O ano era 1970. O governo militar entrava no período mais obscuro e violento. Os chamados ‘porões da ditadura’ começavam a engolir militantes contrários ao regime. Foi nesse ano que o casal João e Janete Capiberibe foi preso no interior do Pará. Grávida, Janete passou dois meses detida na enfermaria de um hospital da Aeronáutica.
João Capiberibe ficou incomunicável. Ninguém sabia onde estava. Era a senha para as sessões de tortura que viriam a seguir. Depois ficou por quase um ano no presídio de São José, em Belém. Ali foi pensada uma das fugas mais cinematográficas que a história política do Pará recente pode contar. Capiberibe fez greve de fome. A intenção era ser transferido para o hospital da Aeronáutica. Conseguiu.
É quando entra em cena o médico Almir Gabriel, amigo e simpatizante dos movimentos contra a ditadura militar. Para ajudar a fuga, o médico obteve licenças médicas para os soldados que deveriam vigiar o preso político. Uma pequena ‘troca de favores’. Mesmo emagrecido, Capiberibe fez a barba e vestiu o jaleco trazido por Gabriel. Saiu pela porta da frente do hospital, fugindo depois de barco para Santarém.
A história vai fazer parte de um livro autobiográfico que João Capiberibe pretende escrever. O político amapaense sempre fez questão de contar esse episódio. Almir Gabriel, nem tanto. Talvez considerasse o corajoso ato apenas arroubo de juventude.
Filho de Ignácio Cury Gabriel e Palmira de Oliveira Gabriel, Almir Gabriel parecia destinado a outro caminho que não o da política tradicional. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Pará, chegou a dirigir o hospital Barros Barreto e também a Divisão Nacional de Pneumologia Sanitária do Ministério da Saúde.
Mas os anos 70 não permitiam muitas opções. O próprio curso de Medicina da UFPA era famoso à época pelo intenso ativismo político. Se não se destacou como um grande líder estudantil, Almir também não ficou imune à efervescência política do período. Carregou essa veia nos cargos que começou a ocupar. Aos poucos começava a se destacar nesse cenário.
Tanto que foi alçado à condição de secretário de Saúde e depois secretário de Segurança no segundo governo Alacid Nunes (1979-1983). O segundo cargo causou estranheza, mas eram estratégias políticas no período em que nomes como Jarbas Passarinho e Alacid Nunes comandavam o estado à mão de ferro.
A virada dos anos 70 para a década de 80 havia sido decisiva para o destino político de Almir Gabriel. Foi quando se alinhou ao PMDB. Os ventos da abertura política já permitiam o confronto direto com velhos caciques. Em 1982, Alacid e Passarinho estremeceram laços políticos. Jader Barbalho seria então o principal nome de oposição. Com apoio de Almir Gabriel, Jader ganhou a eleição, derrotando Oziel Carneiro.
A eleição direta não se estendia a prefeitos. Jader nomeou Sahid Xerfan, substituído depois por Almir Gabriel. A partir daí, não haveria mais volta. Ser prefeito de Belém definiria os caminhos políticos de Almir Gabriel. Os dois mandatos de Almir Gabriel foram controversos.
De um lado, investimentos em obras de impacto como o Tramoeste, o novo Estádio Olímpico, a Macrodrenagem, a Alça Viária, o porto de Vila do Conde. Por outro, os arroubos quase sempre inúteis em relação às grandes mineradoras. Como governador, Almir Gabriel pouco avançou nesse sentido em favor do Estado. A nódoa do governo Almir Gabriel, no entanto, seria o Massacre de Eldorado dos Carajás - a desastrada e violenta ação policial que terminou com a morte de 19 trabalhadores ligados ao Movimento dos Sem-Terra (MST), a metade executada depois de rendida. Com repercussão internacional, o episódio perseguiu Almir Gabriel até o fim da vida.
Da mesa do governador teria partido a ordem de desobstruir a rodovia. O então secretário de Segurança Paulo Sette Câmara ordenou que, se preciso, era para se “usar a força necessária, inclusive atirar”. As balas disparadas contra os trabalhadores rurais mancharam de sangue a biografia de Almir Gabriel. Simbolicamente, o jovem médico que ajudara um militante de esquerda a escapar de ser morto pela ditadura estava à frente do Estado durante o maior massacre da história paraense contemporânea. Entre um momento e outro, idealismo e pragmatismo que as páginas da história ainda irão julgar.
(Diário do Pará)
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