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Acima de tudo, era um ser político

Teimosia é palavra que mais se ouve quando a pergunta é sobre uma característica marcante do médico Almir José de Oliveira Gabriel. Ao longo da vida foram muitas as demonstrações de que não era fácil demovê-lo de uma ideia. Foi assim que, mesmo sem parec

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Teimosia é palavra que mais se ouve quando a pergunta é sobre uma característica marcante do médico Almir José de Oliveira Gabriel.

Ao longo da vida foram muitas as demonstrações de que não era fácil demovê-lo de uma ideia. Foi assim que, mesmo sem parecer ter qualquer chance, ele acabou vencendo a primeira eleição para governador em 1993, derrotando o ex-ministro Jarbas Passarinho. Fez um governo marcado por cortes de gastos com a máquina pública, grandes obras e enfrentou a constante acusação de que não investia em políticas sociais.

No segundo ano do governo, o massacre de 19 trabalhadores sem terra por policiais militares, na Curva do S, em Eldorado do Carajás, ameaçou encerrar precocemente sua carreira. Almir chegou a ser investigado como chefe da cadeia de comando que resultou na desastrada operação.

Dois anos depois, conseguiu reeleição e ficou mais quatro anos no governo. Em 2001, impôs seu então secretário Especial de Produção, Simão Jatene como o candidato a sucessão, provocando uma série de fissuras em sua base de apoio. Aliados até mesmo do próprio PSDB não acreditavam que Jatene tivesse chances de ser eleito, apontado apenas como um bom técnico “sem traquejo político”. Jatene foi eleito.

Ao encerrar o segundo mandato, Almir declarou que não queria se tornar uma “assombração política”. Anunciou a aposentadoria e garantiu que a partir dali passaria a se dedicar integralmente ao cultivo das orquídeas, uma de suas maiores paixões. À medida que o mandato de Jatene avançava, contudo, Almir Gabriel começou a dar sinais de que gostaria de ser ungindo candidato para um terceiro mandato. “Já estou de chuteiras, no aquecimento”, declarava a quem perguntava se tentaria ser o candidato.

Apostando na boa avaliação com que deixara o governo, embalado por obras como a Estação das Docas, que tiveram ampla aprovação da classe média de Belém, Almir apareceu, em 2006, como candidato favorito. A campanha, contudo, não foi o passeio que imaginava. Apontada como zebra e vítima de um acidente que a deixou em uma cadeira de rodas durante boa parte da campanha, Ana Júlia Carepa crescia nas pesquisas.

Nos programas de TV, Almir se mostrava abatido, demorava nas respostas. Até sua reconhecida habilidade para traduzir o Estado em números não era mais a mesma. Foi derrotado. Magoado recolheu-se. Ignorou as críticas que o acusavam de falta de educação e manteve a decisão de não comentar o resultado. Sequer cumprimentou a vencedora Ana Júlia Carepa.

Mais uma vez, anunciou a aposentadoria e dessa vez declarou também, seu exilo voluntário do Pará. Mudou-se para Bertioga, cidade pacata na baixada Santista. Lá, passou a curtir a família e as orquídeas. Contava com orgulho que chegara a ter quase mil mudas, algumas destruídas durante um assalto à casa, que o deixara traumatizado e acabou precipitando a volta ao Pará.

Além do trauma, o bichinho da política não o deixava. Em 2009, um ano antes das eleições ao governo, Almir voltou ao Pará. Em uma entrevista em Belém anunciou rompimento com o ex-pupilo Jatene a quem acusava de ter feito “corpo mole” durante a campanha anterior. Declarou que trabalharia pela candidatura do também tucano, o senador Mário Couto ao governo. Meses depois, Couto se aliou a Jatene e Almir não perdoou.

No dia 13 de dezembro de 2009, um domingo, à noite, em Bertioga, escreveu a emblemática carta em que anunciava de forma ruidosa a saída do PSDB, partido que ajudou a fundar. Fora do ninho tucano, Almir seguiu caminhos políticos surpreendentes durante a campanha. O primeiro foi a reaproximação com o PMDB, partido onde iniciou a vida pública. Reencontrou-se também com o hoje senador, Jader Barbalho, um dos principais aliados dos primeiros anos com quem estava rompido. Depois de quase duas décadas de desencontros, os dois se reuniram em um café da manhã no apartamento onde Almir passou alguns meses no Bairro de Batista Campos.

Só então oficializou a desfiliação do PSDB e mergulhou de cabeça na campanha ao governo do então deputado estadual, o peemedebista Domingos Juvenil. Apesar da idade já avançada e de alguns problemas de saúde, fez questão de viajar pelo Estado inteiro. Participava ativamente dos comícios e apareceu nos programas eleitorais.

Juvenil não passou ao segundo turno e o movimento seguinte de Almir foi ainda mais surpreendente. No meio do segundo turno, anunciou apoio à petista Ana Júlia Carepa, de quem era um crítico severo. Em um hotel da cidade, Almir foi recebido com festa e conquistou algo até então impensável: o aplaudo de petistas históricos e militantes. Seu objetivo maior era derrotar Jatene que acabou eleito.

Recebia poucos amigos, em geral políticos que ouviam longos conselhos sobre a administração pública. Almir mantinha sempre à mão caderno em que afirmava ter redigido mais de 100 projetos para o Estado e especialmente para a capital paraense, projetos que, esperava, fossem implantados pelos atuais e ex-aliados.

(Diário do Pará)

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