“Quando já começo a sentir febre e dor no corpo nesse período de chuva, já sei. É ela!”. Recuperado de uma dengue há apenas dois meses, o aposentado João Neri da Silva diz não ter mais dúvidas quando o assunto é a doença. Morador há 32 anos da travessa Timbó à altura do canal, no bairro do Marco, João teme pela proliferação do mosquito transmissor com a chegada do período de chuvas mais intensas. “Aqui a dengue dá no meio da canela”.
Tendo a porta de casa virada de frente para o canal tomado pelo lixo e pelo lodo, o aposentado afirma se prevenir como pode. À noite, o mosquiteiro é indispensável, de dia, porém, ele acredita não ter muito o que fazer para não pegar a doença. “Não tem muito jeito de se livrar da dengue porque o depósito está mesmo na frente. Quase todo mundo já pegou dengue aqui na vizinhança”, informa ao garantir que não guarda mais nenhuma dúvida sobre a dengue. “Dúvida a gente não tem mais. Sei que tem que acabar com o mosquito que transmite, que só pode tomar um tipo de remédio se tiver suspeita de dengue...”.
Vizinha de João, a professora Celma Silva não esconde a preocupação. Diante das garradas, tampas, sacos plásticos e mato que se acumulam acima da água escura e mal cheirosa do canal avistado da porta de sua casa, ela teme por uma epidemia da doença no local. “Estamos preocupados. Temos medo que aumente os casos de dengue com essa água aí parada”, desabafa ao afirmar que cada morador já começou a se prevenir dentro das próprias casas. “Estamos nos prevenindo. Todo mundo aqui na rua está comprando aterro para colocar nos quintais. É um investimento que estamos fazendo para não termos água acumulada nos quintais”.
A preocupação da senhora não é à toa. De acordo com dados do Levantamento Rápido de índice Aedes aegypti (LIRAa), divulgados esta semana pelo Ministério da Saúde, Belém é um dos municípios que estão em alerta. De acordo com o ministério, ao todo, 375 municípios em todo o país estão em situação de alerta e 787 apresentam índices considerados satisfatórios.
Também diante da água acumulada na vala na porta de casa, o eletricista Rogéro Gonçalves admite que ainda tem dúvidas sobre a doença. Morador de uma residência em que nenhuma pessoa contraiu dengue, ele se preocupa com a proliferação do mosquito em sua rua. “Dizem que a dengue só dá em água limpa e parada. Eu vejo essa água imunda aí da vala e fico em dúvida se o mosquito também bota larva em água suja”, questiona-se. Com a filha de apenas onze meses nos braços, sua maior preocupação é evitar a picada do mosquito. “Estamos com medo com esse período de chuva. A gente fecha a casa cedo pra tentar não deixar mosquito entrar, com medo de que ela [filha] pegue dengue”.
Sem descuidar em nenhuma época do ano, a dona de casa Luciléa da Silva, tem a resposta para o vizinho. Certa de que não tem mais nenhuma dúvida sobre a forma de transmissão e a doença, ela acredita que o que falta à população é responsabilidade para eliminar os criadouros do mosquito. “Hoje a dengue se desenvolve até na água suja”, acredita. “Ninguém tem mais dúvida sobre a dengue. Todo mundo está esclarecido. As pessoas não colaboram porque não querem”.
De acordo com a diretora do departamento de saúde da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma), Carlene Castro, a fêmea do mosquito Aedes aegypti bota os ovos em qualquer tipo de água, tanto limpa como suja. Embora ela tenha uma certa preferência por água limpa, na hora de desovar vai qualquer água. A fêmea coloca os ovos, na verdade, acima da água, nas paredes dos locais com água acumulada. Conforme a chuva aumenta acumula mais água até chegar aos ovos. O contato com a água faz os ovos eclodirem liberando as larvas.
O importante mesmo, neste início do período chuvoso, afirma Carlene, é evitar o acúmulo de lixo e de objetos que possam servir de criadouro do mosquito da dengue. Ela alerta para os vasos de plantas que devem ter furos para escorrer o excesso de água e até mesmo para os cacos de vidros incrustados em muros que também acumulam água. “precisamos manter controlada a população de mosquitos para evitar as epidemias”, alerta a médica, já que é quase impossível exterminá-los. “No departamento, informa, nós já estamos a pleno vapor com as campanhas educativas”.
(Diário do Pará)
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