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Trânsito é teste de paciência diário

Dez para as sete da manhã. O casal de administradores Anna Júlia Monteiro, 32 anos, e Eduardo Machado, 41, fecham a porta de sua casa, entram no carro e se preparam para sair da segurança de seu condomínio fechado em direção a uma prova de nervos. Próximo

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Dez para as sete da manhã. O casal de administradores Anna Júlia Monteiro, 32 anos, e Eduardo Machado, 41, fecham a porta de sua casa, entram no carro e se preparam para sair da segurança de seu condomínio fechado em direção a uma prova de nervos. Próximo dali, João Paulo Macambira, 46 anos, técnico eletricista, enfrenta pacientemente a fila dos primeiros passageiros a embarcarem nos ônibus que fazem a linha Cidade Nova 8 – Presidente Vargas.

Os três acordaram por volta das seis da manhã e, agora, partem da Cidade Nova, Ananindeua, com destino ao centro de Belém. Se somarmos o tempo de percurso gasto pelos viajantes até seus respectivos trabalhos, temos mais de duas horas desperdiçadas entre buzinas, congestionamentos, estresses e aperreios. Fora o percurso de volta para casa.

Um estudo publicado no último mês pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com a Universidade de Oxford, revela algo que, já algum tempo, está claro para milhares de habitantes da Grande Belém. O trânsito está muito mais complicado e, além de cobrar paciência, rouba um tempo precioso. Segundo o Ipea, o tempo de deslocamentos em regiões metropolitanas aumentou 4% para a população mais carente e 15% para os mais estáveis financeiramente. A diferença entre o tempo de deslocamento de classes sociais apostas caiu de nove para seis minutos, ou de 33% para 20%, segundo o estudo.

O projeto analisou um conjunto de 20 cidades estrangeiras, 10 brasileiras e mostrou variações de 1992 a 2009. São Paulo e Rio de Janeiro ocuparam os primeiros lugares no ranking, ficando atrás apenas da chinesa Xangai. A Região Metropolitana de Belém apresentou a maior variação entre as capitais brasileiras estudadas. Para os belenenses, o tempo médio até o trabalho aumentou cerca de sete minutos. Números referentes a anos antes do início das obras do Bus Rapid Transit (BRT).

QUALIDADE DE VIDA

Anna Júlia e Eduardo gastam 50 minutos para percorrer um trecho de cerca de 17 quilômetros de sua casa até a distribuidora de cosméticos que eles mantêm, no bairro do Umarizal. Eduardo dirige. Cabe à Anna Júlia distrair e sossegar o marido que, mesmo recorrendo a rotas alternativas, não consegue fugir de congestionamentos. “Eu tenho hipertensão. Nem posso me estressar tanto, mas, às vezes, não tem como. Solto uns e outros palavrões pra poder seguir em frente”, confessa o motorista. “Eu que acalmo ele. O problema é que, tem vezes, que nem eu me seguro e acabo me estressando também”, diz Anna Júlia.

O estresse, além de desperdício de combustível, excesso de poluição e perda da qualidade de vida, são os principais malefícios do trânsito, na opinião do administrador. “O poder público não oferece opções de transporte público eficientes e confortáveis. Se eu tivesse confiança de que eu posso sair da minha casa, não me atrasar e voltar sem ser assaltado, eu seria o primeiro a só usar o carro só final de semana”, argumenta. Para Anna Júlia, o tempo desperdiçado no trânsito, no final das contas, faz diferença. “Se eu não ficasse tanto tempo dentro do carro, poderia curtir mais meus filhos ou adiantar as coisas no trabalho”, observa.

O técnico eletricista João Paulo Macambira sabe bem o que faria com as quase doze horas semanais que passa dentro do ônibus para ir e vir do trabalho. “No meu emprego, não preciso me preocupar muito com atraso porque tenho banco de horas. Mas, como faço serviços por fora, poderia complementar mais a minha renda no final do mês”, conta. Da Cidade Nova até a Praça da República, onde Paulo trabalha, a viagem dura uma hora e vinte minutos com trânsito bom. O engarrafamento já começa na frente do Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência, na BR-316. Apenas atravessando a Avenida Almirante Barroso o técnico perde meia hora.

Na volta, Paulo evita trafegar pela Almirante Barroso utilizando ônibus que fazem rota pela Pedro Alvares Cabral. “A Almirante, seis, sete horas da noite, é um inferno. Não anda nada. E o pior é que, na maioria das vezes, eu já pego o ônibus lotado e vou em pé”, comenta. Na ida preguiçosa para otrabalho, o ônibus de Paulo esvazia e seca algumas vezes. Como muitos passageiros, o técnico procura ouvir música e ler para tentar tornar o tempo um pouco mais produtivo. Tranquilo, ele tenta relevar o mar de carros e ônibus que se estende até perder de vista. “Se eu tivesse condições, até comprava um carro pra mim. O estresse é maior, mas é mais rápido. Como a gente não tem escolha, vou me estressar por quê?”, comenta rindo.

500 mil carros rodam na capital

Na Grande Belém, o tempo médio que os habitantes demoram para ir de casa até o trabalhou subiu de 24 para 32 minutos, segundo o estudo do Ipea. A variação entre os que levam mais de uma hora para realizar o deslocamento também aumentou, de 3% para 9%. O estudo do Instituo de Pesquisas Econômicas Aplicadas foi feito com base em microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Vale salientar que a frota de veículos quase dobrou nas grandes cidades em dez anos, segundo números do Observatório das Metrópoles, que aponta incremento de 77% no número de carro, motos e caminhões entre 2001 e 2011. De acordo com dados do Detran-PA (Departamento de Trânsito do Pará), referentes a 2011, a taxa de motorização, relação entre a população e a frota de veículos, em Belém é de 22.3 carros para cada 100 habitantes. A taxa nacional é de oito para cada 100 habitantes.

Carlos Valente, coordenador de planejamento do Detran-PA, afirma que a frota de veículos da Região Metropolitana de Belém (RMB) cresce a taxas de 13% a 15% ao ano. Segundo números do Detran, a RMB possui 465.971 veículos nas ruas, 95% deles são particulares. “Isso significa que são carros que, diariamente, estão sendo usados no dia a dia para atender a rotina das pessoas. Quando você tem acúmulo de veículos sobrecarregando vias, é claro que isso causa redução de velocidade”, explica Valente.

De acordo com o coordenador de planejamento do Detran, o aumento do número de sinais em cruzamentos e a falta de rotas alternativas para atender à crescente demanda também contribuíram para intensificar os congestionamentos. “Com o crescimento da classe C, a consolidação da classe B, quatro anos seguidos de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) reduzido e um transporte público que não atende às expectativas da população, você cria todos os incentivos para que mais gente compre veículos particulares. O resultado é que, em todas as horas do dia, você encontra pontos de congestionamento onde antes não tinha”, observa.

Segundo Valente, o projeto Ação Metrópole do Governo do Estado, integrado ao BRT municipal, pode ser uma solução para o caos diário enfrentado por milhares de paraenses. “Quando você prolonga a João Paulo II, cria a Rodovia Independência e oferece um transporte público de qualidade à população, você automaticamente cria três opções de escoamento para o trânsito que, por enquanto, só passa pela BR. O BRT promete possibilitar um deslocamento sem atrasos, com conforto e segurança. Isso vai estimular as pessoas a deixarem o carro na garagem e ocupar menos espaços nas vias”, completa.

(Diário do Pará)

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