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Fé até os porões da sociedade

Ter fé não significa apenas acreditar numa entidade divina. Significa também crer em algo sem dúvidas ou indecisões, sem condições ou receios. É sentir-se completo pela própria confiança e lutar para que o seu ideal de vida nunca desapareça. Ter fé é, aci

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Ter fé não significa apenas acreditar numa entidade divina. Significa também crer em algo sem dúvidas ou indecisões, sem condições ou receios. É sentir-se completo pela própria confiança e lutar para que o seu ideal de vida nunca desapareça. Ter fé é, acima de tudo, ter coragem. Característica que tem marcado a trajetória de vida da irmã Marie Henriqueta Ferreira Cavalcante, coordenadora da Comissão de Justiça e Paz (CJP) do Regional Norte 2 da Conferência Nacional dos Bispos no Brasil (CNBB).

Desde que iniciou a vida religiosa, há 36 anos, a irmã Henriqueta se dedicou às causas sociais, em especial à proteção dos mais pobres, os “que vivem nos porões da sociedade”, como prefere conceituar. “Sempre tive esse foco. Acho que não me dediquei a outra coisa com tanto fervor”, diz.

E quem a vê serena, tranquila e de sorriso fácil, não imagina a mulher que cresce ao falar da luta contra a exploração sexual de crianças e adolescentes no Pará. O assunto tira o brilho dos olhos e incomoda pelas dificuldades ainda enfrentadas no combate ao crime.

Em conjunto com entidades parceiras, ela denuncia toda forma de negligência e violência contra a criança e o adolescente. O grupo tem desempenhado, nos últimos anos, um papel primordial nos procedimentos de denúncia e acompanhamento das investigações sobre os casos - inclusive na última Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pedofilia, instalada pela Assembleia Legislativa do Estado do Pará.

Segundo dados da Polícia Civil do Estado foram iniciados quase dois mil inquéritos para investigação de casos de pedofilia em 2012. De 2008 a 2012, a CPI registrou cerca de 100 mil denúncias referentes ao crime.

“O que mais me entristece é ver que o nosso compromisso, de defender as pessoas, é cercado pela desigualdade social. A diferença entre pobres e ricos é um dos fatores que mais desencadeiam os problemas que vivemos atualmente. Esse desejo de ter as mesmas posses, as mesmas oportunidades, acaba ultrapassando os valores pessoais, hoje em dia já enfraquecidos”, pondera. A esta indignação somam-se ainda a injustiça e a impunidade. Dois aspectos que a irmã também vem combatendo fervorosamente.

Além do envolvimento nessa luta, Henriqueta ainda se dedica aos demais projetos da CNBB, todos com foco no trabalho voluntário e no bem-estar da população. São iniciativas que valorizam políticas públicas e cobram o cumprimento das leis, como o Disque-Denúncia, que recolhe acusações de crimes eleitorais no Estado. “Eu acredito na proposta de contribuir para um mundo melhor, de ajudar os indefesos. Tiro forças de Deus. É o meu matrimônio, meu casamento, a razão de vida. Não podemos desanimar, porque mudança é perseverança. Ela não acontece se for abandonada. Precisamos ser teimosos, insistentes e manter a fé. Ter a confiança dessas pessoas também é um estímulo para não desistir”, afirma.

Essa é a mesma firmeza com que rebate as ameaças de morte recebidas por causa de sua luta em defesa da vida e da dignidade da pessoa humana “Não tenho medo de ameaças. Estou cada vez mais fortalecida e persistente no que eu acredito. O que me amedronta é a injustiça e o fato que muitas pessoas que têm o poder de mudança, caminham em lado contrário à nossa luta. Mas felizmente temos parceiros fiéis, pessoas comprometidas que nos ajudam, porque é impossível lutar sozinha”, desabafa.

PASTORAL

Um desses grupos é a Pastoral do Menor, organização que existe há 35 anos no Brasil e há mais de duas décadas em Belém.

Irna Pantoja, coordenadora da entidade, também teve uma trajetória semelhante à da irmã Henriqueta, um caminho de pura dedicação. Começou o trabalho social na igreja, há 15 anos, e não parou mais. “Toda a minha formação é voltada ao social. Meus trabalhos têm essa característica, é o que me guia”, afirma. Com experiência em diversas faixas etárias, ela diz que os jovens têm algo especial. “Os meninos nos têm como exemplo, imitam o nosso comportamento. Eles são sinceros, reclamam, brigam, criticam, mas também são cheios de amor”, ratifica.

A Pastoral trabalha com quatro pilares: família, adolescente, políticas públicas e ato infracional. Atualmente cerca de 50 pessoas dedicam parte do seu dia às atividades educativas, lúdicas e de lazer. Parte dos profissionais são adultos que participaram da pastoral quando jovens e retornam para, desta vez, mudar a vida de outras crianças.

“Ficamos muito orgulhosos quando vemos nossos meninos entrarem na faculdade, atravessarem as barreiras sociais. O vínculo que se constrói é muito grande, porque todos dedicam parte ou toda a sua vida a esta crença”, explica.

Irna lembra ainda que os crimes contra menores não estão restritos ao interior. A periferia de Belém, por exemplo, registra altos índices de envolvimento de jovens com drogas, homicídios, abuso e exploração sexual. “A participação da irmã Henriqueta nessa luta foi muito importante para fortalecer também o nosso trabalho. Ela, Padre Bruno e diversos religiosos mostraram que é preciso relatar esses crimes, que todos devemos combatê-los e cobrar mais agilidade e comprometimento com o problema”, resume, em agradecimento sincero.

Para comprovar a crença na mudança, a pedagoga ainda mora no Barreiro com a família: quer mostrar a todos que é possível viver dignamente mesmo sendo pobre. “Sempre digo que se a transformação não existisse, eu não estaria aqui. Por isso, eu garanto que o sonho não está muito distante. Depende de toda a sociedade olhar com mais cautela, com cuidados para os nossos pequenos. Não podemos desacreditar, afinal, cuidar do outro é viver da fonte. Quando você vê o resultado, uma pessoa vencendo as dificuldades sociais, tudo faz sentido”.

(Diário do Pará)

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