Movimentada apenas pelas finas gotas de chuva que caíam sobre Belém no início da manhã de ontem, a água esverdeada do canal da passagem José Leal Martins já anunciava a vinda do problema conhecido por Antônio José, morador da área há pelo menos 40 anos. Diante do amontoado de lixo encostado na mureta do canal, não era necessário muito esforço para explicar o que aguardaria os moradores diante da primeira chuva mais intensa que caísse sobre o bairro do Marco. “Alaga tudo, não tem jeito”.
Misturados ao mato que surgia insistente pelas frestas da calçada de concreto, o aglomerado de pedaços de madeira, galhos de árvores, sacos de lixo, papel, ferro e até de um vaso sanitário denunciava a responsabilidade que, além do poder público é, também, da população. “O poder público tem que punir. Essas pessoas trazem lixo para cá e despejam aqui”, confirma Antônio José.
Por toda a extensão do canal, os entulhos e o acúmulo de lixo doméstico já começavam a surtir efeito. Se esquivando pelas calçadas mais altas para passar em segurança por um dos pontos de alagamento já formados em volta do canal e diante da proximidade da chuva anunciada pelo céu escurecido, a artesã Luciana Ferreira se preocupava. “O que a gente pode fazer? Ficamos preocupados, ainda mais com filha pequena”, destacou, enquanto segurava pela mão a pequena Ágatha Manoela, de dois anos. “Não lembro mais qual foi a última vez que limparam isso aqui”.
SITUAÇÃO
O vigilante Arinaldo Sarmento também não deixa de atribuir a situação aos responsáveis pelas garrafas PET, embalagens de biscoito e sacos plásticos que boiavam já em outra parte do canal da José Leal Martins. “Todo ano é isso. A última vez que limparam aqui foi no dia 23 de dezembro. Tem pouco tempo, mas a população também não ajuda, faz questão de jogar lixo no canal”, reconhece, apesar de ter uma solução própria para o problema. “Esse canal tem que fazer uma boa drenagem. Depois que fizeram a Estrada Nova, esse canal ficou muito pior”.
No cruzamento do canal da José Leal Martins com o da travessa Timbó, a situação não é diferente. Independente da direção observada, a visão de cada um dos dois canais era tomada por pequenas concentrações de lixo. Já quase no mesmo nível da rua sem asfalto, a mureta de proteção do canal da Timbó facilitava qualquer alagamento. “Não precisa mais nem ser período de chuva. Choveu, transbordou!”, garantiu a auxiliar de serviços gerais, Francineide Silva, que também mora na área.
Tendo que passar por uma poça de água que tomava de um lado a outro da pista logo pela manhã, ela já imaginava o que lhe esperaria pela tarde, quando retornasse para casa. “Ele (canal) já está totalmente entupido. Não seca mais não. De tarde, quando chover de verdade, isso aqui não vai dar nem para passar”.
“Só de barco!”, anunciava a dona de casa Maria Brita ao se esquivar dos amontoados de lixo que compunham o cenário que envolvia o canal. Com as pernas trêmulas pelos 82 anos de idade, mais do que os perigos causados pelas calçadas quebradas, ela se preocupava com os entulhos que a obrigavam a andar pela rua cheia de água. “Todo tempo é assim. Enche muito porque tá só lixo”, revoltava-se. “A prefeitura não limpa, aí transborda tudo”.
Anunciado oficialmente na manhã de ontem, o secretário municipal de Saneamento, Luiz Otávio Mota não escondeu que o principal desafio da secretaria, neste primeiro momento, é a limpeza dos canais.
OPERAÇÃO
“Serão três mil homens que essa operação vai envolver. São medidas emergenciais para minimizar os efeitos da chuva porque a cidade não foi preparada para esse período”, disse, ao se referir à operação de limpeza ‘Cuida Belém, cuide também: prefeitura e governo juntos com você’, iniciada pela atual administração no bairro da Terra Firme. “Vamos priorizar as áreas onde o lixo está mais presente, como Terra Firme, Jurunas, Guamá, Pedreira e a vila de Icoaraci”.
Segundo ele, para que o trabalho da secretaria gere os resultados esperados, a Sesan também conta com o apoio da população. “Junto com essas ações emergenciais, segue a de educação ambiental, que vai gerar resultado ao longo do tempo”.
(Diário do Pará)
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