As mãozinhas são habilidosas e têm afinidade com o touchscreen. A curiosidade comanda os movimentos. Ninguém precisa ensinar. Eles são autônomos. “Parece que nasceu sabendo” é a frase mais dita pelos pais, que se assustam com a destreza dos filhos com os equipamentos eletrônicos, como tablets, smartphones, iPhone, iPad e computadores. O entrosamento com a tecnologia parece ter vindo do berço.
Desde os nove meses de idade que Gabriel Lucas, 2 anos, demonstra interesse pela tecnologia. O fascínio cresce na mesma proporção que o menino. “Primeiro foi com o celular. Quando ele começou a falar ficava com o celular falando sozinho”, lembra a mãe Marisabel Dias, 26 anos. Atualmente a atenção do garoto mudou de foco. “Antes ele gostava muito do notebook, ficava imitando e digitando. Agora ele usa mais o tablet”, observa a professora de dança.
O encanto pelos eletrônicos, no entanto, já causou danos. Ao terminar de manusear o netbook da mãe, Gabriel quebrou a tela do objeto. Ele não observou que tinha esquecido uma chave no teclado do pequeno computador. “Ele já deu prejuízo”, constata Marisabel. O fato foi um caso isolado. “Ele sempre brinca com alguém do lado, pois não é um brinquedo próprio para crianças”.
Apesar de não ser brinquedo, o que a criança mais faz é brincar. “Tem uns jogos de carro e outros educativos que ele adora. Tomo cuidado para que ele sempre use como uma ferramenta de diversão. Porém, vou incentivar que ele use livros e outras formas de entretenimento”. O contato precoce com a tecnologia é considerado proveitoso. “O Gabriel sempre foi uma criança esperta e observadora. Cada vez ele se interessa mais e eu gosto quando ele reconhece os objetos e brinca”.
Joguinhos de carros, aviões, animais, quebra-cabeça, jogos de memória e associação são os preferidos do menino. A agilidade de Gabriel impressiona e até causa orgulho. “A gente ensina uma vez e ele já aprende e procura o jogo sozinho para brincar”, conta Marisabel. Somente jogar não basta. O espírito competitivo fala mais alto. “Ele gosta de mostrar o jogo feito e ganhar elogios e palmas pela proeza”, revela a mãe.
O relacionamento imaturo com a tecnologia tem lá suas vantagens. “Toda exposição a qualquer estímulo, desencadeará na criança novos aprendizados e, nesse caso, aprendizados que provocam raciocínios lógicos e práticos”, enumera a psicóloga Mariella Nogueira Braga. Mesmo aprovando o uso dos meios de comunicação, Marisabel tem outros conceitos sobre o que é plausível para o filho manusear nessa idade. “Acho que pode ajudar no aprendizado sim. Só não posso permitir que ele deixe de brincar, de se movimentar e socializar. Acho que ele tem que ser estimulado. Tem que ser criança”, pontua.
De acordo com a psicóloga, toda criança tem uma curiosidade intrínseca e o próprio desenvolvimento vai requerendo e pedindo que novos estímulos façam parte de suas vidas. “Isso quer dizer que elas sempre precisam estar expostas ao novo, ao diferente, para que seu repertório comportamental, psíquico, verbal, seja cada vez mais desenvolvido”, avalia Braga.
A ligação com o meio eletrônico foi tamanha que fez a pequena Amanda Tavares, 4 anos, escrever e entregar uma cartinha ao Papai Noel pedindo um tablet de presente de Natal. O bom velhinho atendeu ao pedido. A felicidade da menina ao pegar o aparelho rosa para jogar é notória. O game favorito condiz que a personalidade da vaidosa Amanda. “Eu gosto do jogo da Barbie, de vestir a roupa, de colocar os óculos, de fazer a unha e pentear o cabelo”, narra a menina.
Esperta, ela já sabe manusear o equipamento melhor do que os pais. “Ela aprende rápido e sabe mais do que eu”, conta a mãe, Maria Helena Duarte, 45 anos, ao constatar o quão a filha é viciada em joguinhos. “Aqui ninguém ensina. Eu não sei como é que ela aprende. Ela vai mexendo e decora os comandos”, conta. Se dependesse da mãe, Amanda não conseguiria nem ligar o eletrônico. “Nem mexer no celular simples eu sei”, admite Maria Helena.
Fazer filmagens, fotos, gravações de voz e jogar. Amanda consegue usar as plataformas do equipamento como ninguém na casa. Por isso, a mãe da menina acredita que o investimento de R$ 400 na compra do tablet valeu a pena. “Ela não é muito cuidadosa, mas já disse que vai ter bastante atenção para não quebrar. Eu não tenho receio, acho até bom. É como ela me diz: sou independente”, afirma a mãe da menina, que considera a filha precoce em tudo. “Não é somente com a tecnologia”, garante.
Os pais, segundo a psicóloga Mariella Braga, devem ficar atentos ao conteúdo ao qual a criança está tendo acesso. “É preciso respeitar a idade delas com relação aos jogos. Jogos com mortes e muita violência não trazem nenhum benefício a elas, ao contrário, são profundamente prejudiciais”. A atenção não restringe- se ao conteúdo. “O tempo de uso que deve ser sempre limitado. Os pais não devem fazer dos eletrônicos a babá do século 21. As crianças não podem substituir as atividades físicas, sociais e outras brincadeiras pelos eletrônicos”, frisa a psicóloga.
A nova geração é indubitavelmente ágil e empenhada em descobrir as minúcias do mundo tecnológico. Como tudo na vida, a precocidade com que isso vem acontecendo tem benefícios e malefícios. Caso o acesso seja acompanhado e compatível com a idade, favorece o desenvolvimento mais rápido da leitura, do raciocínio lógico e da objetividade.
A interatividade social criada pelo advento da computação atingiu as crianças desde cedo. As influências não limitam-se a leitura ou escrita, mas também, a forma de brincar, conforme ressalta a psicanalista Filomena Pinheiro Dias. “O lugar do brinquedo e do jogo como promotores do texto, do simbólico, são elementos essenciais para o desenvolvimento da criança. Uma das importantes modificações do uso precoce desses meios de comunicação está ligada à mudança da cena lúdica”.
Para ela, o brincar virtual não é uma substituição e sim, outra possibilidade de brincar, que deve ser atentamente orientada e observada pelos adultos encarregados da educação das crianças – atraídas especialmente pela velocidade com que surgem as imagens e cores nas telas dos eletrônicos. “Oferece um acesso rápido a uma diversão que não exige esforço, estimulando a onipotência da criança que acredita nesse período, ‘reinar’ de forma mágica sobre o mundo”, analisa Dias.
(Diário do Pará)
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