A dupla jornada de trabalho tem sido parte da rotina de alguns paraenses. Há pessoas que se dividem em mais de um trabalho para aumentar a renda mensal. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 3,76% de trabalhadores do Pará já fazem parte desta realidade.
Andrey da Silva e Silva, 34, possui uma loja de tintas. É sócio do irmão no negócio, mas nos estádios de futebol é conhecido como um dos mais promissores árbitros do Estado. Há 13 anos, Andrey é árbitro e desde o ano passado faz parte do quadro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). “Sempre gostei de futebol. Desde pequeno, meu pai me levava aos jogos. Fui influenciado por ele a fazer o curso para ser árbitro”, conta.
Quando não está fazendo atividades físicas nas terças, quartas e quintas-feiras para a arbitragem, Andrey se ocupa no comércio que possui há dois anos, pois, segundo ele, as duas profissões são rentáveis. “Logo quando decidi também ter um comércio, minha mulher e, principalmente, meu filho de 12 anos, cobravam a minha ausência, porque eu tinha que viajar sempre por conta da arbitragem”, conta.
Para Andrey, o lado bom de tudo isso é que agora ganha a visibilidade e o carinho de alguns que o reconhecem quando vão comprar tintas na loja dele. “O lado negativo é a exposição excessiva da minha imagem como árbitro. Tem pessoas que passam na rua perto de mim e sempre jogam umas piadinhas quando eu apito um jogo em que o time deles é derrotado”, explica o comerciante/árbitro.
Segundo o advogado especialista em Direito do Trabalho, Carlos Gondim, não existe nenhuma vedação na legislação que impeça o contrato de mais de um trabalho, desde que haja tempo para conciliar os empregos, caso contrário, a situação pode implicar em uma demissão por justa causa. “É preciso informar a segunda fonte de renda e o valor recolhido da primeira renda”, afirma Gondim.
Outro fator que o advogado também destaca é a impossibilidade de a prestação de serviços em empresas concorrentes, pois desta forma pode ocorrer a violação de conhecimento das organizações em que se trabalha. “Quando há cláusulas de exclusividade em um contrato, o trabalhador não pode prestar serviço para outro empregador, pois isto pode acarretar em uma rescisão de justa causa”.
O professor de biologia Leonardo da Paixão, 29, durante a semana se divide em cinco empregos distintos. Leciona em escola particular e pública, além da universidade. “Por meio destes empregos, posso ter um lucro maior e ainda consigo ter uma ampla visão das diferentes esferas educacionais”.
Alguma das dificuldades enfrentadas pelo professor é na dedicação exclusiva às instituições. Ele gostaria de ter mais contato com os alunos. “Às vezes, uma maior presença física do profissional é importante para realizar atividades extracurriculares com os estudantes”.
Além disso, o pré-projeto de doutorado de Leonardo está em desenvolvimento. Ele passa madrugadas estudando. De vez em quando, a família, a namorada e amigos ficam em segundo plano por causa da rotina cansativa. “Em alguns momentos, sinto cansaço mental e desejo estar com eles. Quando muitos estão na balada, estou em casa corrigindo provas”, brinca. Segundo o IBGE, 2.792.865 de pessoas no Pará têm apenas um trabalho, o que corresponde a 96.24%, contra 108.999 que posseem doios trabalhos. Em Belém, são 841.421 pessoas com um trabalho (95,28%), contra 41.656 (4,72%) com dois ou mais trabalhos.
(Diário do Pará)
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