Sem achar uma solução, o morador para, analisa o melhor caminho e resolve se arriscar pelo parapeito do canal da Vileta, no bairro do Marco. Passadas mais de doze horas desde o término da forte chuva que caiu sobre Belém na manhã da última quarta-feira, a espécie de ‘corrimão’ era o único caminho protegido da água no local, apesar de não ser o mais seguro. Ainda que o sol já brilhasse desde o início do dia de ontem, a trégua da chuva não foi suficiente para fazer com que a água empossada na travessa Vileta escorresse por completo. “O povo do Marco está abandonado”, constatava o autônomo Flávio Castro, que já por volta de 12h de ontem ainda precisou colocar os pés na água para sair de casa.
Acompanhado de um carro de mão, que também passava com dificuldade pela rua alagada, Flávio tentava socorrer um amigo que acumulava prejuízos causados pela chuva de quarta-feira de cinzas. “Eu tô indo ajudar um amigo que tá de mudança por causa da chuva. Ontem o quarto dele ficou cheio de água”.
Nos primeiros raios de sol do dia, a autônoma Ana Maria Alho também não pensou duas vezes antes de se decidir por mudar de casa. Moradora da rua Santos Dias, no conjunto Parque União, no bairro do Tapanã, ela começou a procurar uma casa para alugar ainda na quarta-feira, quando constatou que sua casa havia sido invadida pela água. “O que eu salvei foi um guarda-roupa. Colchão, cama, esses armários da cozinha, tudo foi jogado fora porque não tinha mais condições da gente usar”.
Responsável pela criação de quatro netos, Ana Maria foi obrigada a dormir na casa de uma amiga. Assim que o dia amanheceu e a água que chegou à altura da cintura de muitos moradores baixou é que ela pode avaliar o que conseguiria levar para a casa nova. “É difícil encontrar algo que não tenha estragado com a chuva. A água molhou tudo, chegou até o meio aqui do fogão”, lembrava, diante dos móveis ainda empilhados um por cima do outro. “Não fiquei aqui. Levantei o que deu pra levantar e fui atrás de casa para alugar. Estou alugando casa pra mim mesmo sem ter condições financeiras porque não dá pra ficar aqui com criança”.
A decisão tomada às pressas não foi à toa. Assim que conseguir juntar o dinheiro necessário, Ana Maria pretende voltar para a casa de madeira construída com tanto esforço. “Vou trabalhar para ver se levanto esse assoalho aqui”, comentou ao apontar que já havia levantado a casa em quase dois metros ao longo dos anos que já mora no local. “Já levantei essa casa três vezes, estou indo para a quarta”.
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