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'Ilhas de calor' são desafio para RMB

Um levantamento feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelou que a temperatura média de Belém aumentou em 1,51° C nos últimos 50 anos. Um dado que, em princípio, parece irrelevante, mas que quando analisado permite se chegar a concl

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Um levantamento feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelou que a temperatura média de Belém aumentou em 1,51° C nos últimos 50 anos. Um dado que, em princípio, parece irrelevante, mas que quando analisado permite se chegar a conclusões preocupantes. Principalmente depois de se constatar que a capital paraense atingiu temperaturas máximas recordes, chegando a 37°C. Parte do problema tem sua origem nas ilhas de calor – fenômeno climático provocado pela verticalização da cidade – e na urbanização desordenada. As edificações, o concreto e o asfalto tomam o lugar da vegetação e desviam os ventos que também serviriam para garantir o equilíbrio térmico.

Para o coordenador local do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a solução inicial para o problema seria a criação e implementação de um plano diretor de urbanismo voltado não apenas para Belém, mas para toda a Região Metropolitana, haja vista que a verticalização já chegou a Ananindeua, município vizinho. Se isto não for feito, em poucos anos, a sensação térmica será insuportável para a população.

P: Nas últimas semanas, a população de Belém tem se queixado bastante da forte sensação térmica (calor) na cidade. Estas altas temperaturas estavam previstas?
R: Até o final da primeira quinzena de outubro, estava se registrando um comportamento de temperaturas máximas dentro de um padrão normal. Céu com pouca nebulosidade e ventos mais acelerados. Com isso, a temperatura máxima, entre às 12h e 14h estava se mantendo em torno de 33°C. A partir do dia 16, estas temperaturas aumentaram e tiveram dias com temperaturas superiores a 34°C. Para o mês que é considerado praticamente seco, com pouca nebulosidade, ficou uma temperatura bem acima das expectativas porque quando chega a 34° a sensação térmica fica entorno de 37° a 38°, principalmente dentro da cidade que é mais quente ainda.

P: As ilhas de calor já são uma realidade em Belém. Quais as possibilidades dos transtornos provocados pelo fenômeno aumentarem na cidade?
R: A gente tem que olhar a questão das ilhas de calor dentro das cidades. Belém é uma cidade que até os anos 1980 tinha poucos prédios altos e essa verticalização [das construções], além de tirar as áreas verdes como nos últimos 20 anos tem acontecido, provoca maiores corredores de ventos. Os prédios desviam os ventos de um local e os direciona para outros, o que pode acelerar os ventos em alguns locais e formar bolhas de ar quente em outros – isso devido a falta de árvores. Com certeza se não tiver um plano de urbanização elas [ilhas de calor] vão envolver Belém e Ananindeua, porque as duas cidades estão juntas. Precisa ser mudada a cultura das pessoas para que nós tenhamos um fluir do vento de tal forma que ele não tenha seu deslocamento alterado, e com isso não venha causar muitos pontos de calor em excesso na Região Metropolitana.

P: Por que se pensar num plano diretor que envolva outras cidades e não apenas Belém, onde se concentram as ilhas de calor?
R: Eu digo que o plano de urbanização tem que envolver Ananindeua porque a cidade fica a mais ou menos a leste-nordeste da capital, áreas de onde vem o vento. Se você prestar atenção, o vento em Belém sempre vem do leste, nordeste e sudeste da cidade. E alterando aquela área com a verticalização, com certeza trará consequências para o centro [Belém]. Então se não tiver um plano de urbanização de Belém juntamente com Ananindeua e Marituba, a maior concentração de calor vai ficar em Belém mesmo. A Região Metropolitana ainda tem umas áreas verdes. A verticalização na cidade vai fazer corredores onde o vento vai circular apenas em determinadas áreas.

P: Belém é mesmo a cidade mais quente da Região Norte?
R: Não é verdade, porque dentro do próprio Estado tem áreas muito mais quentes que Belém. Em linha reta, estamos distantes a 150 quilômetros do oceano Atlântico e estamos de frente para a Baía do Guajará, que produz muitos ventos. Se compararmos com as capitais brasileiras, Belém apresenta temperaturas mais amenas que Manaus, por exemplo, que registra temperaturas de 37°, 38°C. Em Belém, é raro as temperaturas atingirem 35°. Se você for a Santarém [oeste paraense], vai perceber que o calor lá é maior que em Belém. Em Macapá, a sensação térmica é muito maior que Belém. Se formos olhar os dados do Inmet, que tem estações de coleta de dados e temperatura, em todas essas cidades. Belém apresenta sim temperaturas altas, porém mais brandas do que registradas em outras cidades. Até porque quanto mais distante as cidades ficam do oceano, maior é a concentração de calor, e Belém ainda recebe alguns ventos oceânicos, que chegam aqui com 20 quilômetros por hora.

P: Há alguns anos as temperaturas em Belém chegavam a 31°. Hoje chegam a 34°. A tendência é que elas aumentem ainda mais com o tempo por causa das ilhas de calor ou por outros fatores climáticos?
R: O Inmet existe há 100 anos e, desde 1919, a gente tem registrado temperaturas de 34°, em Belém. Em 1997 e 1998, Belém chegou a registrar um recorde de 37° de temperatura. Tem anos que é mais quente, tem anos que é menos quente. A gente costuma dizer que os recordes de temperaturas têm se intensificado nos últimos anos, mas eles já vêm ocorrendo ao longo de 100 anos. Normalmente esses recordes estão associados a uma redução de chuvas, porque a própria chuva regula as temperaturas.

P: Se as chuvas são reguladores térmicos e moramos em uma região que chove bastante, como explicar essas relações entre as chuvas, as temperaturas e as ilhas de calor?
R: Belém é uma das capitais nas quais mais chove no Brasil. Nós já atingimos uma média de mais de 3.200 milímetros por ano, sendo que dois mil milímetros de janeiro a maio . Essa chuva quando chega não tem para onde escoar, por conta das construções, e causa inundações. E quando não chove, acontecem as ilhas de calor, porque a incidência dos raios solares no concreto e no asfalto aumenta as temperaturas. Em setembro e no início de outubro deste ano, por exemplo, nós tivemos uma diminuição de temperaturas porque tinha voltado a acontecer aquelas chuvas entre às 13h e 14h, e quando isso acontece há uma queda na temperatura. Na segunda quinzena de outubro parou mesmo de chover. Estamos mais de oito dias sem nenhuma chuva. Com isso as temperaturas altas voltaram a ocorrer e já chegaram a atingir 34,4°, na sombra.

P: As edificações já chegaram às margens da BR-316. Estes prédios, nessa área, afetam as temperaturas na capital?
R: As ilhas de calor, em Belém, podem acontecer desde que a verticalização aumente para o leste e nordeste [Ananindeua]. Com certeza, nas próximas décadas Belém será uma das cidades mais quentes. Não é nem pelas variabilidades climáticas, mas é pela questão de cultura do povo, de não deixar o quintal sem verde. A própria Almirante Barroso, por exemplo: você viu que diminuiu a quantidade de verde na via por causa do BRT? Se a gente considerar que aquela área pode absorver por cada metro quadrado um litro de água, essa água infiltra no solo e do solo vai para os lençóis freáticos e, consequentemente, ajuda a manter a umidade daquela área. Quando você reduz com o asfalto e com o concreto, você impermeabiliza aquela área. Então a água de chuva, tende a escorrer pela vala, vai para o esgoto, desagua em igarapés e rios até chegar de volta ao oceano Atlântico, e somente lá voltará para o ciclo hidrológico.

P: Além do Plano de Urbanismo, existe alguma outra forma de se combater as ilhas de calor?
R: Nós temos asfalto e concreto e um grande número de carros nas ruas, que através de suas descargas jogam dióxido de carbono e ar quente. Tem tudo para que Belém forme grandes bolsões de ar quente num futuro próximo, se não houver uma atitude séria dos nossos governantes, e da nossa população, para pensar em arborização. Hoje em dia ninguém quer um quintal que não seja calçado, porque não querem mais capinar, que cresça mato. Costumo dizer que temos que mudar a cultura do povo e preservar alguns quintais, porque as áreas verdes estão acabando. Quem tem grandes terrenos está vendendo para os setores imobiliários e a primeira que coisa que este fazem é derrubar as árvores e construir prédios. A calçada que se constrói impede a absorção de água pelo solo e o abastecimento dos lençóis freáticos, que garantem uma concentração de umidade. Essa umidade pode interagir com o ar seco e causar uma melhoria nas áreas mais quentes.

(Diário do Pará)

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