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Vítimas lutam todos os dias para superar traumas

“Saí de casa, era noite e tava escuro. Fui atravessar a pista. Vi duas motos. Elas passaram. Ouvi uma terceira moto se aproximando com velocidade, o farol apagado. Me bateu”, lembra o autônomo Antônio Carlos Sousa, 51 anos, ao falar da fatídica noite de d

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“Saí de casa, era noite e tava escuro. Fui atravessar a pista. Vi duas motos. Elas passaram. Ouvi uma terceira moto se aproximando com velocidade, o farol apagado. Me bateu”, lembra o autônomo Antônio Carlos Sousa, 51 anos, ao falar da fatídica noite de dezembro de 2011. Depois de mais de um ano do acidente de moto, as idas ao hospital continuam. Ele ainda aguarda para fazer cirurgia de retirada da platina e alinhamento do pé, que ficou comprometido em virtude de uma infecção após a primeira operação.

A rotina mudou totalmente. “Realmente não volta a ser como antes. Você se limita a muitas coisas”, resume Antônio, que agora anda com o auxílio de muletas. “Antes era só na cadeira de rodas”, recorda. Era Antônio quem mantinha a família financeiramente. O apoio da família foi fundamental para superar as limitações. “Foi o que motivou, deu muita força. Se fosse depender só do INSS, a situação era mais crítica”, analisa.

Ser uma pessoa ativa e de iniciativa gerou frustração ao tentar fazer as atividades que antes eram tão simples. “Você depende dos outros para tudo”, lamenta. A correria do dia a dia ficou no passado. Lentamente as coisas vão voltando ao lugar ou sendo adaptadas a um novo ritmo. “Estou melhorando, devagar”, avalia o autônomo durante a sessão de fisioterapia no Hospital de Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE).

Motociclistas vítimas de acidente de trânsito geralmente precisam de acompanhamento médico de médio e longo prazo. É preciso exercitar a paciência para fazer os exercícios com regularidade. As respostas, por menores que sejam, fazem diferença nas coisas simples da vida. O objetivo de Antônio é singelo, porém, audacioso: “Quero voltar a ter a vida normal que eu tinha”. Apesar das mudanças drásticas ocasionadas pelo acidente, o vendedor de lanches não pretende largar a moto. “Eu gostava e gosto de moto. É o mesmo que gostar de bola”.

Os membros inferiores são os mais atingidos neste tipo de acidente. Quando a vítima não faz uso de capacete, a probabilidade de sequelas é bem maior, sobretudo em casos de traumatismo crânio encefálico. “A evolução deles, com o advento da fisioterapia, é muito melhor. Só que infelizmente algumas pessoas trazem sequelas de caráter definitivo, que podemos apenas minimizar”, analisa o fisioterapeuta Eric Melo. “Eles ficam emocionalmente, psicologicamente e socialmente debilitados. A recuperação é física, mas ressurge as esperanças”, constata o profissional que considera a evolução uma reação em cadeia.

NOVA VIDA

Para o policial militar Ronan Wendeo, 25 anos, o dia 30 de setembro de 2011 é um divisor de águas. Desde esta data, ele aprendeu a ter paciência. Aos 23 anos de idade, ficou entre a vida e a morte ao sofrer um acidente quando saia de casa para trabalhar. Os equipamentos de segurança e o socorro adequado foram determinantes para a recuperação.

O jovem trafegava em uma motocicleta, em Barcarena, e foi atingido por um motorista não habilitado que vinha na contramão. Um amigo bombeiro, que viu o acidente, coordenou o socorro. “Graças a Deus eu fui socorrido certo, senão teria ficado tetraplégico”. De acordo com o coordenador do Pronto Atendimento do HMUE, José Guataçara, o atendimento errado piora o grau das lesões e consequentemente, o prolonga o tempo de reabilitação.

Ronan não tem mais uma rotina agitada. As viagens, festas e passeios com os amigos tornaram-se cada vez mais raros. “Depois do acidente ficou tudo bem mais complicado, foi bem grave”, compara. São oito pinos de titânio implantados da cervical até o tórax. Aos 23 anos, o rapaz que corria de 10 a 15 Km todos os dias, ficou paraplégico – perdeu os movimentos do abdômen para baixo. “Eu amava correr. Era o meu hobby”.

Mesmo assim, o jovem não guarda sentimentos ruins do motorista que causou o acidente. “Desde o dia que acordei, não tive mágoa ou raiva”, diz. “O difícil não é não poder andar. Difícil é conviver com a rotina de medicamentos, a dor, os cuidados por não sentir mais o corpo”, avalia.

Com dificuldades e muita esperança

Ronan teve que reaprender a viver. A princípio, precisava da ajuda dos familiares para tomar banho, ir ao banheiro, até respirar era difícil. “Eu não fazia nada. Só fui melhorar depois de conseguir vaga no Hospital Sarah, em Brasília. Foi quando aprendi a me vestir, tomar banho e a cuidar do meu corpo. Foi quando eu voltei a viver”.

Agora, acordar a cada duas ou três horas durante a madrugada faz parte da rotina. É preciso aliviar a pressão no corpo, mexer-se. Coisa que fazemos involuntariamente, mas que ao não sentir mais o corpo, é preciso adaptar-se. Porém, as mudanças e adaptações não superam os prazeres que a memória insiste em trazer a tona para comparar com o presente. “Eu era uma pessoa muito ativa, fazia tudo, em qualquer hora e lugar. Não tinha tempo ruim”, recorda. “Hoje eu sinto falta de tudo”.

As dificuldades de locomoção complicam o deslocamento e, consequente, a volta aos antigos hábitos. Atualmente, Ronan aguarda a chegada do carro adaptado para retornar a vida antiga e quem sabe, inaugurar novas práticas. “Eu tenho esperanças. Quero voltar a praticar exercícios, a fazer faculdade”.

(Diário do Pará)

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