Quando João Paulo (nome fictício), 27, chegou ao Centro de Recuperação do Coqueiro (CRC), em Ananindeua, para cumprir pena por homicídio e estupro de vulnerável, ele não imaginava que o pior ainda estava por vir. Preso em 2008, o jovem de estatura baixa, olhar tímido e poucas palavras, natural do município de Santo Antônio do Tauá, convivia tranquilamente no presídio até dois anos atrás, quando foi surpreendido pela notícia de que é portador do vírus HIV. “Na hora que eu soube que estava com a doença eu pensei: pronto, agora acabou a minha vida”, diz o detento, enquanto recorda os detalhes do dia em que marcou sua vida.
“Era um dia como qualquer outro. Eu tinha feito o teste da doença porque eu iria trabalhar na cozinha do presídio e por isso era obrigado fazer esse exame antes de começar a manipular os alimentos. Mas no dia do resultado eu senti que tinha alguma coisa diferente. A psicóloga me chamou, pediu para eu ter calma e disse que estava contaminado pelo vírus da AIDS. Na hora, a primeira coisa que eu pensei é que eu já estava prestes a morrer”, revelou o detento.
O alívio só veio após uma conversa de longas horas com a psicóloga da unidade prisional, que explicou que o fato de ser portador do vírus HIV não significava necessariamente estar doente e que se ele tomasse todos os cuidados exigidos pelos médicos, poderia levar uma vida normal. “Com as palavras da médica eu fui ficando mais calmo e vendo que AIDS não é o fim da nossa vida. Basta a gente se cuidar e seguir tudo como os doutores mandam, que a gente pode ter uma vida igual como qualquer um, com algumas restrições, mas sem diferença”, declarou o jovem que já cumpriu 4 anos e 2 meses da pena expedida pela Justiça.
A realidade de João Paulo é compartilhada por 51 detentos da Superintendência Penitenciária do Pará (Susipe) espalhados entre as 40 unidades prisionais no Estado e que atualmente convivem com o vírus HIV. Desse número, 95% são homens, segundo o último relatório da Divisão de Saúde Prisional da Susipe, realizado em outubro deste ano. “Nós acreditamos que o número de homens é maior (48 soropositivos) devido à proporcionalidade dos nossos detentos. A maioria é formada pelo sexo masculino e isso faz com que eles sejam os mais atingidos pelo vírus”, garante Ivone Rocha, gerente da Divisão de Saúde Prisional da Susipe.
“Além dessa proporção, outro fator muito importante, que torna os homens mais vulneráveis ao contato com o AIDS é o número de visitas íntimas, onde nos presídios masculinos é muito maior. A mulher muitas vezes é abandonada pelo parceiro e isso faz com que a vida sexual da detenta seja bem menor que a dos homens, que mesmo presos, continuam mantendo relações sexuais regularmente”, afirma Débora Crespo, coordenadora estadual de DST da Secretaria de Saúde do Pará.
E foi através das visitas íntimas que João Paulo afirma ter contraído o vírus. Segundo ele, o HIV foi transmitido de uma ex-companheira que ele conheceu lá mesmo na unidade prisional. “A mulher que foi a transmissora do vírus era uma irmã de um colega de cela. Como ela costumava visitar o presídio, a gente acabou se conhecendo e se relacionando. Com isso, tivemos relação sem camisinha e eu acabei pegando a doença”, revelou o detento.
De acordo com João, a mulher morreu meses depois que eles terminaram o relacionamento, vítima de um homicídio em um bairro da periferia de Belém. Mas antes de morrer, ela teria revelado a mãe dele que era portadora do vírus. “Foi a minha própria mãe que me falou que essa menina confessou pra ela que estava com AIDS e tinha me passado o vírus sabendo de tudo. Nem o irmão dela sabia. Mas aí, já era tarde e não podia se fazer mais nada. Eu só fui saber que ela tinha o vírus depois que eu descobri que estava com AIDS”, explicou o jovem.
Mesmo convivendo com o vírus, sem saber, João afirma que continuou mantendo relações sexuais sem os preservativos que são distribuídos pela Divisão de Saúde Prisional. Ele conta que só começou a tomar cuidado quando descobriu que tinha engravidado uma de suas parceiras. “Que bom que nem a mãe do meu filho, nem ele, que hoje está com um ano e pouco não foram contaminados pelo vírus. Mas depois disso eu aprendi. Agora relação sexual só com camisinha mesmo”, afirmou.
Transmissão tem inúmeras causas
A forma com que João foi contaminado pelo vírus é apenas uma das diversas maneiras com que os presidiários adquirem AIDS nas carceragens de todo o país. “A maior causa de transmissão nos presídios decorre das relações sexuais, mas existem também outras formas como o uso de seringa, no caso de drogas injetáveis, que ainda é muito utilizado nas prisões, e o compartilhamento de objetos pessoais sem nenhum tipo de higienização”, detalha Débora Crespo.
A confecção de tatuagem e o compartilhamento de materiais como aparelho de barbear entre os homens e instrumentos de manicure entre as mulheres dentro das unidades, são os mais comuns, segundo Adriana Diniz, enfermeira da Divisão de saúde Prisional da Susipe. Para ela, esses tipos de transmissões são comuns entre aqueles que convivem com o vírus e ainda não tem conhecimento dele e, por isso, acabam, sem saber, transmitindo o vírus para os colegas de cela.
João, por exemplo, contabiliza hoje 27 tatuagens espalhadas pelo corpo, três delas, segundo ele, feitas dentro da prisão com instrumentos individuais. “Por isso, sempre orientamos que os detentos tenham material individual, principalmente aqueles que possuem o vírus do HIV”, aconselha a enfermeira, que acompanha diariamente a rotina de pessoas soropositivas nas unidades prisionais do estado.
Sistema de dados ainda é incompleto
Apesar do trabalho de acompanhamento realizado pela Susipe, com realização de testes regularmente e acompanhamento médico e psicológico dos detentos que convivem com HIV, Adriana Diniz explica que a coordenação de saúde da entidade não possui um percentual que divida a quantidade dessas pessoas pela forma que vírus foi transmitido. Assim como não há dados específicos sobre quem adquiriu o HIV dentro da prisão e de quem foi contaminado fora do sistema prisional.
“Às vezes a pessoa em liberdade, já possui o vírus, convive com ele há algum tempo, mas não sabe e passa a descobrir quando está preso. Além disso, se tem o fator de risco predominante que é muito maior nos presídios”, destaca.
A falta de informações mais detalhadas sobre a realidade de pessoas privadas de liberdade convivendo com o vírus HIV não é uma realidade apenas do sistema prisional do Pará. Segundo Eduardo Massad, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), autor de diversos artigos sobre o tema, a ausência de dados sobre infecções nas populações carcerárias, principalmente em relação a AIDS, ainda é muito grande em todo o país.
“No Brasil, o problema de saúde pública, representado pela infecção por HIV na população prisional vem sendo tratado de maneira não-sistemática já há vários anos. A falta de definições centralizadas para a abordagem deste problema, associada à complexidade verificada no território nacional, com as decorrentes diferenças regionais na população prisional e nas prevalências do HIV e infecções correlatas, enfatiza a necessidade de realização de estudos de abrangência nacional que permitam a elaboração de estratégias eficazes para seu controle”, afirma.
(Diário do Pará)
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