Com índices de avaliação da qualidade do ensino bem abaixo da média nacional, os estudantes paraenses ficam longe do ideal também nas escolas particulares. Quando o Ministério da Educação divulgou, em agosto do ano passado, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica referente ao ano de 2011, acendeu entre pais e educadores a luz de alerta para um problema que pode apresentar piora na avaliação de 2012. Ao contrário do que sempre se pensou, o ensino privado não está imune à baixa qualidade. Apesar de ter notas maiores que a rede pública de ensino, as escolas particulares obtiveram média de desempenho abaixo da meta estabelecida para 2011.
Os resultados apontam que a rede privada tem avançado menos nos últimos anos, tanto nos níveis iniciais, como nos finais do Ensino Fundamental e no nível médio. Dados do Ministério da Educação informam que as escolas privadas respondem por 14,3% das matrículas nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Nos anos finais e no Ensino Médio, o percentual de participação é de 12% em cada um dos níveis.
Nas séries iniciais, a nota média nacional registrada pela rede privada em 2011 foi 6.5, enquanto a meta estabelecida era 6.6. No Pará foi de 5.9 para uma meta de 6.2. No Ensino Fundamental, o Ideb das escolas privadas em nível nacional ficou em 6, enquanto o objetivo estabelecido para o ano passado era 6.2. As escolas particulares paraenses também não atingiram a meta estadual, que era de 5.7, ficando com 5.5.
No Ensino Médio, em âmbito nacional a nota registrada pelas escolas privadas foi de 5.7, enquanto a meta estabelecida era 5.8. No caso das escolas do Pará, a meta de 5.3 foi exatamente atingida.
No Ensino Médio da rede particular do Brasil, 15 estados e o Distrito Federal não atingiram a nota mínima esperada pelo governo no Ideb. Dois terços dos 20 Estados avaliados em 2009 apresentaram queda ou mantiveram a mesma média no levantamento.
SEM EXPLICAÇÃO
Para especialistas, os números do Ensino Médio são frustrantes pelo fato de não refletir as vantagens que os alunos da rede privada têm em relação aos que estudam em escolas públicas.
Estes mesmos especialistas consideram que as notas deixam evidente que, ao contrário do que muita gente pensa, escola privada não é exatamente um sinônimo de ensino de qualidade. Elas têm menos burocracia que as escolas públicas, podem ter as decisões mais descentralizadas, mas têm também enormes desafios. E o maior entre eles é a formação dos professores.
A divulgação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica apontando a média dos alunos e das escolas na escala de proficiência, no entanto, não é suficiente para que gestores e professores saibam o que fazer. “O que aparece ali não é o nível, é apenas um ponto numa escala”, avalia o pesquisador Francisco Soares, membro do Conselho Nacional de Educação e do Conselho de Governança do Movimento Todos Pela Educação.
De acordo com Soares, os níveis devem ser normativos e precisam ser determinados com fundamentação teórica pedagógica. Ao identificar que seus alunos estão em um determinado nível, seja ele básico, intermediário ou avançado, o gestor e o professor precisam entender o que aquele aluno aprendeu até ali e o que falta aprender. “Isso precisa estar escrito de uma maneira clara, com uma linguagem que seja de domínio do professor, que se traduza em o que fazer na sala de aula”, completa.
Para tentar encontrar uma solução, o pesquisador propõe que avaliadores e pedagogos caminhem juntos. “Hoje estamos no caminho inverso. Nós, técnicos, chegamos com todo nosso conhecimento estatístico e implantamos as avaliações. Agora é hora de a pedagogia nos mostrar como interpretar os dados e indicar os caminhos para a melhoria da aprendizagem dos alunos em função de toda essa informação disponível”, defende.
No índice geral, o Pará teve nota 4.2 do Ideb para os anos iniciais do Ensino Fundamental. Esse índice está bem abaixo do que foi alcançado pelas melhores escolas do Estado. A que obteve o melhor índice nesta série fica em Uruará e teve nota 6.5.
Já para os anos finais do Ensino Fundamental, a nota geral do Estado foi menor (3.7), assim como os índices das escolas que melhor se saíram no Ideb. Para o cálculo da nota, leva-se em conta a taxa de aprovação e o desempenho dos alunos na Prova Brasil, que compreende testes de português e matemática.
Objetivo é alcançado e Ideb não reflete a realidade, dizem escolas
A qualidade da educação brasileira é preocupante. Vários parâmetros para calcular a situação do ensino desde os primeiros anos ao nível superior foram criados, como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade). As metas são consideradas baixas - algumas um pouco acima de 50%. Porém, mesmo assim, não são alcançadas. O curioso é que o problema não gira somente em torno da educação pública, como se poderia imaginar: ele alcança também as escolas privadas, como apontam os dados do Ideb 2011.
Abaixo 5% da meta para 2011 (6.2), o ensino nos anos iniciais (Ensino Fundamental I) das escolas particulares paraenses foi de 5.9. A média nacional foi de 6.5, um décimo a menos que a meta 6.6. No Ensino Fundamental II, a média paraense foi de 5.5, 4% abaixo da meta de 5.7. Na média nacional, o objetivo de 6.2 também não foi atingido, chegando a 6. No Ensino Médio, a situação melhorou. O Pará alcançou a meta de 5.3 prevista para 2011. A média nacional ficou em 5.7, inferior à meta de 5.8.
RESULTADOS
Apesar desses desempenhos no Ideb, a vice-presidente do Sindicato das Escolas Particulares do Pará (Sindep- Pa), Suely Menezes, afirma que as escolas pagas estão atingindo o seu objetivo. “O aluno está tendo resultados perante a escola, a sociedade e no vestibular, avançado ao nível superior”, analisa. Sobre a qualidade do ensino ofertado pelas escolas privadas, Menezes acredita que os dados não refletem a realidade escolar. “É um tipo de prova que o aluno não está acostumado. São metodologias e parâmetros diferentes”, justifica.
O questionamento quanto ao nível do ensino público é natural. Contudo, indagar a excelência dos serviços prestados pelas instituições particulares ainda causa estranheza. Responsável pelas melhores médias, geralmente abaixo somente das escolas militares, as escolas privadas são as campeãs em aprovação nos principais vestibulares do Brasil e não estão habituadas a críticas neste sentido. Assim, volta-se a comparação que destoa a realidade estrutural presente nos ensinos disponibilizados. “Os nossos números estão bastante superiores aos das escolas públicas, que não atingiram a meta”, confronta Menezes.
Públicas versus privadas: o contexto é crucial
Os dados do Ideb de 2011 referentes aos anos iniciais da escola pública indicam crescimento de 11% em relação a 2009. A média 4 foi alcançada, com percentual de 18% acima da meta de 3.4. Nos anos finais, a média paraense ficou em 3,5 - 3% abaixo da meta de 3,6, apesar de ter crescido 3%.
Nas escolas públicas estaduais, o Ideb registrado nos anos iniciais foi de 4 pontos, 11% a mais que a meta de 3.6, com crescimento de 8% sobre o Ideb anterior. O Ensino Fundamental II não alcançou a meta de 3.6, ficando 14% abaixo do esperado, com média de 3.1. O objetivo também não foi alcançado no Ideb do Ensino Médio, com média de 2.8, 3% inferior à meta de 2.9 - e ainda obteve queda de 7% em 2011, o equivalente a 0.2 pontos. A cada 100 alunos, 26 não foram aprovados. O número se reduz para cinco reprovações nas escolas particulares.
Percebe-se que as metas das escolas públicas municipais e estaduais são inferiores às das escolas particulares. “A escola particular não é totalmente diferente da pública. Os professores são praticamente os mesmos. Os nossos índices são maiores, mas isso não significa que estejamos bem. Temos muito a melhorar”, diz Suely Menezes, do Sindep-PA.
No site do Ideb não estão disponibilizados os dados de 2009 das escolas privadas. Assim, não há como saber se houve evolução ou decréscimo na avaliação. “Os índices são mais um alerta de reflexão de que faltam investimentos como capacitação de professores, material didático adequado, melhor estrutura escolar e escolas em tempo integral. Mas já temos dificuldade com as escolas em tempo parcial”, analisa Menezes.
Para a pós-doutora em psicologia da educação Ivany Pinto, os índices que medem a educação brasileira são necessários, mas apresentam falhas. “É um sistema que deixa algumas lacunas. Não avalia o contexto sociocultural onde o processo ensino/aprendizagem ocorre”, critica.
O fato dos indicadores serem presos aos resultados gera críticas. “As avaliações se resumem a provas e números e os números não refletem o processo”, compara. “Os números são necessários, porém, por si só não dão conta de fazer uma radiografia do que é o ensino no país”, pontua.
(Diário do Pará)
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