No bairro da Pratinha, em Belém, o prédio deteriorado impõe medo. Antigos pavilhões foram destruídos e transformados em moradias. Espremido em um labirinto de ocupações, o imóvel outrora imponente, tornou-se reduto de tráfico. Mesmo a polícia hesita em aventurar-se por ele, dizem moradores do bairro. Por lá não se anda impunemente. O medo reina.
Foi carregando outro tipo de temor que Iderlense Nazaré dos Santos, 75 anos, olhou pela primeira vez a fachada do Educandário Eunice Weaver. Tinha 12 anos incompletos. A mãe havia morrido e o pai, hanseniano, não teria mais condições de cuidar dela.
Iderlense não entendia bem o que ocorria. Sabia que o pai estava doente. Apenas isso. Na manhã em que foi levada e entregue às freiras que administravam o educandário, lembra apenas das muitas lágrimas que derramou e que décadas depois ainda derrama ao recordar o dia.
A menina entrou como mais uma interna e terminou trabalhando durante 33 anos, depois dos 18, com carteira assinada como funcionária do Educandário. “Fomos recebidas pela irmã Campos. Levou a gente para a capelinha, rezamos e depois fomos para o prédio Gurjão, que ficava atrás, para observação. Era uma quarentena.
Como iderlense, centenas de crianças filhas de hansenianos passaram grande parte da vida reclusas como em um orfanato. Eram apartadas do convívio social normal, muitas sofreram maus-tratos, abusos sexuais e, sem que soubessem o motivo, recebiam medicação forte para dormir. O resultado, na maioria das vezes, foram sequelas mentais e emocionais.
Era uma história repetida. Assim que dava à luz, a mãe perdia a criança, levada para o Educandário Eunice Weaver, próximo à Base Aérea de Belém, sem sequer ter dado uma gota de leite ao rebento. Em Igarapé-Açu, Ivonete Lemos, 39 anos, passou por isso. E as lembranças parecem extraídas de um roteiro de filme de terror. “Batiam na gente, não deixavam que a gente abraçasse os pais quando podiam nos visitar. Tudo o que eles traziam de presente pra nós era jogado fora, davam choque e nos faziam dormir com pílulas que as funcionárias diziam que eram bombons”, relatou Ivonete em 2010 para o DIÁRIO DO PARÁ.
Em Igarapé-Açu os moradores dizem reconhecer facilmente quem passou pelo educandário. Alguns possuem a cabeça um pouco achatada lateralmente, devido ao tempo que os bebês e crianças passavam dormindo à base de sedativos e pelo fato de que anos e anos consumindo os comprimidos, trouxeram sequelas mentais em quase todos eles. “São meio desvirados das ideias”, disse à época um morador ao DIÁRIO.
ASSISTÊNCIA
O Educandário nasceu da iniciativa de Eunice Sousa Gabi Weaver. A mãe era portadora de hanseníase e isso fez Eunice Weaver se preocupar desde cedo com a assistência a pessoas acometidas pela doença. Criou inicialmente a ‘Sociedade de Assistência aos Lázaros’, o embrião do que viriam a se tornar os educandários que levariam o nome dela.
O apoio veio em 1935, do presidente Getúlio Vargas. O chamado ‘Pai dos Pobres’, foi quem institucionalizou o tipo de atendimento que se tornaria comum aos hansenianos. Afastados da sociedade, escondidos como se estivessem em um campo de concentração. Historicamente Vargas foi um simpatizante de ideias nazistas.
Os dois principais locais para onde os hansenianos eram levados, eram a Colônia do Prata, em Igarapé-Açu, e a de Marituba. Vivia-se como num estado quase independente, com delegacias, prefeitos, até moeda própria. Com isso, os hansenianos acabavam formando famílias.
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