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Escutas envolvem nomes em secretarias

A suposta doação de 1.500 carros oficiais do Estado para entidades de assistência social – na verdade um engodo para mascarar a prática de vários crimes, já que boa parte dos beneficiados nunca viu a cor dos veículos – a cada dia revela fatos novos, algun

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A suposta doação de 1.500 carros oficiais do Estado para entidades de assistência social – na verdade um engodo para mascarar a prática de vários crimes, já que boa parte dos beneficiados nunca viu a cor dos veículos – a cada dia revela fatos novos, alguns deles gravíssimos. O caso é investigado por quatro promotores de justiça, um deles da área militar. O DIÁRIO apurou que interceptações telefônicas autorizadas por ordem judicial flagraram conversas comprometedoras para algumas pessoas que até então pareciam acima de qualquer suspeita. Para não prejudicar as investigações, alguns nomes ainda não podem ser revelados.

Oficialmente, porém, oito pessoas foram indiciadas e cinco delas, presas em dezembro passado durante a “Operação Rosa Vermelha”, da Polícia Civil, continuam na cadeia – a diretora de Apoio Logístico da Polícia Militar, coronel Ruth Léa Costa Guimarães, o sargento da PM Raimundo Nonato Sousa de Lima, o servidor público Rubervaldo da Silva Moreira, e o corretor e sucateiro Nicanor Joaquim da Silva, além da mulher dele, Márcia Miranda Gomes.

Chama a atenção o fato de Nicanor ter sido dado como foragido pela imprensa sem que a polícia desmentisse a informação. Nicanor, peça chave no esquema, está em uma cela do Centro de Triagem da polícia e estaria sob enorme pressão para assumir sozinho a pecha de líder da quadrilha, protegendo alguns figurões. “Estamos diante de um crime de lesão gravíssima dos cofres públicos do Estado”, confessa um dos promotores mergulhado na investigação.

O cenário que se apresenta para os promotores engloba crimes de formação de quadrilha, improbidade administrativa, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, peculato e tráfico de influência. Os papéis examinados e as provas colhidas durante o inquérito policial sinalizam para o envolvimento de policiais militares, servidores públicos lotados em postos de comando em secretarias, advogados, empresários, corretores e até um jornalista.

A escuta telefônica grampeou conversas de pessoas que trabalham na Secretaria de Educação (Seduc) e Secretaria de Saúde (Sespa). Em uma dessas conversas, uma ex-diretora da Sespa ouve a seguinte frase de um interlocutor: “você agora vai ser chefona de novo”. A resposta dela fica no ar, em forma de risos. A mulher, segundo as investigações, se utilizaria do chamado tráfico de influência para facilitar a compra de veículos considerados inservíveis pelo governo junto à Seduc.

Ela seria sócia de Rubervaldo da Silva Moreira, homem tido como agenciador de Nicanor Joaquim da Silva. Um dos documentos em poder dos promotores é um termo de doação de 23 veículos, assinado por um ex-secretário de saúde interino, para a organização não-governamental Arca de Noé. Aliás, tem se falado muito apenas na doação de 161 carros feita à Fundação Pestallozzi, durante a gestão da presidente Maria Ierecê Santiago Mendes.

Galpão

Vale destacar que a ex-presidente, ao contrário do que foi publicado, não chegou a ser indiciada por falsidade ideológica e estelionato pela delegada Paula Nyandra de Oliveira, responsável pelo inquérito policial. Nicanor declarou em seu depoimento à delegada que vendeu os carros com autorização de Maria Ierecê e entregou para ela metade do dinheiro apurado na transação. E confirmou que autorizou as vendas, disse desconhecer que estaria praticando algo irregular e que era “movida por boa fé”.

Quanto à participação da coronel Ruth Léa Guimarães, os documentos interceptados indicam que ela agia em estreita relação com Nicanor. Um exemplo disso foi que os 161 carros supostamente doados à Fundação Pestallozzi ficaram guardados em um galpão de propriedade da coronel, localizado na rodovia Transcoqueiro. A maior parte dos carros, tidos como inservíveis, mas sem comprovação pericial, como manda a lei, foi levada de carreta para São Paulo, “esquentada” e vendida a particulares.

Cerca de vinte compradores dos veículos procuraram o Ministério Público para queixar-se de que foram enganados pela quadrilha. Seus carros foram apreendidos em barreiras das polícias rodoviárias estadual e federal. A imensa maioria, porém, roda tranquilamente em várias capitais brasileiras e até em países vizinhos.

(Diário do Pará)

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