Educação, simpatia e respeito são princípios essenciais para qualquer sociedade. Nada mais natural, portanto, que todos praticassem esses valores diariamente, correto? Nem sempre. Com os males da vida acelerada, os problemas pessoais e o distanciamento do próximo, quem age com bondade e caráter se torna um exemplo de ser humano e profissional.
É o caso do motorista de ônibus Walter Lopes, que há oito anos percorre as ruas de Belém, em trajetos que ligam a periferia ao centro da cidade. Walter não é famoso, mas tem mais admiradores do que consegue imaginar. Sem saber, os seus cumprimentos simples mudam a perspectiva de quem acorda sem ânimo e dão nova energia a aqueles que vinham desacreditados da compaixão.
“Esse motora é do bem. Não esquece do bom dia pra quem sobe no ônibus, dá informação e é sempre atencioso. Eu faço é gostar quando pego o ônibus com ele”, garante seu Raimundo Pinheiro, 61 anos, que já sobe os degraus puxando conversa. “Tem muito motorista que vira a cara. Que finge que não vê quando o idoso faz sinal. A diferença dele tá aí porque ele não faz distinção”, elogia o soldador.
Cada passageiro que entra é uma nova forma de interação. São contatos mínimos, que duram sequer um minuto, mas que dão ao condutor a sensação de estar mais perto do povo, de ajudar a essas pessoas a chegar em seus compromisso e depois retornar a salvos para casa. “Acho que não faço nada demais, apenas sigo uma educação esquecida. Falta o hábito de tratar bem o outro, de se colocar no lugar dele”, diz.
Com um sorriso leve constante, ele segue o trajeto diário. Independente do calor do meio dia ou da chuva forte ao final da tarde, ele mantém o comportamento de cidadania. Ação que fez a universitária Fernanda Campos somar-se ao número e aumentar os elogios. “São atitudes simples que fazem o nosso dia melhor. Os motoristas são muitas vezes mal vistos pelo estresse que o trânsito causa. Encontrar um profissional assim que faz a diferença, reacende a esperança de um lugar melhor para o futuro. Ele está de parabéns”, avalia a jovem.
Toda a simpatia tem também seu retorno. Na Páscoa, por exemplo, Walter ganhou um ovo de chocolate de uma senhora, passageira assídua do coletivo. “Minha mulher até já se acostumou. Ela sabe que eu trabalho com o público e em geral os mais velhos são os mais carinhosos”, sorri.
PRINCÍPIOS
Em Belém, segundo o Sindicato dos Trabalhadores de Transporte Rodoviários do Pará (Sttrepa), existem 33 empresas de ônibus, as quais mantêm 135 linhas e uma frota de 1.250 veículos. Cerca de nove mil trabalhadores, entre cobradores e motoristas de ônibus, integram a categoria.
Se dissessem a Walter, quando criança, que faria parte desse grupo ele provavelmente não acreditaria. “Eu sonhava em ser jogador de futebol, como todo moleque [risos]. Mas como não deu, eu mantenho pelo menos o hábito de jogar uma bolinha, uma ou duas vezes por semana. É bom para fazer um exercício, pra não ficar só sentado”, explica, se referindo agora ao trajeto que a vida o levou.
Walter começou na empresa como fiscal, foi promovido a motorista e hoje é um dos funcionários mais populares. E mesmo com todo o estresse e dificuldade do tráfego da capital paraense, ele garante ter paixão pelo que faz. “Levando em conta só a situação do trânsito hoje o normal seria abandonar, mas eu gosto de dirigir. Faço com prazer. Claro que a gente tem medo de assalto, agressão, que já atingiram vários colegas, mas até agora fui um abençoado porque nada aconteceu comigo”, conta.
Pelo contrato de trabalho, Walter passaria sete horas dirigindo, mas o tráfego intenso às vezes força o período por mais alguns minutos. Nesses dias, Walter guia de 6h da manhã às 16h, à frente da linha Bengui Ver-o-Peso, com uma breve pausa para o almoço. “Tem que ser rápido, para não prejudicar a rota”. Uma vez por semana, chega a desejada folga, “Graças a Deus”, que dedica normalmente à família. Casado, ele é pai de quatro crianças, duas com a primeira esposa e duas com a atual.
“Acho que a diferença é que hoje não há mais tanta educação da família. Na minha casa, meus pais sempre me ensinaram a respeitar os mais velhos, ser educado, então isso refletiu na minha personalidade. Até os colegas me veem com outros olhos, percebem isso”, explica.
Por isso, exemplos de injustiça, egoísmo e desrespeito o incomodam profundamente. “Assim como existem motoristas que tratam mal alguns passageiros, existem pessoas que entram no ônibus já descontando na gente, como se tivéssemos culpa de algo. É aquela história de responsabilizar todos pelos comportamentos de alguns. Acho que as pessoas deveriam valorizar mais a família. Trazer pro trabalho o bem estar que existe em casa, incentivar o amor ao próximo”, aconselha.
Quando o percurso chega ao fim, e a atenção constante pode aliviar, Walter se deixa tomar por planos futuros, ideias que ele deseja concretizar. “Acho que ser motorista de turismo pelo Brasil é um dos meus sonhos. Faz bem conhecer novos horizontes, ampliar a mente. Quem sabe eu não levaria mais bom humor também pra outras estradas no Brasil?”, sugere. Com tanta disposição e carisma pra vencer a vida, ninguém há de duvidar.
(Diário do Pará)
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