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Ação muda vida de crianças através do esporte

Um olhar para ir além, detectar os perigos e vencer as dificuldades. Esse foi o intuito de Jefferson Silva e Hernane Brito ao fundarem em 2008 o projeto Visão Águia, em Benevides (PA). Moradores do município, eles perceberam que muitas crianças e jovens e

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Um olhar para ir além, detectar os perigos e vencer as dificuldades. Esse foi o intuito de Jefferson Silva e Hernane Brito ao fundarem em 2008 o projeto Visão Águia, em Benevides (PA). Moradores do município, eles perceberam que muitas crianças e jovens estavam largando a escola, cometendo crimes ou se tornando usuários de drogas. A fim de combater a situação de risco que só aumentava, eles decidiram focar numa atividade que fomenta respeito, desenvolvimento e muitos sonhos: o esporte.

Mais de 80 alunos, de seis diferentes bairros da cidade assistem a aulas de jiu-jitsu, boxe e futebol. A igreja evangélica, parceira do projeto, cede o espaço, enquanto os coordenadores se responsabilizam pelas aulas e procuram parceiros que ajudem na realização das atividades. Além do esporte, o Visão Águia realiza palestras com os jovens e seus responsáveis, apostando na ressocialização da família. Uma vez por semana também há o Cine Visão Águia, com exibição de filmes educativos e pipoca de graça. Seja com os alunos, parceiros ou comunidade, tudo é na base conversa, mostrando as oportunidades que a vida oferece e cada um pode agarrar.

“Tudo começou quando passei a frequentar a igreja evangélica. Foi quando senti que poderíamos melhorar a vida dessas crianças. Há dois anos eu abri um negócio em Belém e acabei me afastando um pouco das atividades, mas decidi voltar. Construí minha casa e me dediquei novamente ao projeto. Sinto que o meu trabalho é esse aqui”, conta Jefferson.

A gestão atual do município tem ajudado a organização, doando parte dos valores ou investindo em novos projetos. Ainda nesse semestre, o Conselho Municipal do Direito da Criança e do Adolescente (CMDCA) deve repassar R$ 40 mil para ampliar a área do esporte. A verba foi arrecadada no Fundo da Infância e do Adolescente (FIA), no qual as empresas privadas fazem depósitos para isenção no Imposto de Renda.

Todo o conhecimento que Jefferson passa hoje foi adquirido na prática. “Eu entrei com o coração, com vontade de fazer o bem e depois fui aprendendo, com muito estudo também”. Por isso ele já anuncia que pretende fundar a ONG Pará, com os mesmos dez voluntários do Visão Águia, “para organizar as organizações”. A entidade irá oferecer consultoria, assistência e assessoria para as entidades que estão em formação. “Muitas ONGs não duram porque não sabem como fazer as coisas, não têm apoio jurídico ou informação. Nós vamos auxiliar em todos os pontos necessários”, diz.

Com a formação de alunos, o projeto se expandiu para outros dois municípios, Marituba e Igarapé-Açu. “São os ex-alunos que agora levam o conhecimento para outros jovens, para disseminar nossa instrução”. Entre os planos futuros, está ainda o programa Capacitação Solidária, que em parceria com o Senai oferecerá cursos profissionalizantes como o de soldador, o de olaria e o de panificação.

Para Jefferson, criar a ONG mudou completamente a vida, principalmente nas próprias relações pessoais. “Hoje percebo que tenho que ser um referencial se quiser cobrar algo. Antes, por ser lutador, eu achava que estava acima de tudo. Agora vejo o oposto, vejo o quanto os outros são necessários”, afirma.

PELAS ÁGUAS

“Acredito na mobilização social como fator de mudança. Temos vários resultados que nos provam isso”. E foi com o espírito de integração que Jefferson e Hernane, parceiros do projeto, representantes da prefeitura de Benevides e do CMDCA fizeram uma atividade diferente no último sábado (06). Eles deixaram o tatame e os campos de futebol para doar cestas básicas às famílias ribeirinhas na área rural do município. A ideia era levar o projeto aqueles que ainda não o conheciam, devido, principalmente, ao isolamento geográfico.

Para chegar ao local é necessário percorrer 30 minutos numa estrada de piçarra e mais 50 minutos pelo braço de rio Taiassuí numa rabeta, pois embarcações maiores não transitam por ali. Lá estão apenas três propriedades privadas, que formam a Comunidade Santo Amaro. Uma escola de Ensino Fundamental, até a 4ª série, completa o cenário de tranquilidade e plena harmonia com a natureza.

Rosiete Furtado da Silva sempre morou na localidade e não deseja grandes mudanças. Seus sonhos são simples: água encanada e energia elétrica. Ainda hoje a água de consumo é retirada do rio e limpa com cloro. A iluminação ocorre apenas duas horas por dia, graças a um gerador próprio, adquirido com a fonte principal de renda: cacau e açaí. Ao final do mês, se a colheita for boa, a família consegue reunir um salário mínimo. “Essa cesta vai ser muito útil, eu nem imaginava que eles viriam. Foi uma ótima surpresa. Nunca tinha acontecido isso comigo”, diz, sorridente.

Maria de Jesus, 53 anos, trabalhou por quase duas décadas na escola da comunidade. Agora está desempregada e precisa cuidar do marido, operado recentemente. Os filhos trabalham e ela tenta se virar como pode, vendendo frutas e mantendo aberto um pequeno bar, em frente à sua casa. Com todas as restrições financeiras, a ajuda alheia é fundamental. “Os amigos sempre que podem nos visitam, mandam algo, como eles [voluntários do projeto] estão fazendo agora. A gente só tem a agradecer”, afirma.

“Solidariedade é amar o próximo. As pessoas hoje criam um escudo de proteção, se isolando um pouco. Queremos romper essa barreira. Eu era um cara tímido, falava pouco e mudei com força de vontade. Se eu quero ficar bem, tenho que fazer o bem para os outros”, ensina Jefferson.

(Diário do Pará)

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