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Pedreira do samba, do amor e da violência

Da janela de casa, o autônomo Neres Lima já perdeu as contas de quantos assaltos e roubos já ouviu. Sem que as ocorrências lhe despertem a curiosidade de olhar através da abertura na parede da sala, ele, sem que procure, apenas toma conhecimento de mais u

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Da janela de casa, o autônomo Neres Lima já perdeu as contas de quantos assaltos e roubos já ouviu. Sem que as ocorrências lhe despertem a curiosidade de olhar através da abertura na parede da sala, ele, sem que procure, apenas toma conhecimento de mais um crime realizado no local. Morador da avenida Visconde de Inhaúma, no bairro da Pedreira, há pelo menos 13 anos, nem o barulho de tiro o surpreende mais. “Ontem [domingo] balearam dois aqui. Foi tiro pra todo lado”. A naturalidade espanta.

Com a vivência já adquirida ao longo do tempo em que já está instalado no local, o autônomo inclui o perímetro onde mora dentre os mais perigosos da área, justamente no local onde um policial trocou tiros com dois homens que tentaram assaltar sua casa na tarde de último domingo. “Da [travessa] Mauriti até a [travessa] Lomas é a parte mais perigosa. Os tiros de ontem [domingo] foram aqui na Angustura. Vieram assaltar a casa que era de um policial e o policial atirou neles”, recorda. “Só vi polícia, helicóptero, ambulância. Moro há treze anos aqui e já estou até acostumado com isso. Eu já nem me surpreendo mais. Eu só não saio de casa pra olhar, mas sempre tem”.

É também na chegada em casa que, por vezes, Neres acaba presenciando ocorrências que vão além dos constantes assaltos. Vizinho do poste que abriga uma câmera de segurança do Centro Integrado de Operações (CIOP), ele chega a desconfiar da eficácia do equipamento. “Aqui fica muita gente usando droga, maconha. Eles ficam todos aí nesse canteiro e fumam à vontade”, afirmou, sem saber que, minutos depois, a equipe do DIÁRIO presenciaria o consumo de maconha no local, por volta de 9h50. “Essa câmera é só para enfeite. Não acredito nem que isso esteja ligado”.

Passadas menos de 12 horas do assalto que terminou no baleamento e prisão dos dois assaltantes, porém, o consumo de drogas no local era o que menos chamava a atenção dos moradores ainda no início da manhã de ontem. Sem que os usuários fossem incomodados ou se preocupassem em disfarçar o consumo, o principal comentário na avenida era a ocorrência do dia anterior.

“Vira e mexe tem assalto aqui. A gente sempre ouve falar. O de ontem [domingo] foi na frente de casa”, lembrava ainda temerosa a faxineira Roberta Souza. “Eu fico muito preocupada, mas isso já é até comum. Estava tendo uma comemoração na casa da frente e eu ouvi os tiros. Eu só fechei tudo, peguei meu filho [de sete meses] e me escondi lá pra dentro”.

Moradores jogam com a sorte

Entre as conversas de outros moradores, os comentários também giravam em torno de um assalto ocorrido no domingo, porém, desta vez, um ocorrido em outra parte da avenida, já passando a travessa Barão do Triunfo. “Ainda ontem teve assalto na [travessa] Mariz e Barros. É constante. Aqui não tem hora, a gente joga com a sorte. É complicado sair de casa o dia inteiro”, adiantou o químico Paulo Melo.

“Foi um grupo que veio assaltar à pé e queriam roubar uma moto. Uns foram baleados”.

Na companhia do primogênito e com o segundo filho ainda no ventre, a dona de casa Rayllane da Silva também tinha a sua versão do mesmo assalto. “Ixi, é muito assalto! Não tem um dia que a gente não fique sabendo de um. Quando dá umas 19h já fica ruim sair de casa. Às vezes as crianças nem podem brincar mais na porta de casa”, afirmou. “O último [assalto] foi aquele lá na [travessa] Mariz e Barros”.

Sem que a necessidade de permanecer em casa pela maior parte do tempo se restrinja apenas à rotina de Rayllane, não é difícil identificar a preocupação dos moradores em se proteger. Na frente da grande maioria das casas, as grades e cercas elétricas são apenas um demonstrativo da incidência da violência no local. “Eu vivo pra lá, dentro de casa. Tenho medo, não gosto muito de ficar aqui na frente não”, aponta a aposentada Maria das Dores da Silva.

“Não dá pra ficar muito tempo aqui pela frente. A polícia até vem, mas esse pessoal é atrevido mesmo. Não dá pra brincar com eles não”.

NOTA DA PM

De acordo com a assessoria de comunicação da Polícia Militar do Pará (PM/PA), que respondeu às perguntas por e-mail, a área da avenida Visconde de Inhaúma “possui registros policiais frequentemente, porém é feito policiamento no local com viaturas, motos e mais trailer”. Segundo a polícia, além das demais estruturas, a cobertura da área do bairro da Pedreira é feita com três viaturas em caráter permanente, ou seja, 24 horas por dia. “Todas as regiões do bairro da Pedreira são constantemente monitoradas e policiadas”, informou a nota.

(Diário do Pará)

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