Sobre as palafitas, circulam pés apressados que, vez ou outra, precisam frear para dar passagem às bicicletas. O espaço é pouco, mas a pausa é providencial para se afastar um pouco para o lado e esticar conversa com o vizinho. A intimidade produzida pelas casas, quase coladas, facilita o contato. Repleta de comércios populares, crianças brincando livremente nas passagens e conversas de porta-de-casa, a comunidade da Vila da Barca contraria a urbanização acelerada de Belém e se reafirma um reduto com ares de interior. A poucos quilômetros do centro da cidade, o lugar, no bairro do Telégrafo, cresceu à beira do rio. Apesar dos problemas expostos, os moradores garantem que lá a vida é mais simples.
Liliane Damasceno, 37 anos, chegou à Vila da Barca há 20 anos para trabalhar no comércio da família do marido. Lá, os clientes são tratados pelo nome. “A família do meu marido tem isso aqui há uns cem anos. Vem do bisavô dele, é muito antigo. No início eu estranhei, tinha medo, mas depois que eu conheci os vizinhos, vi que não é nada violento. O pessoal tem muito é preconceito”, opina.
A cada três minutos, Liliane precisa parar para dar atenção aos fregueses, que se tornam mais numerosos conforme a hora do almoço se aproxima. “Fiado mesmo eu só vendo pra uns três. É contado na caneta, se não, não tem condições”, se diverte. O “Açaí do Ivanei” é apenas uma das diversas mercearias populares dispostas pela comunidade, facilmente identificadas pela tradicional bandeirinha vermelha com o açaí anunciado em letras brancas.
Haroldo Gomes, 41 anos, usa o ofício na manutenção da própria casa e se orgulha da profissão de carpinteiro. Entre as piadas e conversas com os amigos, ele trabalhava na nova portinhola que, pela altura, no máximo barrará a entrada de cachorros na casa. Haroldo garante que segurança não é um problema. “Aqui fica perto do comércio, perto do posto de saúde, perto de tudo. Gosto muito daqui. Tem até pronto-socorro, é muito bom, quando eles atendem a gente”, brinca.
INTERIOR
Segundo Fátima Sá, umas das líderes comunitárias da comunidade, existem cerca de 2.500 casas que continuam sobre estivas de madeira, reunindo cerca de 6.800 pessoas. “O que falta é mais políticas públicas e sociais para beneficiar a comunidade. Nós precisamos muito resolver a questão do saneamento básico e da falta de emprego. Mas, no geral, morar aqui é muito bom, sim. Outro dia fiquei conversando até três da manhã com os vizinhos, na porta de casa, sem problema nenhum”, conta. Fátima explica que muitos moradores da área vêm do interior, como da cidade de Cametá, e que lá moram pescadores que só precisam andar alguns passos para chegar ao local de trabalho.
Na Vila da Barca, até quem não é da comunidade, é agregado como parte dela, sem distinções. Sebastião da Costa, 59 anos, declara com orgulho: “Sou coletador aqui há 15 anos, graças a Deus. Já me jogaram pra Outeiro, Cotijuba... Pra onde me mandam, eu vou. Mas aqui foi onde eu fui melhor tratado até agora”. Sebastião conta que trabalha recolhendo o lixo de toda a área, de segunda a sábado, religiosamente.
Um trabalho puxado para um só funcionário, mas que ele encara com alegria. “Aqui só é eu e Deus, mas eu me divirto. Converso com os moradores, tiro uma brincadeira. Aqui todo mundo me conhece e fala comigo”, diz. Por onde passa, Sebastião é cumprimentado e saudado por moradores que se identificam com sua simplicidade. “Precisando, eu tô na área”, fala antes de se despedir.
ATRASO
Na Vila da Barca, existem aproximadamente 2.500 casas sobre estivas de madeira, onde moram mais de 6 mil pessoas. Comunidade diz que saneamento é o pior dos problemas.
(Diário do Pará)
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