A destinação final dos resíduos sólidos é um grave problema em muitas cidades brasileiras. A situação revela-se complexa em dois casos. Primeiro, nas grandes cidades, onde estão os maiores contingentes populacionais e onde há a maior produção de resíduos sólidos. Segundo, nas cidades onde serviços, como saneamento básico e coleta seletiva, são insuficientes ou inadequados.
Em Belém, a situação não é diferente. A capital paraense é, hoje, uma das cidades mais sujas do País. Pela cidade, são comuns entulho e lixo domiciliar depositados em ruas, esquinas, canais, terrenos baldios e em outros locais indevidos. Há, ainda, a questão dos aterros sanitários, os lixões, onde toneladas de resíduos sólidos são depositadas sem qualquer tipo de tratamento. Esses locais, caracterizados pela insalubridade extrema, são espaço de trabalho dos chamados catadores, pessoas que buscam ali materiais que possam ser reaproveitados ou reciclados.
Nesse sentido, o trabalho “O lixo na cidade de Belém, problemas e soluções”, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea), da Universidade Federal do Pará (UFPA), visa informar que nem todo lixo é lixo, ou seja, alerta para o fato de que o material descartado por alguns pode servir de fonte de renda para outros.
Muitas famílias dependem financeiramente, por exemplo, da reciclagem de metais e papel. “Tratar o lixo é uma questão de sustentabilidade de famílias. Nós precisamos ver que a sustentabilidade ambiental não está apenas relacionada a cortar uma árvore ou não. Ela também está relacionada a tratar os recursos naturais e os recursos humanos, as pessoas. Tratar o lixo como algo que pode ser benéfico para muitas famílias também é uma questão de sustentabilidade”, explica a coordenadora do trabalho, Cláudia Virginia de Oliveira Santiago.
RESPONSABILIDADE
“O lixo na cidade de Belém, problemas e soluções” é parte do projeto “Memória Viva do Naea”, cujo foco é a preservação dos arquivos que “contam” os quase 40 anos do núcleo.
Hoje, infelizmente, grande parte do lixo produzido na cidade não recebe um tratamento adequado. Há muito desperdício e pouca consciência. Parte da população não realiza, também, a coleta seletiva do lixo, que consiste na separação dos resíduos sólidos segundo o material (papel, plástico, vidro, metal e lixo orgânico) para posterior reciclagem.
Há, ainda, outro problema. A falta de coleta regular do lixo. Sem esse serviço, cuja responsabilidade é do poder municipal, a população se vê obrigada a livrar-se do detrito de qualquer forma, depositando-o onde não deveria. A falta de coleta regular e o consequente acúmulo do lixo provocam alagamentos, os quais favorecem a proliferação de doenças e prejudicam o turismo da cidade.
Entretanto, não se pode atribuir a responsabilidade do problema unicamente à prefeitura ou à população. “Eu acredito que tanto o governo quanto a população têm sua parcela de culpa. O governo, porque deveria investir em educação, principalmente, em educação ambiental. E a população, porque não dá o destino correto ao seu lixo. Porém, isso não acontece por falta de conhecimento. Embora não seja intensificada pelo governo, a educação ambiental é muito divulgada pelas mídias”, afirma Cláudia Santiago.
No entanto, de acordo com a professora do Naea, o cidadão não destinará adequadamente o seu lixo se não estiver informado sobre como fazer a separação, a reciclagem ou o reaproveitamento dos resíduos sólidos. Cabe, portanto, ao governo (municipal e estadual) orientar a população a dar um destino adequado ao lixo, bem como sensibilizar a comunidade sobre o problema do consumo e do desperdício exagerados a fim de conscientizá-la acerca da poluição causada pelo lixo, afirma Cláudia Santiago.
Por isso, o trabalho “O lixo na cidade de Belém, problemas e soluções” apresenta como alternativa a criação de um plano sustentável para a destinação adequada do lixo, o qual consiste num acordo, ou seja, numa ação conjunta entre diversos setores da sociedade visando ao bem comum.
(Diário do Pará)
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