plus
plus

Edição do dia

Leia a edição completa grátis
Edição do Dia
Previsão do Tempo 28°
cotação atual R$


home
NOTÍCIAS PARÁ

Vida nas ilhas é lição para usar a água

Vistas do continente, elas parecem uma massa verde uniforme isolada pelas águas barrentas que cercam a capital paraense. De longe, quase não é possível avistar vestígios de ocupação, mas as pessoas estão lá. E são muitas. Segundo o Sindicato dos Trabalhad

twitter Google News

Vistas do continente, elas parecem uma massa verde uniforme isolada pelas águas barrentas que cercam a capital paraense. De longe, quase não é possível avistar vestígios de ocupação, mas as pessoas estão lá. E são muitas. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Belém, nas regiões insulares Norte e Sul da capital, 17 ilhas reúnem cerca de 1880 famílias. Belenenses alheios à falta de espaço, à correria, ao barulho de construções, buzinas e ao estresse diário da cidade grande.

Em vez de carros, barcos. No lugar de calçadas, trapiches. Muitos, por opção ou falta dela, não compram comida. Pescam ou cultivam. Na semana em que se comemora o Dia Mundial da Água, o DIÁRIO foi até a outra margem para visitar uma Belém que não é metrópole, mas é claramente da Amazônia.

A cidade nasceu em 1616, por causa da ocupação de colonizadores que avançaram a partir da foz do Rio Amazonas. Ribeirinha, a capital paraense surgiu à beira da baía do Guajará, onde hoje fica o Complexo Turístico Feliz Lusitânia. Ao longo dos séculos, o vilarejo cresceu em direção ao continente, deixando de lado a riqueza natural de suas 14 bacias hidrográficas.

No entanto, ainda vivem em Belém pessoas como dona Ana América Cardoso, 57, que têm o curso das águas guiando o curso de sua vida. “Pesco há tanto tempo que nem me lembro”, conta a senhora em meio a um sorriso que denuncia falta de prevenção e saúde dental, mas muito sincero em sua simplicidade.

Para se chegar à casa de dona Ana, a partir do continente, só contornando o rio Guamá até chegar ao lado invisível da ilha do Combu, na parte sul de Belém. “A gente pesca de acordo com a maré. Quando a pesca é grande, ainda dá para vender na cidade. Quando é pequena, aí a gente come aqui mesmo”, conta a moradora.

Como quase todas as casas ribeirinhas, a da família da pescadora é de madeira, cercada de árvores frutíferas, construída metros acima do rio. Engenharia pensada por quem conhece as águas e sabe que, em épocas de chuva e maré alta, praticamente toda a ilha fica inundada.

Da água brotam pescadas, douradas, manjubas e até filhotes, garante a pescadora. “Eu gosto muito do meu trabalho, sim, é sossegado. Ninguém me aperreia”, comenta. O silêncio da vizinhança é cortado apenas pelo som da televisão, do rádio, da chuva ou do motor de algum barco que cruza devagar o rio-rua. “Não me acostumo com Belém, não. Gosto do meu canto”, resume a ribeirinha. No contorno da ilha, vista do rio, a Belém a que dona Ana se refere ergue-se na forma de incontáveis edifícios no horizonte.

ÁGUA É CAMINHO

É nas águas entre a cidade e as ilhas que Elido Trindade, 33, passa a maior parte de seu dia. Morador de Boa Vista do Acará, localidade que recebe o nome do município que fica no sudoeste de Belém, o barqueiro faz pelo menos três viagens indo e vindo diariamente. “O único cuidado que a gente tem que ter é com os piratas. Mas nem se compara a violência da cidade com a do rio, lá é pior”, avalia o barqueiro.

Só no barco de Elido, são cerca de 90 passageiros que utilizam o transporte fluvial durante a semana. “Eu nasci e me criei dentro d’água, então, para mim, trabalhar com isso é muito bom”, comenta. O barqueiro garante que não trocaria a tranquilidade dos rios pelo volante de nenhum ônibus. “Aqui não tem trânsito, não tem engarrafamento nem ninguém buzinando atrás de ti pra tu sair da frente”, observa.

Elido conta que navega desde que era adolescente e que nunca sofreu nenhum imprevisto. “Eu já peguei algumas chuvas fortes no meio da baía, mas a gente navega com segurança, seguindo a maré. Quando dá cheia, a água pode subir para mais de três metros”, diz.

O barqueiro guia com atenção, cumprimentando vizinhos e indicando locações. “Olha, a Ilha dos Papagaios é a única que tá certa porque a Ilha das Onças não tem onça e a Ilha do Maracujá tem tudo, menos maracujá”, comenta, rindo, enquanto alinha a proa do barco em direção a mais um furo de rio.

Crianças ribeirinhas têm vida nas águas

Como Elido, Gabriel Pinheiro Silva, 10, estudante da quarta série, também tem o rio em sua rotina. Ele estuda na Unidade Pedagógica Nossa Senhora dos Navegantes, em uma ilha conhecida como Várzea, no furo do Rio Aurá. São, pelo menos, 40 minutos diários que Gabriel passa dentro do barco, cedido pela prefeitura, para ir e vir da escola.

Como ele, pelo menos 550 alunos ribeirinhos da rede municipal de ensino, em vez de ônibus escolar, dispõem de um “barco escolar”.

No lugar de engarrafamentos matinais, o caminho é desimpedido pela maré e a única parada obrigatória é no próximo trapiche, ponto de embarque de mais um pequeno passageiro.

A tecnologia embutida em videogames, computadores, celulares e tablets, que cada vez mais cedo fazem parte da infância de milhões de crianças mundo à fora, ainda é uma realidade distante do mundo de Gabriel e seus amigos. Longe da paranoia causada pela violência da cidade grande, Gabriel brinca ao ar livre, sem precisar ser protegido por muros, tomando banho no rio ou subindo em árvores. “Eu brinco de pira-pega, pira-cola, pira-se-esconde e Beyblade”, conta o menino, sem deixar de citar a influência de um dos desenhos animados que assiste pela televisão.

A TV, aliás, é uma das únicas pontes entre a ilha e o continente. A distância do centro urbano, agravada pelo isolamento natural, além de afastar as políticas públicas que beneficiam quem mora na cidade, trouxe para perto a sujeira de seus habitantes, literalmente. O rio Aurá está gravemente poluído por causa da proximidade com o lixão, que recebeu seu nome e deverá ser desativado nos próximos anos. “Tem horas que o rio fede muito. A água não presta, não, mas é a que a gente tem”, fala Gabriel.

“Não é só para tomar banho. As pessoas usam a água do rio para cozinhar, escovar os dentes, lavar roupa... Algumas até mesmo para beber. A gente tenta conscientizar os pais através dos alunos, mas, infelizmente, a situação é muito difícil. As refeições que os alunos fazem na escola, para alguns, são as únicas do dia”, conta a professora Thammia Moraes.

É assim, em meio ao contraste entre a riqueza natural e a desigualdade social, que muitos belenenses resistem à beira de uma metrópole que ainda aprende a ter civilidade de metrópole.

Para os pais, boa parte sem instrução, a preocupação é garantir que os filhos estudem para que tenham menos dificuldades no futuro. Mas, se depender de crianças como Gabriel, a educação que recebe a nova geração de ribeirinhos formará adultos que não se esquecerão das águas por onde navegaram. Por quê? “Porque lá é melhor!”, responde o menino.

(Diário do Pará)

VEM SEGUIR OS CANAIS DO DOL!

Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.

Quer receber mais notícias como essa?

Cadastre seu email e comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Conteúdo Relacionado

0 Comentário(s)

plus

    Mais em Notícias Pará

    Leia mais notícias de Notícias Pará. Clique aqui!