Quem precisou do transporte público ontem em alguns bairros de Ananindeua e Marituba, Região Metropolitana de Belém, enfrentou muita dificuldade. Foi preciso ter paciência e saber esperar algumas horas. “Pego às cinco horas no trabalho, agora com essa demora, vou chegar tarde. Tá certo que eles devem ir atrás dos direitos, mas eu que devo ficar prejudicado?”, reclamou o metalúrgico Sandro Costa.
O atraso na saída dos coletivos que atendem pelo menos cinco bairros nos dois municípios que gerou desconforto e insatisfação dos usuários, foi a forma que os rodoviários encontraram de chamar a atenção para uma série de problemas trabalhistas que a categoria estaria enfrentando. A manifestação durou quase o dia inteiro. Desde a madrugada, por volta das 3h30 deveria sair a primeira frota, mas a empresa responsável foi impedida devido às péssimas condições de trabalho.
Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários de Ananindeua e Marituba (Sintram), Márcio Amaral, vários pontos de final de linha dos coletivos foram fiscalizados. Neles foi constatado que os graves problemas ainda persistem. “Tem funcionário que começa a jornada de trabalho às 3h e só larga às 23h. Isso é um absurdo. A carga horária que deveria ser de sete horas, tanto para o motorista como para o cobrador, acaba se tornando uma dupla jornada, até tripla, para alguns. É praticamente uma semi-escravidão em plena área metropolitana”, disse.
De acordo com Márcio, a empresa Auto Viária Paraense atende cinco bairros – Almir Gabriel, Marituba Pirelli, Marituba Mário Couto, Iguatemi e Ver-o-Peso - de dois municípios com população considerada grande demais para uma frota atual de aproximadamente 200 rodoviários. “Deveríamos ter pelo menos o dobro, cerca de 400 para que pudesse atender a demanda. E pela falta de funcionários, a empresa acaba forçando a virada de serviço. Além disso, eles não recebem as horas extras, mesmo sendo essa jornada maior que o legal. No último mês, passaram a demitir cerca de 30 funcionários. Existe um certo abuso. Não dá para admitir essas coisas”, denuncia Amaral. “Flagramos hoje, guias falsificadas e motoristas que trabalham de manhã, indo à tarde e até mesmo à noite”, acrescenta.
HIGIENE
O representante sindical dos rodoviários disse também, que não há condições higiênicas nos pontos de final de linhas para os funcionários. “Não há saneamento nem água própria para o consumo.
Diante das péssimas condições apontadas por Márcio, dezenas de rodoviários se reuniram ontem e foram em cada posto dos ônibus daquela empresa, no intuito de impedir o funcionamento irregular, ou seja, não permitir que o trabalhador cumprisse a dupla jornada.
Ainda segundo ele, os problemas se arrastam desde o início da empresa, há pelo menos seis anos. O sindicato já teria denunciado ao Ministério Público do Estado e à Superintendência Regional do Trabalho durante os últimos três anos, mas os problemas não foram resolvidos.
Para que a manifestação dos rodoviários fosse pacífica e evitar qualquer tipo de violência, a Polícia Militar em Marituba foi acionada pela empresa e, desde às 4h30, várias equipes de policiais acompanharam o trajeto dos manifestantes. “O policiamento precisou ser reforçado para evitar confronto. Tivemos que ter paciência e manter o diálogo. Mesmo que estejam defendendo seus interesses em méritos trabalhistas, quando isso passa a interferir o direito de ir e vir, devemos estar atentos, pois nosso trabalho é intervir”, ressaltou o sargento Lucas.
A equipe de reportagem procurou algum representante da empresa denunciada, mas nem os fiscais e nenhum outro funcionário da empresa foram encontrados. “Queremos que a empresa contrate mais funcionários para que não haja dupla jornada, paguem as horas extras, suspendam as demissões e dê as mínimas condições de trabalho para os rodoviários”, diz.
(Diário do Pará)
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