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Mulheres no campo esperam por avanços

Hilde tem dois anos e, embora ainda não saiba os motivos, foi uma das mulheres em caminhada pelas ruas de Belém no último dia 8 de março, ponto culminante da programação do II Encontro das Mulheres do Campo e da Cidade, organizado pelas ‘mulheres sem-terr

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Hilde tem dois anos e, embora ainda não saiba os motivos, foi uma das mulheres em caminhada pelas ruas de Belém no último dia 8 de março, ponto culminante da programação do II Encontro das Mulheres do Campo e da Cidade, organizado pelas ‘mulheres sem-terra’, vinculadas ao MST. Hilde significa mulher guerreira e voluntariosa, qualidades que a mãe Viviane Brígida almeja que ela tenha no futuro. E olhar adiante é algo que as mulheres do campo querem fazer com mais certezas que indefinições. Para isso, ocupam cada vez mais cargos de liderança entre associações, sindicatos, assentamentos e cooperativas agrícolas.

PANORAMA

É o que mostra, por exemplo, uma pesquisa feita pelo projeto ‘Mulheres no Campo’, finalizada em janeiro. É um projeto financiado pela União Europeia e Pão Para o Mundo, para a Associaçao Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC). A pesquisa foi realizada pela APACC na região do Baixo Tocantins e Movimento de Mulheres do Nordeste Paraense (MMNEPA).

Os municípios alcançados pela pesquisa foram Aurora do Pará, Bragança, Bonito, Capanema, Cametá, Capitão Poço, Irituia, Igarapé-Miri, Limoeiro do Ajuru, Mãe do Rio, Mocajuba, Nova Timboteua, Oeiras do Pará, Ourém, Santa Maria do Pará, Santa Luzia do Pará, São Domingos do Capim, Salinópolis e Tracuateua.
Pelo menos cinco pontos problemáticos foram realçados. A primeira questão é o baixo nível de renda aliado às condições precárias de saúde de muitas mulheres trabalhadoras rurais e suas famílias. Isso, segundo a pesquisa, reduz a capacidade produtiva e de representação e articulação social das mulheres. Esse problema foi relacionado principalmente à questão da qualidade e tratamento da água consumida pela população rural.

Outro elemento em destaque é a violência doméstica e violações aos direitos das mulheres. Essa é uma questão que preocupa também militantes do MST, que recentemente lançou uma cartilha de alerta em relação à violência contra a mulher. “É uma questão complexa que precisa ser vista a partir de vários ângulos, tanto do ponto de vista individual como no campo sociológico, estrutural”, diz Viviane Brígida, coordenadora do Movimento de Mulheres do MST.

A situação de empobrecimento e a insegurança alimentar de alguns núcleos familiares também foram pontos mostrados pela pesquisa. “As famílias reservam o melhor da produção para comercialização, consumindo apenas as sobras desta para que com o pequeno lucro obtido possam adquirir produtos industrializados de reduzido valor nutritivo ou equipamento eletrônicos, como televisores”, diz o relatório.

Também foi frisada uma baixa formação e participação política das mulheres na região Norte e o baixo nível de capacitação sobre meios mais eficientes e sustentáveis de geração de renda. No nordeste paraense, das 91 mulheres entrevistadas, 85 declararam ser alfabetizadas e seis não alfabetizadas. Desse número, 36 estariam no ensino fundamental completo e 49 no incompleto, sendo que 25 chegaram ao ensino médio e apenas quatro ao ensino superior.

“No campo, ainda predominam ideias conservadoras e patriarcais”, diz Viviane Brígida. Segundo ela, as mulheres participam ativamente da produção e ainda precisam dar conta dos afazeres domésticos. “Ela cuida do lar e da terra”, diz.

OUTROS DIAS

É um cenário que aos poucos vai tomando outras formas no assentamento Luiz Carlos Prestes, em Irituia. Oito mulheres decidiram buscar formas alternativas de produção em conjunto. Criaram o Coletivo da Mata, responsável por uma horta que – pretendem elas - irá abastecer a merenda escolar, tanto do assentamento como do município. Tudo com assistência técnica da Emater.

“É um projeto que, se der certo, será levado a outros municípos. Além da horta, temos viveiros de frango caipira, mas nisso os homens é que estão mais à frente”, diz Marlene Moreira Farias, uma das lideranças do coletivo no assentamento. Aos 32 anos, Marlene está no segundo relacionamento, depois de ter ficado viúva. Do falecido marido, as lembranças não são muito prazerosas. “Ele bebia muito, me humilhava, dizendo que ele é quem trazia dinheiro para casa, era muito ruim”, lembra.
Com a horta, que já produz cheiro-verde, alface, couve e cebolinha, Marlene planeja outro rumo para si e as outras mulheres.

“Estamos ganhando importância. Já nos olhamos com outros olhos. A confiança aumenta. Esse é o melhor pagamento”, diz.

(Diário do Pará)

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