É preciso mudança de alguns hábitos, como banhos muito demorados e deixar torneiras vazando, por exemplo. São pequenas coisas, mas que fazem diferença”, frisa.

FALTA

Enquanto tem de sobra em alguns lugares, em outros a água é raridade. Há quem faça um esforço imenso na busca pelo líquido diariamente. Na avenida Tucunduba, no bairro da Terra Firme, a fila se forma ainda de madrugada. Baldes, garrafas, panelas. Qualquer objeto vale para armazenar água para usar durante o dia.

Há cerca de um ano, essa é a realidade de centenas de famílias de uma ocupação no local. Sem água encanada, a solução encontrada pelos moradores foi trazer a água de uma rua próxima através de um encanamento improvisado. “Os moradores fizeram uma coleta e compraram 51 varas (canos) para trazer a água. Daqui, cada um carrega para sua casa”, explica a operária Isaura Moraes. Antes disso, os moradores precisavam caminhar bastante para buscar água em outra rua.

Uma caixa d’água foi colocada no local e, diariamente, os moradores se revezam na fila.“A gente carrega água o dia inteiro e ainda tem dias que falta, mas é o jeito. Eu acordo 04h30 e encho um camburão que tenho aqui em casa”, conta a doméstica Maria Dora Barbosa. O que ela consegue armazenar de água vai servir para beber e para os serviços da casa. “Até beber dessa água eu bebo. Só quando dá é que compro água mineral, é um sonho ter água em casa”.

Perto dali, a dona de casa Dalva Leal também vive a rotina de carregar água durante o dia inteiro. “Somos três pessoas lá em casa e todo mundo vem carregar. A noite faz fila aqui pra pegar água, então a gente enche de madrugada, que tem menos pessoas. Uma vez passamos dois dias sem água e ficávamos ‘caçando’ água por ai”, diz.

Já a dona de casa Maria da Paixão passou a vida inteira sem ter água encanada em casa. Deixou sua residência na comunidade do Riacho Doce – onde há alguns anos não existia o serviço de abastecimento de água – e vive o mesmo drama atualmente. “Quando eu morava lá não tinha nada e aqui a situação também não é boa. É triste porque a água é o bem mais precioso que existe”.

(Diário do Pará)

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