A população da Transamazônica está sofrendo duplamente pelo descaso de órgãos que deveriam zelar por seus direitos a uma vida melhor. Sem a energia elétrica produzida em Tucuruí e cujo linhão se estende por mais de mil quilômetros, cobrindo 16 municípios da região, centenas de pequenas comunidades, povoados e vilarejos carentes de serviços básicos mínimos, literalmente ainda vivem sob a luz de candeeiros, lamparinas e velas. Há até um programa, ironicamente chamado “Luz para Todos”, que teima em não sair do papel por culpa, segundo agentes do governo federal, da distribuidora de energia elétrica, a Celpa, que se encontra em processo de recuperação judicial. São 1,5 milhão de paraenses em busca de socorro.
De tanto clamar no vazio por serviços prometidos para sair da escuridão, cerca de 500 moradores de Rurópolis, Itaituba, Trairão e Aveiro, no começo da semana, decidiram radicalizar para chamar a atenção das autoridades, fechando as rodovias Transamazônica e Santarém-Cuiabá à altura do trevo que divide as duas estradas. Além de energia elétrica, eles cobram dívidas sociais históricas, como regularização fundiária e revisão das unidades de conservação que sobrepõem assentamentos já existentes, assim como políticas públicas nas áreas de educação, saúde e segurança.
O agricultor Nonato Ferreira Santos, 54 anos, que saiu de Imperatriz (MA) há quinze anos para morar em Trairão, se diz cansado de esperar pela “boa vontade do governo”. E ataca: “O governo do Pará há muito tempo nem aparece por aqui, enquanto o federal fica longe, em Brasília, e só aparece quando a gente perde a paciência e fecha as estradas”. A pequena comerciante Enilda Gonzaga Barreira, 42 anos, lamenta os prejuízos que sofre com a falta de energia elétrica. “Fica tudo mais caro. A gente paga o que cobram pelo gás e por querosene. Se não pagar, não tem. Fazer o quê, né ?”.
NOVO CICLO
O processo de ocupação da região oeste do Pará se deu a partir do discurso desenvolvimentista do governo, marcado pela explosão de vários ciclos de vitalidade econômica: ciclo da borracha, das frentes pioneiras de colonização, ciclo da madeira, do ouro, entre outros. Porém, o desenvolvimento tanto propagandeado nunca representou melhoria na vida da população local.
“Somos frutos de uma contradição histórica do governo, que utilizava como lema para a região “integrar para não entregar”. Com isso, fomos abandonados em todas as esferas, sem nenhuma infraestrutura necessária para sobrevivência nessa região”, bradou manifesto lido por lideranças dos movimentos responsáveis pelo bloqueio das estradas. Para elas, a região está submetida a um novo ciclo de desenvolvimento econômico, impulsionado pelos megaprojetos do capital internacional e nacional e gerenciado pela política do governo federal, que estimula o agronegócio, a construção de portos e hidrelétricas.
(Diário do Pará)
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