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'Bombeiros da Vida': causa nobre e única

Poderia ser apenas uma obrigação, mas os motivos que levam Márcio Souza a sair cedo de casa toda manhã são bem maiores que a mera necessidade de cumprimento de suas atividades. Subtenente do Corpo de Bombeiros, apesar de ter como ofício o recolhimento de

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Poderia ser apenas uma obrigação, mas os motivos que levam Márcio Souza a sair cedo de casa toda manhã são bem maiores que a mera necessidade de cumprimento de suas atividades. Subtenente do Corpo de Bombeiros, apesar de ter como ofício o recolhimento de doações de leite materno através do projeto “Bombeiros da Vida”, o aleitamento de crianças prematuras é, na verdade, uma causa que ele tomou para si.

Acostumado a atuar no atendimento de vítimas de enchentes e de grandes catástrofes ao longo de pelo menos dez anos, Márcio se viu diante da necessidade de ajudar bebês que, em alguns casos, vinham ao mundo sem pesar mais do que 500 gramas. Bastaram duas semanas para que o envolvimento com a função ultrapassasse as barreiras do profissional e se tornasse, acima de tudo, pessoal. “Eu penso direto naqueles bebês. Eu chego antes das 7h e só saio depois que a última rota chega. É um trabalho de formiguinha”.

Com um isopor e uma caixa térmica no carro e a ficha de cadastro em mãos, Márcio sai à procura do endereço que abriga a doação pela qual tantos esperam. No caminho, a parada para o abastecimento de um caminhão do Corpo de Bombeiros chama a atenção. A fumaça enxergada ao longe e a sirene que já começa a tocar na saída do veículo indicam uma situação de emergência e despertam em Márcio a certeza pela escolha feita cinco anos atrás. “Eu poderia muito bem estar ajudando a apagar esse incêndio, mas é o que eu sempre digo, não tem homem que não chore ao ver a situação desses bebês”, certifica-se. “Os bombeiros, quando atuam em um incêndio, salvam vidas, mas nós estamos salvando vidas que ainda estão lutando para viver”.

A caminho da casa de uma das atuais 322 doadoras, ele não tira da cabeça as cerca de 130 crianças que dependem daquele transporte. “Tem bebês que a gente pega que cabem na palma da mão da gente”, comove-se. “Fico até emocionado. Não tem como não se sensibilizar. Cada bebê tem de seis a oito mamadas diárias. Os prematuros mais debilitados vão pro leite materno, mas têm alguns que precisam ter a alimentação complementada. Nós precisaríamos de mil doadoras”.

Ciente de que a quantidade de leite arrecadado não é suficiente para atender a todos os recém-nascidos que precisam, Márcio não admite a possibilidade de perda de nenhuma doação, independente de qualquer imprevisto. Não foram poucas as vezes que o subtenente precisou sair do posto para resgatar uma equipe nas ruas.“Quando um carro dá prego, tem que pegar o leite logo. Já tive situações em que o carro quebrou 19h30 no interior de Marituba e eu tive que ir rebocar a equipe preocupado com o leite”.

Além dos problemas mecânicos, Márcio também já teve que enfrentar outras dificuldades para garantir que o leite já doado não se perdesse. Acima de qualquer problema está a necessidade de não deixar os vidros com as doações passarem mais de quatro horas fora do congelador. “Já fomos assaltados no Paar uma vez e eu tive que pegar a chave reserva do carro para resgatar a equipe. Além da preocupação com a segurança deles (demais bombeiros da equipe), tinha a preocupação com o leite. É um trabalho bonito, mas também perigoso”, lembra. “Já cansamos de recolher leite debaixo de chuva, se o carro atola a gente desce mesmo na lama... onde tiver leite, a gente vai”.

Quando o trabalho ainda dependia da doação de poucas mães em alguns bairros de Belém, o subtenente também não se esqueceu da grande importância que um vidro de leite materno pode fazer na vida de uma criança que luta para sobreviver. “Quando eu comecei a rota de Castanhal, ia para lá só para pegar um vidro. Muita gente questionava porque eu ia para tão longe gastando gasolina para pegar só um pote. Eu dizia que era apenas o começo”, lembra. “Hoje já são nove doadoras lá. Só de saber que esse leite ajuda para que eles (bebês prematuros) fiquem bem... Esse trabalho é só pra quem gosta muito mesmo”.

Tomado pelo mesmo sentimento que o fez insistir em recolher a doação no município, ele não poupa esforços para conquistar novas doadoras. Para além dos muros onde o trabalho burocrático acontece, ele leva a importância da doação para dentro da própria casa e para qualquer lugar onde tem a oportunidade de falar. “Tenho kit em casa, quando sei que tem alguém na minha rua, levo o kit orientação. Levo folder pra casa onde vou, falo do projeto, peço doação de vidro. É uma doação minha também”, acredita. “Na última ida a Castanhal eu consegui mais três doadoras por intermédio da minha mãe”.

Doação ganha mais adeptos

Encontrado o endereço de umas das doadoras atendidas pela rota do dia, Mário Souza vê, mais uma vez, a doação de leite ganhar adeptos. Diante da mãe doadora que amamenta seu filho e a de muitas outras mães que não podem fazer o mesmo, ele se preocupa não apenas com o leite que o levou até ali. A primeira pergunta é direcionada à família. “Boa tarde! O neném está bem? Está tudo bem com vocês?”.

Entre a conversa rápida que envolve além de algumas orientações, a explicação de como o trabalho é desenvolvido, Márcio ouve de Maria Alcione Resque, mãe que começou a doar leite oito dias após o nascimento do primogênito Felipe Bruno, algo que gostaria de ouvir de todas as doadoras do projeto. “Se eu pudesse fazer parte desse projeto, eu faria devido a necessidade dessas crianças. Já tinha pensando até em começar uma campanha nas redes sociais para incentivar as pessoas a doarem também”.

Sem conseguir esconder a felicidade ao perceber que a causa conseguiu contagiar mais uma pessoa, ele só consegue agradecer pela possibilidade de poder continuar ajudando a salvar vidas. “Eu fico muito feliz em saber disso. A gente conta com todo mundo para fazer a divulgação”. Com os três vidros de leite recolhidos após a visita, Márcio segue de volta para seu posto com a certeza de que aquela doação fará a diferença no desenvolvimento de centenas de crianças que lutam dia a dia para se manterem vivas.

(Diário do Pará)

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