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Tayane descobre o vôlei e dá aula de superação

Uma rotina agitada. A jovem Tayane Santana divide-se entre as aulas do curso de serviço social, dança contemporânea, inglês, academia e treinos de vôlei sentado. “É uma vida bem corrida e é isso que eu gosto”, define a jovem, que trocou o balé, praticado

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Uma rotina agitada. A jovem Tayane Santana divide-se entre as aulas do curso de serviço social, dança contemporânea, inglês, academia e treinos de vôlei sentado. “É uma vida bem corrida e é isso que eu gosto”, define a jovem, que trocou o balé, praticado até o ano passado, para almejar novos desafios. Sim, aos onze anos ela teve a perna esquerda amputada em decorrência de um câncer no joelho. Mas isso não a impediu de entrar na universidade, fazer exercícios, superar os limites do corpo e ter planos grandiosos. “Eu levo a minha vida normalmente e tento fazer com tranquilidade”, garante.

A postura livre de encarar a vida difere totalmente do cenário que constatou após sair do hospital, acabada a cirurgia. “Quando eu saí, me vi muito limitada pelas pessoas que queriam me proteger”, lembra. Foi na Associação Voluntariado de Apoio à Oncologia (Avao) que Tayane percebeu a oportunidade de iniciar um processo de interação e diversão, chegando a comparar o balé – atividade que passaria a ser lazer e paixão – à liberdade. “Foi a minha oportunidade de ganhar voo”.

O balé equiparava-se a uma aspiração de menina. “Eu tinha vontade de fazer dança e adorava muito o balé”, conta. No palco, a cena causava espanto e admiração. “Só tinha uma perna e queria ser bailarina”, brinca. Apesar da limitação na arte que exige muito dos membros inferiores, a bailarina não considera as adversidades grandiosas. “Eu não costumo ver muita dificuldade, não”.

Vista como uma arte para pessoas que têm o corpo perfeito, praticar balé era um desafio. “Com a adaptação feita pela tia Paula Kalis, minha professora, eu consegui dançar tranquilamente”, recorda a jovem de 25 anos. Como bailarina, fazendo participações especiais em eventos de dança, notou que sua presença era percebida positivamente. “Eu percebo que às vezes as crianças que usam muletas me olham, ficam curiosas e pensam: ‘Olha, ela só tem uma perna e consegue. Eu também posso conseguir’”.

Logo no início, morava em Ourém. Enfrentava quatro horas de viagem para fazer um dia de aula. Logo após o ensaio, retornava para casa. A menina foi crescendo e os objetivos também. Visando o vestibular, ela mudou-se para Belém, para dedicar-se aos estudos. A vinda para a capital paraense rendeu frutos. Tayane atualmente cursa o sexto semestre de Serviço Social na Universidade Federal do Pará (UFPA). Com as descobertas, a vontade de ultrapassar as barreiras do que habitualmente passa a ser o “mundinho” que nos cerca, ela aceitou o desafio da dança contemporânea. “Como o balé era um trabalho mais solitário, eu sentia curiosidade de fazer um trabalho em grupo”, explica.

Durante uma apresentação no Festival Internacional de Dança da Amazônia (Fida), a bailarina conheceu o Grupo Pós-Conceito, do qual é integrante há quase um mês. Uma particularidade no grupo fez diferença: a presença de Antônio Neto, que também usa muletas. “Achei legal fazer esse trabalho com ele”. O início foi despretensioso. “Entrei por curiosidade e acabei ficando”.

E mais uma vez a sensação de liberdade fez diferença nas escolhas da jovem que por seis anos praticou balé. O ingresso na dança contemporânea é comparado com a dedicação dada aos movimentos precisos embalados pelas pontas dos pés “A principal diferença é que no balé você é mais refém de regras e movimenta mais os braços e pernas. Na dança contemporânea eu me sinto mais livre, os movimentos são mais soltos”, conclui.

Uma vez por semana, Tayane frequenta as aulas de dança contemporânea. Em outros dois dias, dedica tempo à academia. Cuidar da musculatura foi um pedido de alguém mais que especial. “Encontrei com a Ana Botafogo e ela disse que me admirava porque às vezes as pessoas achavam difícil fazer balé e eu conseguia. Ela me aconselhou a fazer academia para fortalecer os músculos”. A força pode ajudar em mais um projeto de Tayane: o vôlei sentado.

AGORA, O VÔLEI

Com o início de fevereiro, veio a confirmação de um convite antigo feito pelo técnico da equipe da Casa da Pessoa com Deficiência. A reposta positiva de Tayane foi mais influenciada por questões pessoais do que pelo amor ao esporte com o qual nunca tinha tido contato. “Há um tempo eu me cobrava mais convivência com pessoas que também têm deficiência e a troca de experiências é muito legal”.

A busca por novos desafios demonstra que o medo do novo não é característica de Tayane Santana. Resultante da fusão do voleibol convencional e o sitzbal, esporte de origem alemã, o vôlei sentado surgiu na Holanda, em 1956. Também composto por seis jogadores, difere-se pelo tamanho da quadra, dez por seis metros, e a altura da rede, com 1,15 metro para os times masculinos e 1,05 metro para o feminino. Podem competir pessoas com paralisia cerebral, deficiência locomotora, lesão vertebral e membros amputados, como é o caso de Tayane.

A possibilidade de relacionar-se com outras pessoas que também possuem deficiência foi definitiva para o ingresso da bailarina no vôlei sentado – esporte paralímpico desde 1980. “Sentia necessidade de conversar com pessoas com deficiência”, revela. Duas vezes por semana, às terças e quintas, mais de três horas são dedicadas ao aprendizado do vôlei sentado. Tudo é novidade. “Nunca tinha tido contato com nenhum esporte”, conta.

Sempre ativa, Tayane está disposta a assimilar os conhecimentos não só do lazer que o esporte proporciona, mas do convívio com pares. Por enquanto, tenta entender as regras do jogo. No esporte adaptado, o saque pode ser bloqueado e são disputados cinco sets, vencendo o time que marcar 25 pontos por set.

Embora reconheça que a ausência da perna esquerda gera limitações, Tayane não vê nisso um incômodo e está disposta a mergulhar no novo entretenimento. “É um pouco diferente do balé e da dança”, observa ela, que ainda não tem uma posição definida em quadra. “Estou treinando fundamentos. Ainda tô nos primeiros passos”, sorri em tom de descontração.

(Diário do Pará)

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