Às 9h, a Praça Olavo Bilac, na Terra Firme, é uma feira a céu aberto. Roupas são espalhadas no chão, em improvisados ‘bazares da pechincha’. Pedaços de eletro-eletrônicos são vendidos, lanches oferecidos. Até exposição de concessionária de moto encontra espaço e lugar na praça. Estudantes perambulam meio sem ter onde ficar. Não há bancos no logradouro. Senta-se onde dá. À noite, o movimento é outro. Namorados, estudantes em fuga da aula, famílias. É uma praça pequena para tanta demanda. Os 90 mil moradores do bairro só têm essa praça, administrada pela paróquia local, como ponto de encontro e convivência.
“Não temos espaços de sociabilidade”, reclama o padre Bruno Secchi, pároco da igreja da Terra Firme, responsável pela Praça Olavo Bilac. “A praça está com problemas, já chamamos bombeiros e Celpa e nada”. Foi nela que no segundo semestre de 2012 o menino Jonatan Quirino, de seis anos, tomou uma descarga elétrica, consequência de instalações elétricas clandestinas de barracas de comida.
Padre Bruno reclama por mais áreas de convivência. Sabe que a ausência delas estimula violência. Entende que os jovens e as crianças do bairro sentem essa carência. E não está errado. A própria Constituição de 1988 vê o lazer como direito social, direito do trabalhador. E nisso se inserem as praças.
“Elas possuem um valor significativo para qualquer cidade”, diz a professora de Educação Física Vera Fernandes. Especialista em Lazer e mestre em Educação, Vera Fernandes coordena pesquisa acadêmica na Universidade do Estado do Pará (UEPA) onde as praças são o tema principal. “Elas são patrimônio cultural, servem para o encontro de amigos, para manifestações culturais e políticas. Quando se tornam apenas feiras, deixam de servir de espaço de contemplação e de embelezamento da cidade. Viram coisas como pontos de prostituição”, diz.
O papel atribuído às praças públicas passou a ser ocupado pelos shoppings. É para onde migrou a classe média. Com exceção de praças consideradas mais nobres da cidade, como Batista Campos, Praça da República, Praça Brasil e CAN, as praças da periferia é que sentem o abandono de forma mais intensa.
“Aqui não tem brinquedos. Estão quebrados. São os mesmos desde a inauguração, uns dez anos atrás”, diz Cristiane Alves, 33 anos. Sentada em um banco da Praça Dom Alberto Ramos, com a filha de seis meses dormindo ao lado, Cristiane reclama das condições da principal praça do conjunto Médici I, na Marambaia. “O que valoriza as praças são as crianças e o que atrai crianças são os brinquedos. Onde eles estão?”, questiona o funcionário público Renato Santos, 43 anos.
De acordo com o Guia Belém Sustentável, no Brasil, entre as capitais com maior proporção de áreas de praças (em relação ao território e tamanho da população), destaca-se Porto Alegre, com quase 550 praças ou quatro milhões de metros quadrados. A cidade de Belém abriga menos de 250 praças, com uma área total de cerca de um milhão de metros quadrados. “Ou seja, enquanto Porto Alegre tem 2,6 metros quadrados de praça por habitante, a cidade de Belém tem apenas 0,4 metro quadrado por habitante”, compara a publicação.
O fato é que, na Grande Belém, mais de um terço dos bairros é desprovido de praças. Quase todas com problemas graves de manutenção e conservação. A distribuição é irregular também. Em geral, as praças estão situadas mais no centro e nos bairros considerados mais valorizados. do seu entorno, o que limita o acesso para a população da periferia. Enquanto os bairros Cidade Velha e Campina possuem mais de 30 praças, há bairros que não têm nenhuma praça.
A responsabilidade do paisagismo das praças de Belém é de competência da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), que realiza trabalhos de arborização, poda de árvores, gramado e retirada de ninhos de insetos dos locais. “Mas não se pode atribuir toda a culpa ao poder público. A comunidade tem de fazer a parte dela”, diz Vera Fernandes. >> Leia mais no Diário do Pará.
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