Todos os dias Eneida do Socorro Santos vê o sol se pôr da pequena varanda da casa de madeira. Olha para a baía que se estende à sua frente na orla inaugurada há poucos meses. Há mais de 15 anos, Eneida, nome de personagem histórica da cidade que a abriga, trocou Abaetetuba por Belém. Com o filho de dois anos no colo, Eneida, 37 anos, vê os defeitos que a cidade tem, reclama um pouco, mas ao final é taxativa: Belém é acolhedora. “Uma cidade dos sonhos e oportunidades”, acredita.
Há quatro anos Eneida e a família de quatro pessoas compraram a casa de dois andares onde moram, no início de uma passagem que já viveu dias mais perigosos, mas acomodou as esperanças da família. O marido trabalha em um supermercado. Eneida deixou de trabalhar fora para cuidar do filho pequeno. É uma família tipicamente belenense. Do tipo que deposita fé em dias melhores, não perde o humor e tenta ter o conforto necessário a todos.
É difícil imaginar qual a Belém que Eneida enxerga. Há a paisagem de quem a enxerga do rio, de dentro dos “cascos”, dos pequenos barcos a motor. No lado de lá do rio, uma cidade que às vezes não se reconhece, com os pés fincados na terra encharcada, atada aos céus em caules de açaizeiros. São dois olhares. Às vezes se cruzam. Em outras se afastam.
Há o outro olhar. O do lado de cá, por trás dos prédios. É a Belém que se encharca de chuva. Belém é água em essência. Ela está nos olhos de quem aqui vive. Está na música, na poesia, na fala amansada, no andar do povo, está nas imagens. A cidade compõe um retrato rico. Não por acaso fez-se ambiente para uma das mais movimentadas produções da fotografia nacional, de identidades diversas reveladas em olhares únicos.
Belém costuma abrigar muita gente que vem de outros municípios. A capital nunca teve a fama de ser uma cidade onde pessoas de outros estados costumam vir para morar, tentar a sorte. Mas faz isso com uma frequência muito grande para os que vêm ‘do interior’, como chamam os que moram em Belém.
Foi o que a cidade fez com Romualdo Rodrigues, 81 anos. Desde 1962 mora em Belém. Quase não estudou, mas aprendeu da vida que nunca queria ter patrão. E foi vendendo coisas aqui e ali, que criou dez filhos, cinco homens e cinco mulheres. Orgulha-se de dizer que tem filho ‘dotô’. “Tem médico, tem arquiteto, tem bióloga”, diz.
Dono de uma pequena banca de frutas, dividida com o genro que conserta ventiladores, Romualdo é só lembranças. “Muita coisa mudou em Belém. Melhorou muito. Mas também tem muita coisa que ficou pior, como essa bandidagem”, diz.
Romualdo Rodrigues nasceu em Cametá. Viveu também no município de Acará. Esconde-se por trás de enormes óculos escuros. Veste a camisa. Pausa as palavras. Diz que a venda de frutas ajudou a criar a si e aos rebentos.
Belém tem cheiro de frutas, entre tantos mais. Basta um roçar de vento na mangueira, prenunciando o fruto que cai maduro aos nossos pés, ou logo ali adiante, provocando a correria de meninos afoitos pela manga que de antemão já se sabe saborosa.
Como poucas cidades, Belém consegue manter o olhar para o passado mesmo enquanto corre, às vezes impensadamente, para o futuro. Ainda tem sua primeira rua, onde se podem entrever resquícios de outras épocas sobrepostos. O casario alto, geminado em janelas verticais, se compõe entre ruas de curvas estreitas, numa cidade quase que fechada em si mesma, herança do pensamento português de cidades preparadas para a defesa.
É algo quase nesse sentido que a professora Fabiana Oliveira encontra todos os dias na Praça Batista Campos. Belém se encontra nas praças. Muitas estão abandonadas, mas há outras, como a Batista Campos, que mantém o próprio charme. “É ótimo morar aqui perto”, diz ela, enquanto observa a filha Maria Eduarda, oito anos, brincar de velocípede.
“Nasci e vivi aqui os meus 30 anos”, diz Fabiana. A professora reclama do caos do trânsito na cidade, mas admite. Ela pode falar mal, mas não quer que outros o façam. “Belém é uma cidade que não troco por nenhuma outra”, diz.
Durante os dias da semana, os bancos das praças servem de abrigo e repouso para a correria cotidiana. Ali é o ponto do descanso, do respirar mais calmamente e planejar o dia que virá ou repensar o dia que finda. Sombreada por um túnel de mangueiras, a praça da República abriga também dois orgulhos de Belém - os teatros da Paz e Waldemar Henrique. O primeiro é o palco histórico que guarda a memória da pujança econômica trazida pela extração e comércio da borracha no início do século XX. O segundo é o palco experimental para o talento dos artistas da cidade.
Lembrando ares de cidade pequena, é nessa hora que Belém deixa seus filhos pequenos correrem soltos pelos gramados. É onde o olhar de quem vem de fora encontra o olhar de quem aqui mora, enquanto a água de coco desce macia.
E é nesse espaço que os jovens também se libertam de pequenas amarras. Jéssica, 16 anos, põe a bandana roqueira, estampa a banda Linkin Park no peito e desenha. Eluane, 18, dança. “Aqui é bom porque a gente fica perto da natureza também. É o nosso lugar”, diz Jéssica.
(Diário do Pará)
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