Houve um tempo em que se reunir nos espaços públicos de lazer era um dos principais programas da família paraense. O ar puro, o verde e a tranquilidade eram convidativos. Hoje, essas cenas estão longe da realidade.
“Tenho tristeza de ver essa praça [da República]. Cresci sendo trazido aqui pelo meu pai. Explorava cada cantinho nas minhas brincadeiras. Agora, não se pode mais caminhar no meio da praça. É só nesse quadrado [laterais da praça] porque está tudo entregue à bandidagem”, comenta o comerciário aposentado José Martins, 77 anos, todos vividos ao redor da praça.
Seu José é vizinho da praça, sempre morou na travessa Tiradentes, daí a propriedade com a qual fala do local outrora bem frequentado. “Uma segurança maior um pouco a gente só vê dia de domingo, os outros dias da semana fica largado. Não falta relato de assalto e agressão, principalmente contra as mulheres”, denuncia durante o passeio com Heros, o cão fiel. “A gente vem pelo apreço ao lugar, mas, que há riscos, isso não se pode negar”, revela o aposentado, sempre atento a um grupo de moradores de rua reunidos mais ao centro da praça.
“O problema aqui é o consumo liberado de drogas. É a qualquer hora do dia e, quando falta, eles ficam agressivos e assaltam. A segurança é feita pela Guarda [Guarda Municipal de Belém], mas é insuficiente. Incidentes de violência aqui são frequentes”, analisa o taxista Jair Menezes, outro frequentador assíduo do local.
A alguns metros dali, outro tradicional ponto turístico míngua com o problema. Às margens da Baía do Guajará, o Ver o Rio já não vive os dias de glória em visitação. “Infelizmente, em Belém o que seria a inauguração de mais um ponto de lazer acaba não sendo, porque se abre um novo espaço e se perde outros para o descaso”, dispara a professora Nice Bezerra, 40 anos, ao apresentar o local para a irmã que viera de Manaus passear com os netos Edson e Elton. “Eu achei meio abandonado, e isso dá margem para que a violência impere. Tenho certeza de que, daqui a pouco, ao anoitecer, esse local não será bem frequentado”, opina a visitante Mércia Silva, 45 anos. “Uma pena, porque há dois anos deixei o hábito de vir para cá tomar uma cervejinha e bater papo com os amigos. Não dá para arriscar”, completa Nice, tirando a câmera fotográfica da bolsa para registrar o momento, não antes de conferir ao redor. “Tô atenta a tudo”.
Mais tranquilo, o casal formado pela técnica de enfermagem Érika Moraes, 25 anos, e o motorista Nilson Sena, 32 anos, aproveita o vento que sopra da baía no final da tarde. “Nunca presenciamos nenhum incidente aqui. No que se refere a segurança, é melhor que a praça da República, mas bem pior que o espaço lá do Forte do Castelo”, compara Nilton. “Não é aterrorizador, ninguém chega a importunar, mas hoje é a primeira vez que vejo segurança”, diz a namorada, que, como estratégia para chamar menos atenção, carrega a bolsa dentro de uma sacola plástica.
Recém-inaugurado, nem Portal escapa
Nem mesmo o recém- inaugurado Portal da Amazônia escapa da violência. Furtos, assaltos e até arrastões têm sido denunciados por frequentadores e moradores próximos. “Pela graça de Deus, nesses dias de trabalho aqui não tem me acontecido nada, mas muita gente tem reclamado. O comentário é que aquele grupo de moleques começa a chegar por volta das 19h e aí todo cuidado é pouco”, informa a vendedora ambulante Raimunda da Costa, 53 anos.
A desempregada Ana Lúcia Santana, 46 anos, confirma. Ela utiliza o espaço pelo menos três vezes por semana, para caminhadas no fim da tarde, mas não espera o sol se pôr para voltar pra casa. ”Venho sem nada. Não trago bolsa, celular nem dinheiro. Venho rápido e não confio muito, não. De vez em quando passa um malandro e a gente sente medo. Na minha opinião, falta mais segurança”, reclama.
Temendo represálias, uma moradora que prefere não ser identificada diz que a urbanização melhorou o visual da cidade, mas acredita que os furtos não diminuiram. “Essa onda de malandragem começou antes mesmo da inauguração e agora com o bom movimento piorou. Como vem gente de toda classe, os espertos ficam de olho nos celulares, bolsas e tudo mais. Com os daqui eles não mexem, mas os de fora não escapam”, denuncia.
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