Com apenas 5 anos de idade, mais de 53% das crianças brasileiras já tiveram cáries. É o que apontam dados de 2012 do Ministério da Saúde. E a Associação Brasileira de Odontologia (ABO), ratifica: nessa faixa etária os pequenos somam, em média, problemas em pelo menos dois dentes de leite. Números alarmantes que são ainda mais altos nas áreas rurais e nas periferias dos grandes centros urbanos, onde, assim como a assistência geral à saúde, os cuidados bucais são insuficientes.
Manuel Borges de Souza, pedagogo e servidor público municipal, notara essa realidade há 30 anos, em 1983. Morador do bairro da Marambaia, em Belém, ele observou que havia muitas crianças com cáries, dores de dente e mau hálito. Decidiu iniciar a campanha Sorriso Feliz, que depois se espalhou para outros dois bairros da capital paraense através da ONG ‘Vitória Régia’, também fundada por ele.
“A gente faz o que pode. Tira o tempo do nosso lazer, principalmente aos finais de semana, e dedica ao projeto. O retorno que temos está todo aqui [batendo no peito]. É todo e somente na nossa alma”, comenta emocionado.
Hoje 25 pessoas participam de forma voluntária da organização. São profissionais de formações distintas, que se reúnem para realizar mutirão de limpeza e assistência bucal três vezes ao ano, sem falar nas programações em datas especiais, como no último Dia da Mulher. “Dessa vez, chamamos as mulheres da comunidade, pregamos cartazes e ampliamos as discussões para outros temas relevantes. Claro que o nosso foco são os cuidados dentários, mas queremos levar todas as informações que achamos interessantes”, diz.
De casa em casa, o pedagogo sai pelas ruas do bairro, cheio de materiais, objetos para doação e, acima de tudo, muita boa vontade. Afinal, a dificuldade ali não está apenas no acesso, mas no envolvimento das famílias em relação à higiene pessoal. Sem apoio do poder público ou da iniciativa privada, os voluntários fazem coleta do próprio bolso, investem o recursos pessoais para compra dos materiais doados, dos coletes de identificação e itens de higiene. Tudo é entregue às crianças para que elas possam colocar em prática o que aprenderam nas atividades.
Para Borges, a maior necessidade da organização, no momento, é de dentistas. “Não conseguimos ainda um profissional que seja voluntário conosco, que participe das ações maiores e atenda as crianças uma vez no mês”, desabafa.
MUTIRÃO
Num sábado pela manhã, cerca de 40 crianças se ajeitavam para caber no espaço improvisado em frente a uma casa no bairro da Cabanagem, periferia de Belém. Ali, um dos poucos lugares cobertos do sol e muito próximo à rua, o barulho dos ônibus, carros de propaganda e bares poderia desestimular qualquer mobilização. Mas Borges e sua equipe não desistem tão rápido. Eles pediram para diminuir o som da construção ao lado, encheram os pulmões e falaram o mais alto que podiam.
“Quem aqui sabe escovar os dentes?”, perguntou ele aos pequenos. Rápido diversas mãos foram erguidas para cima, seguidas de imitações entusiasmadas dos movimentos corretos de escovação. Algumas orientações depois, chegaria a hora esperada por todos: escova e creme dental para a garotada.
Evelin, 6 anos, era uma das participantes do mutirão do “Sorriso Feliz”. Tímida, ela se acomodou ao final da fila, evitou o empurra-empurra dos meninos, mas fez questão de escolher uma escova rosa. “A mamãe já tinha me mostrado como se faz e diz para eu escovar duas vezes todos os dias”, conta. O objetivo de escovar bem os dentes? “É para ele ficar limpo e branco”, responde de prontidão. Para ela, as ações da ONG são oportunidades de brincadeiras. “Eles conversam com a gente, veem se estamos cuidando direito dos nossos dentes e depois deixam a gente brincar de roda, pira, um monte de coisas”, diz.
Segurando a pequena Ester no colo, Eliene Souza não perdia de vista os filhos Emilie e David, com 7 e 3 anos respectivamente. “Sempre trago os três porque acho importante que eles aprendam desde cedo a cuidar dos dentes, a escovar sem a gente ter que obrigar. O trabalho dos pais é estimular, servir de exemplo, e fazer com que eles façam sozinhos”, opina. Dona de casa, ela admite que o tempo no dia a dia é corrido, mas garante que dá toda a atenção à prevenção das crianças. “Tem muitos pais que não cuidam, esquecem mesmo e só percebem quando os meninos já estão cheios de cáries ou com dor de dente. É perigoso porque eles vão crescendo e vai só piorar”, afirma.
Por isso, além de ensinar aos pequenos, a ONG auxilia os pais no esclarecimento de dúvidas, orientações de cuidados e até encaminhamento para postos de saúde, nos casos mais avançados.
Aos 64 anos, Maria Monteiro era a voluntária mais animada da ação. Sorriso constante e disponível a todos, ela se deixava rodear pelos jovens até atender o último pedido. “Todos me conhecem aqui. Me param e perguntam quando será a próxima atividade. As crianças que cuidamos me mostram os dentes saudáveis, os pais agradecem. Hoje me sinto feliz, faço tudo por amor. É disso que eu vivo, que me alimento”, reforça.
(Diário do Pará)
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