A rotina da dona de casa Marlene Macedo, 31, começa cedo para levar o filho à escola. A distância entre sua residência e o colégio é menor que um quilômetro, mas há dias em que fazer este trajeto demora aproximadamente 50 minutos, e isto faz com que a criança chegue atrasada à aula. O motivo da demora parece até ironia: Eles perdem muito tempo na hora de atravessar a Avenida Centenário, apesar da via dotar de faixas de pedestres e estar sinalizada. Marlene utiliza a faixa que fica no cruzamento com Travessa Seda. Por alí, os carros passam em alta velocidade e muitos motoristas se recusam a dar prioridade para os pedestres, conforme determinam as leis de trânsito. Uma infração é considerada gravíssima, e marca 7 pontos na Carteira Nacional de Habilitação.
São diversas formas que a população encontra para descumprir as leis de trânsito e colocar em risco sua própria vida e também a de terceiros. São ciclistas que trafegam pela contramão ou entre os carros em vias de grande circulação. Pedestres que atravessam fora da faixa e que não usam as passarelas. Motorista que estaciona em local proibido, faz fila dupla, dirige falando ao celular e não usa o cinto de segurança.
Desrespeitar o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) parece fazer parte da rotina de motoristas, motociclistas, pedestres e ciclistas que transitam pelas ruas. Uma prova disso está nos 330.026 autos de infrações aplicados nos dez primeiros meses deste ano, segundo o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) do Pará. Deste total, 139.848 multas foram em Belém.
Não é difícil encontrar pessoas que cometem estas irregularidades no trânsito da cidade, basta transitar pelas ruas que nos deparamos com estas situações. São condutores afobados que fazem retorno em local proibido, cortam a frente de outros motoristas como se estivessem numa corrida. Aliás, dirigir em velocidade acima da que é permitida consiste no principal desrespeito as leis de trânsito, em Belém. De janeiro a outubro, 29.984 multas foram aplicadas. Em segundo lugar está o avanço de sinal vermelho, infração gravíssima, que já rendeu 13.699 multas somente na capital. E a terceira maior imprudência é a condução de motocicleta sem uso de capacete, que já rendeu 10.195 autos de infração, conforme apontam os números do Detran.
Educação é a saída
Na opinião do pedagogo, especialista em trânsito, Rafael Cristo, a formação não deveria ser restrita apenas aos condutores de veículos automotores e sim para toda a população, haja vista que o trânsito deveria ser tratado como uma questão social. Enquanto não houver disciplinas de trânsito nas escolas, será cada vez mais complexo educar pedestres, motociclistas e motoristas para respeitar o trânsito. Para Ednaldo, ciclistas e pedestres também deveriam ser submetidos a uma formação para saber o que podem ou não fazer nas ruas e não se beneficiarem da condição de serem os mais vulneráveis.
Patrícia Neves, professora na Universidade Federal do Pará (UFPA), considera que o poder público não está isento de culpa por tamanhas imprudências e desrespeito ao CTB. “Belém retrocedeu no processo de educação no trânsito. Temos uma população despreparada para enfrentar as ruas e a direção dos veículos”, criticou. Por isso, frisa que o poder público tem um papel fundamental na educação de trânsito, que deveria começar na escola. “Belém está desprovida de ações educativas de trânsito e quando acontece alguma é somente durante a Semana do Trânsito ou durante os feriados prolongados”, ressaltou.
O próprio diretor de Trânsito da Companhia de Transportes de Belém (Ctbel), Elias Jardim, reconhece as falhas para melhorar a educação dos motoristas. Mas ele diz que Belém cresceu desordenadamente e aumentou a frota de veículos – hoje de meio milhão de carros na Grande Belém. Para enfrentar o problema, a Ctbel dispõe apenas de 150 agentes de trânsito enquanto o ideal seria ter, segundo Jardim, 340 agentes. “O efetivo não é suficiente e isto dificulta o nosso trabalho até de conseguir elaborar um mapeamento dos pontos críticos de imprudência e desrespeito às leis de trânsito”, distingue.
Essa carência da Ctbel é conhecida por Patrícia, mas que reitera que o órgão tem que ter um setor de controle estatístico. “Cabe aos órgãos de trânsito cuidar da engenharia de trânsito, mas o que a gente nota é uma sinalização precária, semáforos desregulares, placas e faixas mal vistas – quando não, apagadas. Ou colocada de tal forma que o motorista não vê. Isto sem falar das ruas que não tem nenhum tipo de sinalização”, comentou. A Avenida Centenário, por exemplo, inaugurada há cerca de dois anos, está com a sinalização apagada em muitos trechos. Os moradores esperam a implantação de um semáforo no cruzamento com a Lameira Bittencourt, onde não há nem faixa de pedestres. Vários acidentes já foram registrados, três com vítimas fatais.
Patrícia e Rafael defendem a inserção de disciplinas sobre trânsito, principalmente na educação básica e fundamental, no inicio da formação de cidadania, uma vez que é difícil transformar o imaginário cultural de alguém que já se habituou a dirigir sem cinto, em alta velocidade ou a cometer qualquer desrespeito as leis de trânsito.
(Diário do Pará)
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