Dos bancos de plástico, os estofados dos assentos deixam apenas vestígios de que, um dia, já estiveram ali. Nos quatro cantos da base, apenas os buracos reservados para os parafusos indicam a estrutura que, antes, já fez parte dos coletivos. Como sobra do revestimento, apenas os estofados dos encostos sobrevivem, mesmo que, em muitos casos, rasgados.
Antes mesmo que se pise dentro de alguns coletivos que circulam pela Região Metropolitana de Belém, a falta de estrutura adequada já pode ser pressentida pelo o que se observa do lado de fora. Em muitos casos, apesar de existir uma boa quantidade de ônibus novos circulando, os amassados e a sujeira da lataria já adianta a situação do interior.
Encolhida em um banco da última fileira de coletivo que faz um percurso metropolitano através da Rodovia BR-316, a promotora de vendas Ana Cristina Pimentel conhece bem a situação precária de muitos ônibus. Dependente do transporte coletivo para se deslocar para o trabalho, na maioria das vezes, ela é obrigada a enfrentar uma hora de viagem sem espaço e em cadeiras sem estofamento. “É um desconforto muito grande, as cadeiras são muito desconfortáveis. Eu passo mais de uma hora sentada e é muito complicado, principalmente para quem tem que ir para Ananindeua e municípios mais distantes”, afirma. “Não tá valendo os R$2,20”.
Com os joelhos já encostando no encosto da cadeira da frente, a redução do espaço entre um banco e outro também vem sendo observado por Ana Cristina constantemente. Assim que as fileiras vão se aproximando da parte traseira dos veículos é que as condições de assento vão ficando cada vez mais estreitas. “Têm muitos ônibus com baratas, com o teto solto, que molha tudo quando chove...”, enumera. “Falta respeito com o passageiro”.
SUJEIRA
Por mais que as reclamações com a sujeira dos veículos lhe venham à memória com facilidade, no ônibus escolhido pela reportagem do DIÁRIO para circular ontem, as condições de limpeza não eram das piores. Iniciado o expediente às 5h30, o motorista foi o responsável por lavar o veículo antes da primeira corrida do dia. “Está sempre sujo, eu é que dei uma lavada. Tenho uma vassoura ali, um pano molhado aqui pra limpar no final da viagem. A gente faz a parte da gente. São 19 anos de ônibus”, descreve o motorista que preferiu não se identificar.
Como prova da atitude tomada pelos próprios rodoviários, uma lixeira de plástico segue viagem bem amarrada em uma das ferragens do veículo. “A gente coloca porque o passageiro mesmo joga lixo pelo chão”, afirma, sem deixar de responsabilizar, devidamente, os passageiros que ajudam a sujar o coletivo. “Esses bancos são os próprios passageiros que arrancam. Quando tem futebol, eles arrancam tudo. Às vezes por conta de um estofado, a gente é que acaba levando a punição. 40% dos problemas que aparece quebrado nos ônibus, vão pro motorista e pro cobrador ajeitar”.
Não tão presente no veículo que circula pela BR-316, a sujeira é a primeira coisa observada em um ônibus que transita pela Avenida Augusto Montenegro. Logo na saída do veículo, os passageiros precisam desviar do lixo acumulado nos degraus da escada.
Do papel de bombom ao resto de algo que parece ser uma fruta amassada, a sujeira é apenas um dos problemas. “Nem precisa falar. Tudo incomoda, a sujeira, as coisas que são todas quebradas, os bancos duros, as janelas não abrem direito”, aponta, sem cerimônia, a auxiliar de serviços gerais Terezinha Gaia.
(Diário do Pará)
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