O tão cantado e poetizado Mercado do Ver-o-Peso completa nesta quarta-feira (27), 386 anos de existência. O mercado, inaugurado em 1627, hoje é um complexo que reúne sob os mesmos metros quadrados toda a matéria prima dos principais pratos paraenses e mais alguns elementos da cultura do Estado. Mas para chegar a mais de três séculos, o Ver-o-Peso viu muitas mudanças. Hoje, comprar na maior feira livre do mundo ficou mais fácil e mais moderno. Há alguns anos a única forma de adquirir um produto no Ver-o-Peso era com o dinheiro vivo. Atualmente, o complexo, que reúne pontos de venda desde a Feira do Açaí até as docas, já passou por três grandes reformas e as barracas já possuem as famosas maquininhas de cartão de crédito ou débito, dependendo do gosto do freguês. “É visível nessa questão do comércio a chegada da modernidade. Hoje, maioria dos vendedores já estão ligados nessa questão das maquininhas de cartão de crédito e dificilmente você encontra um que não trabalhe com isso”, explica a geógrafa e historiadora Maria Goretti Tavares, também professora da Universidade Federal do Pará (Ufpa). A preocupação é se o mercado estaria afinal perdendo características que o tornavam tão popular. Para a professora Tavares, a modernidade não interfere no que é mais essencial do Ver-o-Peso. “As práticas tradicionais, a questão dos saberes, a questão do patrimônio material e imaterial. O que seria isso? O material é o caso do próprio Mercado de Ferro, ou o Mercado de carne que está aí desde a Bélle Epóque”. A conservação da memória do Ver-o-Peso já é um projeto em andamento, onde o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) se juntou aos feirantes para a criação do “Ver-o-Site”. “Tudo o que fizemos foi em conjunto com os feirantes. Queremos salvar a memória do mercado, portanto precisamos de quem faz o Ver-o-Peso”, esclarece a técnica responsável pela Educação Patrimonial do Iphan, Carla Cruz. E quem vende no mercado há anos de fato pode acompanhar e ver as mudanças. A vendedora de ervas, Maria Lôura, já está no Ver-o-Peso há mais de 20 anos e não dispensa o salto alto para ir trabalhar. “Venho todos os dias assim arrumada, mesmo com as dificuldades que a gente encontra pra trabalhar por aqui”, explica. Ela conta, por exemplo, que a facilidade das maquininhas de cartão de crédito não pode ser estendida a todos: “No nosso bloco, por exemplo, nós fizemos adaptações nessa lona que colocaram na cobertura, porque quando chovia pegava em todos nós e na mercadoria. Eu até usava a maquininha, mas não tem energia e o equipamento não pode molhar”. Maria Goretti Tavares explica que esses novos métodos de pagamento vêm para dar inclusive mais segurança aos clientes. Essa que é, inclusive, uma questão muito levantada pelos vendedores do complexo, muito mais que um espaço de trabalho para eles. “O Ver-o-Peso faz parte da memória afetiva. Para esses feirantes é um lugar de convivência mesmo, porque tudo está ali. O freguês vai lá, pode comprar um peixe fresco na pedra, comprar os temperos na feira e mesmo saborear o peixe frito no mesmo lugar, nas barracas de comida”, exemplifica Carla Cruz, do Iphan. Luzilena do Santos vende artesanato no Ver-o-Peso há 23 anos e concorda que o mercado de hoje é bem melhor do que antes. “Mas ainda tem tanta coisa que pode melhorar, como a segurança. É muito complicado para nós, vendedores, ter que aconselhar os turistas a não andarem por aqui até determinado horário ou ao menos ter cuidado”, ressalta. Além disso, o espaço para os feirantes diminuiu e prejudica os vendedores. Para renovar os ares do Ver-o-Peso, o Iphan está promovendo a reforma do Mercado de Ferro, o mercado de peixe, construído em 1897. “Até nisso nós pedimos a contribuição da população, porque é importante que as pessoas cuidem desse patrimônio que é o Ver-o-Peso”, disse Carla Cruz, se referindo à votação feita pelo instituto para que o povo escolhesse a nova cor do mercado de ferro. Ele vai continuar no tradicional azul, mais uma das coisas que não mudam na paisagem do cartão postal. Olhando para o passado, alguns costumes já não são tão frequentes. É o caso dos “pregões”. A professora Eliana Cutrim, da Universidade do Estado do Pará (Uepa), defendeu tese de mestrado sobre o assunto e explica: “Os pregões são a cantiga dos vendedores ambulantes. São universais. Durante as pesquisas encontrei no Ver-o-Peso o pregão do vendedor de laranjinhas. Foi o mais melodioso de todos, inspirado na linha de um brega”. Mesmo assim, a presença desses cantadores vem sendo cada vez menor e mais uma vez chega a tecnologia com microfones e caixas de som tocando bregas. A professora Cutrim visitou também outras feiras e afirma que apesar do tempo, “a cantiga dos vendedores continua na nossa cultura local e também em diversas outras”. (Diário do Pará) |
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