Duas marcas são apontadas pelos que conviveram com Almir Gabriel como seu legado: austeridade e trabalho. O publicitário Orly Bezerra e o arquiteto Paulo Chaves conviveram de perto com o então governador, eleito em 1994 e reeleito em 1998. Algumas obras foram consideradas elitistas, mas se consolidaram como principais pontos de visitação na capital paraense.
“Doutor Almir deixou um legado de realizações para o Estado, seja como governador ou como médico”, definiu Bezerra, ressaltando que no primeiro mandato, metade da administração foi utilizada para arrumar as contas públicas, mas a partir do equilíbrio financeiro começaram as realizações que mudaram a cara do Pará.
Ele cita o Tramoeste, que finalmente levou energia elétrica desde o oeste do Pará até regiões mais próximas da capital. Na lista de obras, Orly aponta a parceria com o governo federal e a estruturação do aeroporto de Belém, a Alça Viária, conclusão do estádio olímpico, que deram impulso ao desenvolvimento do Estado. No aspecto de desenvolvimento turístico, o publicitário aponta a Estação das Docas, obra polêmica, que inicialmente foi chamada de estação das dondocas pelos adversários políticos, mas que ele enfatiza, que se consolidou como um dos principais pontos de turismo e de geração de renda da capital.
“Ele não fazia questão de ser simpático, muitas vezes era a imagem do antipolítico, não se importava com cabelos penteados, essas características valorizadas pelos marqueteiros, mas era extremamente sensível como administrador e além disso não tinha grandes ambições”, exemplifica o publicitário, que o acompanhou na trajetória política.
“Minha relação com meu querido amigo Almir Gabriel era de muito trabalho, de grande respeito, mas acima de tudo eu o considerava como um pai”, definiu o secretário estadual de Cultura do Pará, arquiteto responsável pelas obras turísticas dos governos do PSDB, Paulo Chaves.
A ex-governadora Ana Júlia Carepa (PT) também cita a personalidade forte e polêmica de Almir Gabriel como uma de suas marcas. Eles foram adversários políticos, inclusive Almir Gabriel perdeu a eleição de 2006 para a petista, mas em 2010 subiu ao seu palanque para dar apoio e surpreendeu os ex-aliados do PSDB, já que a disputa era contra o atual governador Simão Jatene, que ganhou a disputa. “Apesar das diferenças Almir Gabriel era um homem trabalhador e mesmo discordando de vários aspectos ele me apoiou em 2010, onde pude conviver mais de perto com ele e o defino como um homem preocupado com o Pará”, ressaltou.
“Foi um homem que, como meta, teve na sua história de vida a luta por causas boas. Independentemente de qualquer outra coisa, faço questão de registrar que estive com ele há cerca de um mês e o tom da nossa conversa voltou a ser as coisas boas do Pará e dos nossos desafios”, declarou o governador Simão Jatene, que decretou luto por seis dias no Estado. Jatene foi secretário de Produção do ex-governador e ungido por Almir ao poder na eleição de 2002.
Em nota, o presidente nacional do PSDB, deputado federal Sérgio Guerra, afirmou que o ex-governador teve papel fundamental no desenvolvimento da região, lutando por mais investimentos em infraestrutura e melhorando a qualidade de vida do povo paraense. “Seu caráter irretocável e espírito de liderança estão arraigados nos princípios do PSDB, partido que ajudou a fundar em 1988, com outras lideranças como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador Mário Covas”, de quem o paraense foi candidato a vice-presidente da República, na eleição de 1989.
O prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, disse que se sentia abalado com a morte de Gabriel. “Tivemos uma convivência muito próxima, produtiva e na qual eu absorvi muito conhecimento para a minha própria vida pública”, disse. Para ele, Gabriel era um homem íntegro, um grande paraense, um grande brasileiro, foi um prefeito e um governador que deixou muitas realizações e muitas obras.
A presidente do Tribunal de Justiça do Estado, desembargadora Luzia Nadja Nascimento, por meio também de nota, declarou que o Judiciário manifesta “imenso pesar pelo falecimento” do ex-governador. “Ao lamentar a morte de tão ilustre homem público, o Poder Judiciário deseja destacar a importância de Almir Gabriel para o desenvolvimento do Estado e ressalta a grandeza de seu nome na história do Pará”.
Políticos destacam trajetória e legado
A morte do ex-governador Almir Gabriel provocou discursos emocionados não somente de seus aliados, mas também da oposição ao governo do PSDB na Assembleia Legislativa. Os parlamentares apresentaram votos de pesar aos familiares do ex-governador paraense.
Membros da bancada do PT na AL lembraram que, antes de serem oposição aos dois governos de Almir Gabriel, o partido foi seu aliado e chegaram a concorrer juntos ao governo do Estado, logo após a fundação do PSDB, período da redemocratização do País. “Ele foi a maior liderança política dos últimos tempos do Pará”, definiu o deputado Carlos Bordalo. Ele chegou a dizer também que o PT reverencia a memória de Almir Gabriel pelo que ele representa para a política e para a medicina do Estado do Pará. “Ele foi muitas vezes contraditório, teimoso, personalista, mas é inegável que introduziu conceitos novos na política de administração do Estado do Pará, que trouxeram equilíbrio nas contas públicas”, ressaltou Bordalo.
O líder do PMDB, Parsifal Pontes, também lembrou que Almir Gabriel começou sua trajetória política no seu partido. Apesar das divergências posteriores, enfatiza Pontes, ele deixou um grande legado na história política e administrativa do Pará. “Almir Gabriel era um político de palavra, austero e até turrão, mas um administrador de grandes realizações. Tinha defeitos, mas também muitas qualidades e acho que as qualidades dele é que prevaleceram como marca de suas administrações”, acentuou o líder peemedebista.
O líder do PSDB na AL, deputado José Megale, ressaltou a importância de Almir Gabriel não só para o Estado onde nasceu, mas para o Brasil. Ele lembrou que, como senador, Gabriel fora responsável pelo capítulo da Ordem Social na constituinte de 1988, que elaborou a constituição federal pós período de ditadura militar no País. Esta ação política, acentua Megale, deixou marcas importantes na consolidação da democracia brasileira. Inclusive, Almir Gabriel foi um dos idealizadores do Sistema Único de Saúde (SUS). “Ele adotou um novo padrão de administração política neste Estado e seu legado ficará presente para sempre na história do Pará”, enfatiza o líder tucano na AL.
CÂMARA
Em homenagem ao ex-governador Almir Gabriel, que morreu na manhã de ontem, a sessão da Câmara Municipal de Belém (CMB) foi suspensa e foram decretados três dias de luto oficial. As atividades do plenário devem ser retomadas na próxima segunda- feira (25). “Ele não passou pela história. Está na história do Estado do Pará para sempre”, afirmou o presidente da Câmara, Paulo Queiroz. “É uma perda irreparável para o Estado do Pará e para Belém. Almir foi uma pessoa que promoveu inúmeros benefícios para o Estrado e realizou obras relevantes na capital, de potencial turístico”, frisou Nando Reis (PSD).
Para os novos ocupantes do plenário da CMB, Almir é exemplo e referência política. “Ele merece todas as homenagens da sociedade paraense. Na questão de infra-estrutura, foi um ícone do Pará”, afirmou Mauro Freitas, líder do governo, que revelou ser eleitor do ex- governador.
“Ele motivou muita gente que hoje está renovando a Câmara Municipal e que com certeza tem uma aceitação muito grande por ele, apesar das diferenças políticas e ideológicas”, considera Thiago Araújo (PPS).
“Uma morte é sempre lamentável, mas, ao mesmo tempo, não podemos esquecer a história política do ex-governador, um dos principais responsáveis por Eldorado dos Carajás e representa o coronelismo político, que perpetua a violência até hoje”, disse Fernando Carneiro (PSol).
Em Brasília, minuto de silêncio
O Congresso Nacional prestou ontem homenagens ao ex-governador do Pará, Almir Gabriel. No Senado, foi aprovado um requerimento de voto de pesar, em sessão no plenário. O requerimento, proposto pelo senador Flexa Ribeiro, foi assinado por todos os senadores do PSDB. “Em particular perdi um grande amigo no dia de hoje, a pessoa que me conduziu para a vida pública e sempre busquei seguir seu exemplo”, disse Flexa Ribeiro.
Para o senador Aécio Neves (MG), Almir Gabriel é um exemplo não só aos paraenses, mas também aos brasileiros. “Homens públicos como Almir Gabriel ajudaram a construir a democracia neste País. E a sua ausência hoje, certamente, deve ser sentida por todos aqueles que ainda acreditam que ética e política não são incompatíveis”, disse o senador mineiro.
O Senado Federal fez um minuto de silêncio em homenagem a Almir Gabriel. O presidente em exercício da sessão, senador Jorge Viana (PT-AC), também comentou o falecimento de Almir. “Certamente o sentimento desta Casa é de pesar pela perda do ilustre homem público que foi o nosso Almir Gabriel”, disse Viana.
Na Câmara dos Deputados, coube à Josué Bengtson abrir a sessão de homenagens ao ex-governador na Tribuna da Casa Legislativa. À Tribuna foi Miriquinho Batista (PT). “Posso afirmar que hoje o Pará, o Brasil e o mundo ficaram um tanto mais pobres com sua ausência”, registrou.
A deputada Elcione Barbalho (PMDB), soube da notícia do falecimento de Almir Gabriel quando estava participando de uma audiência pública da Comissão Externa criada para acompanhar as investigações do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), ocorrido em janeiro passado. “O Almir tinha o sangue do empreendedorismo em suas veias. Tinha anseio pelo desenvolvimento e a boa administração foi um marco em sua trajetória política. Meu carinho e solidariedade à família e que saibam exaltar o legado deixado por ele”, destacou a deputada.
(Diário do Pará)
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