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Cientista religioso fala da sucessão de Bento 16

Eleito em abril de 2005 e após enfrentar polêmicas que envolveram embates com judeus e muçulmanos, o papa Bento 16 causou grande repercussão ao declarar que deixaria o papado no próximo dia 28 deste mês. Mais do que os motivos que possam ter levado a auto

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Eleito em abril de 2005 e após enfrentar polêmicas que envolveram embates com judeus e muçulmanos, o papa Bento 16 causou grande repercussão ao declarar que deixaria o papado no próximo dia 28 deste mês. Mais do que os motivos que possam ter levado a autoridade máxima da Igreja Católica a tomar tal decisão, os elementos que podem envolver a escolha de seu sucessor chamam a atenção.

Professor do curso de Ciência da Religião da Universidade do Estado do Pará, o cientista religioso Antônio Mangoni aponta para a necessidade de se encarar a Igreja também como uma instituição que possui divergências políticas. Centrado nos números que apontam a existência de mais de 50% de europeus dentre os cardeais responsáveis por eleger o novo papa e da predominância de 70% deles terem sido escolhidos pelo próprio Bento 16, o professor não descarta a possibilidade de que tais questões políticas influenciem a escolha do sucessor. Confira a entrevista cedida ao DIÁRIO:

P: A última vez que um papa renunciou foi em 1415. Foi realmente uma surpresa o anúncio de Bento 16?

R: Apesar de alguns dizerem, em entrevistas, que já era esperado, a avaliação que se tem é a de que foi realmente uma surpresa. Ninguém aguardava, apesar de João Paulo II já ter feito um documento que alertava para esta possibilidade e de Bento 16 já ter dito isso em um escrito também, mas não havia, em nenhum momento, a espera da renúncia. Pode ser que internamente no Vaticano houvesse essa expectativa, mas seria difícil prever algo assim.

P: Qual o peso dessa renúncia para a Igreja Católica?

R: O maior avanço da gestão do Bento 16 foi a renúncia dele. Ao renunciar, e no texto ele afirma que é em função da saúde, que não tem mais aquela força para governar a Igreja, isso mostra que o papa é um ser humano. Parece óbvio, mas não é. Se formos olhar a história da configuração da Igreja, o papa adquire características quase divinas, então, quando se olha para ele, se confunde a instituição com Deus e a própria pessoa. Bento 16 traz à tona uma questão interessante: primeiro, que ele é um ser humano, e segundo, que o papado é uma função, uma tarefa, um ministério uma função de governo, e não é algo sobrenatural, divino. Outro elemento que cai é toda aquela mística que havia de que o cargo é vitalício. O próprio Código de Direito Canônico prevê a renúncia do papa. Como toda função, ela exige a necessária clareza, exige a força de governo. É claro que alguns vão se refazer a João Paulo II, que morre extremamente doente, mas há um misticismo por trás dessa questão que deixa antever algumas questões. A partir da renúncia, fica claro que o papa e a instituição são distintos: o papa não é a Igreja e a Igreja não é o papa, e essa distinção é necessária até para o bem-estar de toda a Igreja. Creio que a renúncia dele é um grande avanço, ela reflete muito as condições da própria história e traz, também, consequências que, à primeira vista, são imprevisíveis. Giram nos meios de comunicação que os conservadores do Vaticano ficaram muito irritados com a renúncia porque, no fundo, toda eleição abre novas possibilidades e há uma questão de divergência de poderes, mesmo dentro da Igreja. Há conflito de poderes, há poderes diferentes, há diferentes visões de condução da Igreja e, é claro que há, nesse sentido, uma luta de poder interna na Igreja.

P: O papa aponta que ele não estaria mais em condições de arcar com as obrigações que o cargo exige, mas muitos falam também dessas divergências dentro da Igreja...

R: Não podemos esquecer que toda a gestão de Bento 16 foi muito conturbada. Ele teve problemas de relação com os judeus, teve problemas de relação com os muçulmanos... Há, dentro do Vaticano, uma Cúria que já vem, há muitos anos, distante de um moderno governo de qualquer instituição. Nós vamos ter posições de legalismo extremadas com a condenação de muitos teólogos dentro da Igreja Católica, e digo condenação porque pensam diferente, e não porque há heresias, a princípio, e um vazamento de informações. Ali, nós vamos ver que é uma luta de poder. Então, há internamente uma série de fatores que, junto com a questão da saúde, influenciaram. Eu diria, em uma interpretação muito pessoal, que o Bento 16 é teólogo, mais que administrador. O administrador tem que conviver com a diplomacia, tem que dar o jeitinho, coisa que era muito típica do João Paulo II, que conseguia governar a Igreja apesar das crises internas e aparecer como o grande protótipo da Igreja. Bento 16 nunca teve essa empatia. Entre produzir teologia e governar há uma distância muito grande, e essa forma de governar, diante dessas tensões, também enfraqueceu muito o papa.

>> Leia a entrevista completa no Diário do Pará

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