Na noite de Sexta- feira Santa, o velório do mais famoso traidor da história foi realizado simbolicamente. Na manhã do dia seguinte, no Sábado de Aleluia, por tradição, Judas Iscariotes foi “malhado”. Em Belém, pelo menos 30 associações deram continuidade ao costume da “malhação” do apóstolo que aceitou dinheiro para entregar Jesus Cristo aos romanos. Vinte delas ficam na Cremação, bairro onde a prática data de mais de seis décadas.
No encontro da avenida Alcindo Cacela com a rua Fernando Guilhon, dezenas de pessoas observaram crianças e adolescentes “malharem” os quatro bonecos que representavam o presidente do Senado, Renan Calheiros, Judas Iscariotes, o tráfico humano e a violência no bairro. O empurra- empurra para chegar próximo aos bonecos era justificado pelas quantias em dinheiro colocadas nos bolsos de dois personagens. “Quem achar os R$ 100, ganha mais R$ 100”, anunciavam os organizadores pelo carro-som.
O valor foi doado pelos próprios moradores, que enfeitaram a rua com bandeirinhas e contrataram equipamento sonoro para animar os presentes. “É algo passado de geração em geração”, conta Jorge Francisco, filho de um dos mentores da brincadeira no bairro e membro da Associação dos Malhadores de Judas da Cremação. “É um momento muito esperado e de muita alegria para o povo da Cremação”, diz a advogada Odirene Batalha, 58 anos, que observava a movimentação em frente da casa.
Próximo dali, Alberto Cantanhede, 43 anos, presidente da Associação dos Malhadores da rua Conceição com a travessa 14 de Março, organizava a “malhação” de nove bonecos e a brincadeira de quebra potes. Com o objetivo de ironizar a enchente na rua Fernando Guilhon perto da avenida Generalíssimo Deodoro, os bonecos não remetiam a pessoas famosas. “São os sobreviventes da cheia. É uma crítica ao trabalho que não foi concluído no canal da Quintino”, afirma.
Em 11 pontos da capital, o acesso de veículos nas ruas onde a “malhação” de Judas era realizada foi interrompido pela Autarquia de Mobilidade Urbana de Belém (Amub), entre 18h de sexta-feira (29) até 12h do Sábado de Aleluia, por questões de segurança. “Todas as associações receberam incentivo financeiro da Prefeitura, entre R$ 1mil e R$ 2 mil, para confeccionar os bonecos e as brincadeiras”, afirmou Marcos Marques, diretor de cultura da Fundação Cultural Municipal de Belém (Fumbel).
(Diário do Pará)
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