“Quando os jesuítas chegaram ao Pará, o governador os entregou uma fazenda localizada em Barcarena. Ela recebeu o nome de Fazenda Gibirie, que mudou para Missão Jesuítica Gibirie e, mais tarde, tornou-se Paróquia de São João Batista”, conta o pároco da igreja, padre Mariano Martinez. Ele relata a história de uma capela de taipa, construída em 1654, um ano após a chegada dos jesuítas à terra dos índios da tribo Mortigura, itinerantes da Ilha do Marajó.
Hoje, situada às margens do Rio Pará, a igreja, que foi transferida no século XVIII para a parte mais alta de Vila do Conde, corre risco de desabar. Há controvérsias quanto à data de construção da igreja que leva o nome do santo que batizou Jesus, mas sabe-se que ela é uma das mais antigas do Estado. Carrega histórias que relatam a identidade dos moradores, da Igreja Católica e da política. “O primeiro núcleo de evangelização dos jesuítas foi aqui, em toda a Amazônia”, narra o padre.
A arquitetura com informações do estilo jesuítico mais sóbrio e discreto, com frontão triangular, três vãos superiores em arco pleno e um vão inferior para entrada, demonstra a ação do tempo e do descaso. O lugar, que “relata ter o processo de colonização e a própria ação dos missionários”, como explica a técnica do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan), Paula Rodrigues, clama por socorro. A intervenção da população, na tentativa de revitalizar as peças, a presença de insetos e a falta de recursos comprometeram a estrutura do prédio e impedem a realização regular de missas, por risco de desabamento. Por mês, três missas são celebradas.
Dez imagens sacras em madeira policromada precisam ser restauradas. Cobertas por pano roxo, em alusão à Quaresma, elas não puderam ser vistas pela população, empresários, autoridades e técnicos do Iphan que visitaram a Igreja de São João Batista na manhã de ontem, para participar de audiência pública pedida pelo promotor Antônio Lopes Maurício, que propôs o restauro da igreja por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, a chamada Lei Rouanet.
Por ser um local de grande atuação industrial, o promotor considera que as empresas que atuam na região podem colaborar com a obra. “O apoio pode ser abatido no Imposto de Renda. Ao invés de enviar o dinheiro para Brasília, que a gente nem sabe o que vai ser feito, as empresas podem fazer algo pelo município”, afirmou Lopes. A superintendente do Iphan, Maria Dorotéa, lembrou os impactos decorrentes da implantação das empresas no município e ressaltou que em 2006 o instituto compôs um projeto de revitalização da igreja, que nunca saiu do papel por falta de recursos.
O projeto previa gastos superiores a R$ 1 milhão. Hoje, o texto precisa ser revisto e outras necessidades que surgiram em virtude do descaso precisam ser adicionadas, o que certamente deve aumentar o valor da obra. A Associação das Empresas de Mineração e Metalurgia de Barcarena (Assemb) – composta por Albras, Alunorte, Alubar e Imerys – afirmou que vai ajudar de acordo com as limitações de cada empresa. “Dentro das condições atuais das empresas, vamos trabalhar na captação de recursos, agilização do processo e mão de obra”, garantiu o presidente Marco Antônio Pinto, ao lembrar que nem todas as fábricas poderão fazer uso da Lei Rouanet. “Algumas já têm outros incentivos”, afirmou.
O prefeito de Barcarena, Antônio Carlos Vilaça, disse que o problema já está resolvido e que a igreja localizada à beira de um barranco será revitalizada. “Se todos os outros não quiserem, o governo municipal vai fazer sozinho”, garantiu. Para o estudante de engenharia mecânica Shueidy Braga, 24, a igreja representa a memória do povo. “Aqui foram dados os primeiros passos da nossa religião”. Ao local, também são atribuídos valores. “A questão da cidadania, da ética e da moral, devo muito a esta igreja”, contou o rapaz, que foi batizado, fez primeira comunhão e crisma na Igreja de São João Batista.
Registro material da identidade local, o lugar traz na memória momentos de toda uma vida. “Eu, há muitos anos, desde 1965, conheço esta igreja e para nós será uma grande alegria se for chegada a hora da restauração”, diz a aposentada Maria de Lurdes, 77. A igreja ainda não é tombada pelo Iphan, mas já foi aberto processo de tombamento. O pároco da igreja, padre Mariano Martinez, espera que desta vez o projeto seja executado e que as palavras ganhem força de trabalho. “Procuramos ajuda em todos os lugares, muitas vezes, mas só encontramos promessas”, recorda.
(Diário do Pará)
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