“Essa responsabilidade é o que nos move”, murmura Luiz Augusto de Oliveira Veiga, 69 anos. A voz está embargada. Os olhos cheios de lágrimas. Veiga desabafa - e é como se não fosse mais uma entre as inúmeras vezes em que já contou o mesmo enredo. A tormenta sempre retorna nestas horas. Foram muitos os anos em que viveu como dependente químico. Ainda assim, Veiga é o fundador do Centro Nova Vida - o marco de uma vitória pessoal frente ao passado como usuário de drogas, superado não sem duro esforço. As marcas da batalha estão nas mãos. Elas ainda tremem por conta da falta de coordenação motora que o excesso de álcool e drogas deixou como herança. “Precisei me ver com 40 quilos, pedindo esmola na rua, sujo e sem perspectiva de vida para dar o primeiro passo. Com muito custo e com ajuda de outras pessoas consegui dar continuidade ao tratamento. Não é fácil. É necessário ter vontade para sair em busca de tratamento”, conta Veiga, que passou de empresário a mendigo. “E de mendigo a diretor de uma das entidades assistenciais mais respeitadas do Pará, especializada na recuperação de dependentes químicos que há 20 anos trabalha na prevenção e na recuperação de dependentes”, narra Veiga. O Centro Nova Vida nasceu como uma organização não governamental que trabalha na prevenção e na recuperação de pessoas viciadas em drogas. Mas é a experiência de vida de Veiga que marcou o DNA da instituição: antes de tudo, a casa deveria ser um ponto crucial de apoio para pessoas que, como ele precisou um dia, carecem de informações e estrutura para dar o primeiro passo rumo à liberdade da dependência química. A entidade possui atualmente 22 internos, que desenvolvem atividades como hidroginástica, aulas de educação artística e assistem a palestras, além de receberem acompanhamento de assistentes sociais e psicólogos. Segundo Veiga, a instituição segue a filosofia da Federação Brasileira de Comunidade Terapêutica, sobre a qual a desintoxicação dos dependentes químicos não é medicamentosa, e sim educativa. O Nova Vida também desenvolve ações externas que atingem públicos diversos, como comunidades, empresas, escolas e universidades. A família de cada interno, denominada de codependente, também recebe atendimento para aprender a lidar com a realidade e com a recuperação. Em 20 anos de trabalho, mais de 10 mil pessoas passaram pelo centro, sendo que em média o Nova Vida recebe cerca de 40 telefonemas por dia de pessoas pedindo ajuda e orientação. Os atendidos são encaminhados também para grupos de auto-ajuda, como os Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos, a fim de que seja realizada uma espécie de manutenção durante a vida para evitar possíveis “recaídas”. Para Nelcy, quando uma pessoa tem problemas com álcool e outras drogas, caso aceite ou não ajuda, o primeiro passo é procurar um profissional especializado para receber orientação adequada para o caso. “Cada caso é único e um psicólogo especialista na área é o profissional mais indicado para traçar um plano de tratamento para ele e para a família”, afirma. Simão (nome fictício), 17 anos, está há mais de cem dias no centro. O adolescente, que foi preso pela primeira vez com 13 anos de idade, já foi detido 30 vezes por assalto à mão armada e por inúmeras fugas dos centros de recuperação que já passou. Ele usou o primeiro cigarro de maconha aos 13 anos e, para sustentar o vício, fazia assaltos contínuos onde morava. “Fiz muito mal às pessoas que eu amava. Já vi minha mãe apanhar de policiais, vi amigos meus saindo do mundo do crime pelos caixões. Percebi que nada disso ia me dar futuro”, conta o adolescente. Hoje quase finalizando o seu tratamento, Simão sonha com um futuro melhor. “Quero sair daqui para poder trabalhar, estudar e dar continuidade ao tratamento em casa mesmo. Não quero mais sofrer e ver os outros sofrendo por minha causa”. (Diário do Pará) |
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