Quando os ponteiros se alinharam em direção ao primeiro segundo do dia seguinte ao marcado para o fim do mundo, os semáforos continuaram controlando o fluxo dos carros que ainda circulavam pela capital paraense. Os motoristas continuaram a esperar pelo desenrolar do congestionamento na avenida Almirante Barroso; o vento frio que percorria as ruas durante a madrugada não parou de soprar; e nos bares, os garçons continuaram o atendimento solicitado. Passado o ‘bug do milênio’, em 2.000, e o apocalipse interpretado a partir do calendário maia, que venha o próximo prenúncio: o mundo sobreviveu a mais um fim.
Cumprido o dia marcado pelo alinhamento dos calendários inscritos em uma lápide de pedra encontrada na América Central, o mais perto que os paraenses chegaram de um indício de destruição do planeta pela fúria da natureza foi a forte chuva seguida de um relâmpago e de uma rápida queda de energia. Passados alguns minutos, porém, o curso da vida continuou o mesmo. Já próximo do horário que daria por encerrada a previsão de fim dos tempos no dia 21 de dezembro de 2012, o assunto tão comentado nas últimas semanas parecia já não incomodar a maioria dos que aproveitavam a sexta-feira para confraternizar.
Com a plena convicção de que o mundo ainda se manteria erguido por muito tempo, restaram as piadas sobre o assunto. “Se tiver que acabar, que acabe na mesa do bar”, brincava Naiá Brasil antes mesmo que o relógio apontasse o término da tão comentada sexta-feira. “Não tem como acreditar. Não conheço ninguém que tenha acreditado. As pessoas levaram muito na brincadeira”.
Apesar da despreocupação apresentada hoje, na companhia dos amigos em um dos muitos bares que permaneceram lotados durante toda a noite, a publicitária Lorena Brito não nega que, quando teve conhecimento da profecia, chegou a acreditar que algo poderia colocar em risco a sobrevivência do planeta. “Há três anos, quando eu fiquei sabendo dessa história eu pensei: ‘nossa, mas 2012 está muito perto’. Mas quando chegou o ano, eu não acreditei, não”, garante, sem perder o bom humor característico de quase todos que falam sobre o assunto. “Nem cheguei a imaginar que isso fosse verdade”.
Na expectativa para a chegada do aniversário na segunda-feira, a servidora pública Ana Cláudia Lima nem chegou a se preocupar com a chegada do dia 21. Enquanto pela televisão ela acompanhava as histórias de quem já se preparava para enfrentar o colapso estocando comida e se abrigando em moradias subterrâneas, ela só pensava nas vivências que ainda lhe aguardam. “Isso é bobagem. O meu mundo só está começando”, sorri. “Isso, na verdade, é uma grande brincadeira. Não é motivo de preocupação para ninguém”.
Entretido com os inúmeros chamados que se anunciavam entre as mesas do bar, sobrou para o garçom Alexandre Bastana a missão de brincar com o fim dos tempos. “Não vejo as pessoas comentarem muito sobre o assunto, não”, informa já em meio a risos. “Mas tomara que acabe logo para ver se vem uma nova geração!”, sorri.
À espera da banda que daria início a uma das muitas festas que carregava no próprio nome uma piada com a data – ‘Até o Fim’ -, o universitário André Alves já não conseguia mais imaginar nenhum trocadilho novo com a data. Há poucos minutos do encerramento da sexta-feira, ele já tinha outros assuntos em mente. “Só ‘lorota’ isso. Foi muita piada o dia inteiro. Sei que muita gente aproveitou isso para lucrar. Teve até quem fez casas especiais para vender para as pessoas que acreditaram”.
“Se tivesse que acabar, que acabasse depois do rock”, brincou a estudante Laís Gaia, que também aguardava pelo show da banda de rock. “Vai acontecer, mas não agora”. Apesar da certeza evidente na conversa dos amigos, a universitária Thamires Cardoso não nega que, por algum momento, chegou a cogitar que a profecia atribuída aos maias realmente se concretizasse. “Uma amiga minha me preocupou. Passou pela minha cabeça que talvez não tivesse certeza de que o mundo não fosse acabar”, conta, sem perder o tom cômico. “Vai que... né?”.
Vencido o dia, tudo o que sobrou do fim profético não passou de brincadeiras e piadas registradas nas redes sociais.
Ao longo das principais ruas e avenidas de Belém, não só as estruturas se mantiveram firmes sob a escuridão da madrugada, como também, a certeza, da maioria dos paraenses, de que, por mais uma vez, o mundo amanheceria à espera do próximo fim.
A CULPA É DELA!
Formado por vários calendários, a lápide de pedra encontrada na América Central evidencia a coincidência de datas no dia 21 de dezembro de 2012. Passada a interpretação pelos responsáveis pelo achado, muitos foram os rumores de que a pedra apontasse o fim dos tempos em todo o mundo.
(Diário do Pará)
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